Peixe-cachorro: caninos inferiores encaixam no maxilar e sustentam dieta de peixes na Amazônia

Peixe cachorro utiliza presas inferiores de quinze centímetros para perfurar e segurar presas em águas da Amazônia
Ilustração: Revista Amazônia

Caninos da mandíbula inferior se encaixam em aberturas do maxilar superior, e a dieta é de peixes, segundo estudos sobre os Cynodontidae.

Peixe-cachorro é um nome popular dado a vários peixes predadores de dentes caninos de rios sul-americanos. Um dos casos mais estudados é a cachorra-facão, Rhaphiodon vulpinus, da família Cynodontidae, de corpo alongado e comprimido, boca grande e oblíqua e um par de caninos bem desenvolvido na mandíbula inferior. A descrição consta da revisão da subfamília Cynodontinae publicada em 2000 pela ictióloga Mônica Toledo-Piza na revista American Museum Novitates, do Museu Americano de História Natural.

Segundo essa revisão, a espécie ocorre na bacia amazônica, do sistema do rio Ucayali, no Peru, até o rio Xingu, no Brasil, e também nas bacias dos rios Tocantins e Capim. Ocorre ainda no Paraná, onde, de acordo com pesquisadores que analisaram a população do reservatório de Ilha Solteira, ela ocupava originalmente o baixo e o médio rio e passou a aparecer em trechos superiores depois da formação do reservatório de Itaipu, em 1983.

Caninos que se encaixam no maxilar

O traço mais característico do grupo é o encaixe dos dentes. De acordo com Toledo-Piza, os caninos da mandíbula inferior entram em aberturas correspondentes no maxilar superior, o que permite que a boca se feche por completo. Um dos caninos anteriores da mandíbula é maior que os demais e se projeta para dentro do maxilar superior quando a boca está fechada.

Em um parente próximo, a payara (Hydrolycus scomberoides), a descrição é semelhante. O professor Don Orth, da Virginia Tech, escreve em texto da disciplina de ictiologia da universidade que as presas longas e afiadas da mandíbula inferior se encaixam em bolsas no crânio, sem as quais o peixe não conseguiria fechar a boca. O mesmo texto afirma que esses peixes são piscívoros especializados, que usam os caninos da mandíbula para perfurar a presa.

Uma dieta de peixes

Os peixes-cachorro da família Cynodontidae são predadores de outros peixes. Um estudo publicado na revista Biota Neotropica examinou o conteúdo estomacal de 214 exemplares de Rhaphiodon vulpinus no alto rio Tocantins, em Goiás, antes, durante e depois do represamento pela usina hidrelétrica de Serra da Mesa. Os autores confirmaram que a espécie é piscívora, com consumo ocasional de insetos e de material vegetal. As presas mais frequentes foram Geophagus cf. surinamensis, Hemiodus ternetzi e Pimelodus blochii, conforme a fase do rio, e a riqueza de presas foi maior no reservatório.

O estudo não encontrou correlação entre o tamanho do predador e o da presa, mas os predadores maiores consumiram presas de uma faixa ampla de tamanhos. Na bacia do alto Paraná, uma pesquisa publicada em 2019 na revista Acta Limnologica Brasiliensia, de Orlandi Neto e colegas, analisou 51 exemplares do reservatório de Ilha Solteira, coletados entre 2014 e 2016, com 23 a 47,6 centímetros de comprimento padrão. A dieta foi composta de peixes pequenos, como Geophagus sveni, e de camarões do gênero Macrobrachium. Os autores interpretam a abundância de camarões como sinal de oportunismo alimentar e classificam a espécie como predadora de perseguição, de hábito pelágico.

Como o grupo caça

A forma do corpo ajuda a entender a estratégia. Orth observa que o olho grande, o corpo comprimido lateralmente e a boca oblíqua e ampla sugerem caçadores visuais, capazes de se deslocar rápido para capturar peixes vivos. Na payara, segundo o mesmo texto, o número de indivíduos e a biomassa aumentaram com a transparência da água, o que reforça a importância da visão na caça.

O museu de história natural da Universidad Nacional de Colombia, em material sobre a payara, descreve os dois caninos da mandíbula inferior como instrumento para fisgar e segurar o peixe de que a espécie se alimenta. A descrição se refere à payara e serve de referência para o grupo, não como medida feita em cada espécie.

Reprodução acompanha a cheia do rio

A biologia reprodutiva da cachorra-facão foi estudada na bacia do Tocantins por Neuberger e colegas, em artigo de 2007 na revista Neotropical Ichthyology. O período reprodutivo se estendeu essencialmente de novembro a janeiro, com pico em novembro. Os machos ficaram ativos por mais tempo do que as fêmeas, de setembro a abril, contra outubro a março delas. A reprodução é sazonal e sincronizada com a subida das águas.

Segundo o mesmo estudo, a maturidade sexual é atingida com 27,0 centímetros nas fêmeas e 21,7 centímetros nos machos, no ponto em que metade dos indivíduos já está madura. A fecundidade média foi de cerca de 98 mil ovócitos por fêmea, com variação de 38 mil a 216 mil, e os machos superaram as fêmeas na proporção de 1,6 para 1.

O que o nome popular esconde

O nome peixe-cachorro, ou cachorra, serve a mais de uma espécie, e o que vale para uma nem sempre se aplica à outra. Para a cachorra-facão, os trabalhos revisados descrevem um predador de peixes, de hábito pelágico, com caninos que se encaixam no maxilar e reprodução na cheia dos rios. Esse conjunto de fatos, medidos em campo e em museus, é o que sustenta a imagem do peixe-cachorro nos rios da Amazônia e de outras bacias sul-americanas.

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