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Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

Pesquisa da UFPR encontrou sinais biológicos de contaminação que podem afetar ecossistemas, produção rural e abastecimento.

Lesões nas brânquias, alterações no fígado e danos genéticos transformaram peixes cascudos em um alerta sobre a qualidade dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro, no Oeste do Paraná. Os sinais foram identificados em uma pesquisa de doutorado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizada pela Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental da UFPR Palotina, com análises de água, organismos aquáticos e mapas de uso do solo. O estudo relaciona os efeitos à degradação ambiental associada à atividade agrícola, ao uso de fertilizantes e agrotóxicos, à urbanização e ao lançamento inadequado de efluentes.

A pesquisa não trata apenas da presença de poluentes em uma amostra isolada. Ao observar como os contaminantes atingem os organismos ao longo do tempo, o trabalho revela sinais que podem passar despercebidos em uma medição convencional da água. A consequência mais ampla é a perda gradual da qualidade dos ecossistemas, com riscos para a biodiversidade e para atividades que dependem dos rios, como irrigação, abastecimento rural e industrial, pesca e piscicultura.

O alerta apareceu no corpo dos peixes

O organismo usado como indicador foi o cascudo Hypostomus ancistroides, espécie de água doce encontrada no fundo dos rios do Paraná. O peixe foi escolhido porque raspa o substrato para se alimentar e permanece em contato próximo com sedimentos, onde determinados contaminantes podem se acumular.

Os pesquisadores capturaram os animais com redes de pesca, covos e redes de espera. Depois, coletaram tecidos e analisaram diferentes níveis de resposta biológica. As brânquias receberam atenção especial por serem responsáveis pelas trocas gasosas entre o animal e a água. Como estão permanentemente expostas ao ambiente, elas podem registrar alterações provocadas por substâncias presentes no curso d’água.

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

Também foram avaliados o fígado, estruturas celulares e o material genético dos peixes. A combinação dessas informações permitiu identificar alterações fisiológicas, bioquímicas, histológicas e genéticas, formando um quadro mais amplo do que o fornecido por uma simples análise físico-química.

“Quando esses efeitos ocorrem de forma contínua, há maior risco de redução das populações, diminuição da diversidade biológica e desaparecimento de espécies mais sensíveis à contaminação”, explicou Lilian Dena dos Santos, uma das coordenadoras do Laboratório de Qualidade de Água e Limnologia da UFPR Palotina.

Nove pontos de coleta cruzaram água, peixes e território

O trabalho foi conduzido por Fernando Garrido de Oliveira, sob orientação de Lilian dos Santos, e combinou monitoramento ambiental, biomonitoramento e ferramentas geotecnológicas. Amostras de água foram retiradas em nove pontos dos três rios, enquanto os peixes foram examinados para verificar se a exposição ambiental já havia produzido efeitos no organismo.

A diferença entre os dois métodos é central para compreender o resultado. O monitoramento da água mostra a concentração de substâncias em determinado momento. Já o biomonitoramento utiliza os seres vivos como registradores de exposição e efeito, permitindo identificar impactos acumulados ou respostas que não aparecem na coleta pontual.

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

Segundo a UFPR, a pesquisa encontrou aumento de nutrientes, maior turbidez, excesso de sedimentos e presença de metais nos ambientes estudados. Esses indicadores são compatíveis com processos de degradação e precisam ser interpretados em conjunto com as alterações observadas nos peixes. A fonte não informa, no material divulgado, as concentrações individuais de cada metal nem estabelece um ranking de contaminação entre os três rios.

Segundo a UFPR, a pesquisa identificou alterações biológicas em peixes dos rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro, no Oeste do Paraná, a partir de análises realizadas em nove pontos de coleta.

A agricultura aparece no centro da pressão sobre os rios

O Oeste do Paraná tem uma economia rural de alta intensidade produtiva, com forte presença da sucessão soja e milho. De acordo com os pesquisadores, o modelo de ocupação do solo interfere diretamente na dinâmica dos rios quando reduz a vegetação ciliar, acelera a erosão e transporta sedimentos para os cursos d’água.

Em períodos de chuva, o escoamento superficial pode carregar solo, nutrientes, fertilizantes e resíduos de agrotóxicos das áreas cultivadas para córregos e rios. O material se deposita no leito, aumenta o assoreamento e modifica os habitats usados por peixes, invertebrados e plantas aquáticas. O excesso de nutrientes também pode favorecer a eutrofização, processo que altera o equilíbrio do ambiente e pode reduzir a disponibilidade de oxigênio na água.

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

O problema, portanto, não se resume a uma fonte única. A agricultura pode contribuir com sedimentos e insumos, enquanto áreas urbanas acrescentam esgoto e efluentes sem tratamento adequado. A piscicultura, quando não dispõe de manejo eficiente, também pode aumentar o aporte de matéria orgânica e nutrientes aos ambientes aquáticos.

Essa combinação ajuda a explicar por que os biomarcadores são importantes. Mesmo quando uma substância não é detectada em níveis elevados em uma coleta específica, o organismo pode apresentar sinais de estresse decorrentes de exposição repetida ou da interação entre diferentes contaminantes.

O que as lesões podem provocar na fauna

As alterações observadas não significam automaticamente que todos os peixes estejam condenados ou que uma espécie tenha desaparecido dos rios. Elas indicam, porém, que os organismos estão enfrentando condições capazes de afetar funções essenciais, como respiração, crescimento, reprodução e defesa contra doenças.

Quando a pressão ambiental persiste, espécies mais sensíveis tendem a perder espaço para organismos tolerantes à poluição. O resultado pode ser uma comunidade aquática menos diversa e mais simples, com menor capacidade de responder a novas alterações, como estiagens, ondas de calor ou mudanças no regime de chuvas.

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

“Os ecossistemas tendem a se tornar mais simples e menos resilientes, favorecendo a predominância de organismos mais tolerantes à poluição e reduzindo o equilíbrio ecológico dos ambientes aquáticos”, afirmou Lilian dos Santos.

O dano também pode se espalhar pela cadeia alimentar. Peixes contaminados servem de alimento para outros animais, e determinadas substâncias podem se acumular nos organismos e ser transferidas entre os níveis da cadeia. O pesquisador Fernando de Oliveira ressalta que essa possibilidade exige atenção para a qualidade da água utilizada no abastecimento, na irrigação, na recreação e nas atividades produtivas.

Isso não equivale a afirmar que a água dos três rios esteja imprópria para qualquer uso ou que exista um risco comprovado e imediato à população. O material divulgado não apresenta uma avaliação sanitária da água destinada ao consumo humano, nem informa limites legais ultrapassados. A evidência apresentada é ambiental e biológica, indicando necessidade de acompanhamento contínuo e de investigações específicas sobre cada uso da água.

O impacto ultrapassa os limites do Paraná

A situação descrita no Oeste paranaense dialoga com um desafio observado em diferentes regiões brasileiras: proteger rios que sustentam agricultura, cidades, criação de animais e biodiversidade ao mesmo tempo em que as margens são ocupadas e as bacias recebem cargas crescentes de sedimentos e efluentes.

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

Na Amazônia, a conexão é especialmente relevante para os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Apesar das diferenças entre os biomas e os modelos produtivos, rios amazônicos também sofrem com desmatamento de matas ciliares, erosão, expansão urbana, mineração, esgoto e mudanças no uso do solo. O estudo da UFPR reforça que a qualidade de um rio não deve ser medida apenas pela aparência da água ou por uma coleta isolada.

O biomonitoramento com espécies locais pode ajudar a detectar efeitos antes que a degradação se torne visualmente evidente. Para isso, são necessários protocolos contínuos, séries históricas, identificação das fontes de poluição e transparência sobre os resultados. Sem esses elementos, a gestão pública tende a reagir depois que os danos já atingiram a fauna e comprometeram usos econômicos da água.

A recuperação depende de ações combinadas

Os pesquisadores defendem a recuperação e a preservação das matas ciliares como uma das medidas prioritárias. A vegetação das margens reduz a erosão, retém parte dos sedimentos e ajuda a proteger os habitats aquáticos. A recomposição, entretanto, não resolve sozinha o problema se o manejo das lavouras e o tratamento dos efluentes continuarem inadequados.

Também são apontados como necessários o controle de processos erosivos e do assoreamento, a ampliação dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto e a adoção de práticas agrícolas que reduzam o uso inadequado de fertilizantes e agrotóxicos. No setor aquícola, o tratamento dos efluentes e o controle do excesso de matéria orgânica podem diminuir a pressão sobre os rios.

Peixes com lesões e danos genéticos expõem degradação em três rios do Oeste do Paraná e ameaçam usos da água
Foto: ciencia.ufpr.br

Outra recomendação é unir análises químicas e biomarcadores. A primeira identifica o que está presente na água no momento da coleta. A segunda mostra como os organismos estão respondendo. Juntos, os métodos podem formar um sistema de alerta mais sensível para orientar ações de fiscalização, restauração e planejamento territorial.

Uma tese premiada, mas com perguntas ainda abertas

O estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e pela Fundação Araucária. A tese foi indicada como a melhor de doutorado de 2025 pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Tecnologia Ambiental. Um artigo derivado da pesquisa também recebeu prêmio no eixo Saúde e Meio Ambiente do VI Congresso da Sociedade de Análise de Risco Latino-Americana.

A tese completa, intitulada “Análise integrada da qualidade e saúde dos ecossistemas aquáticos de três rios do oeste paranaense”, está disponível no Acervo Digital da UFPR. O estudo também originou um artigo em inglês, de acesso aberto, sobre a avaliação ambiental dos rios e o índice integrado de resposta a biomarcadores em Hypostomus ancistroides.

Entre as lacunas que permanecem estão a necessidade de acompanhar os rios por períodos mais longos, detalhar a origem de cada contaminante e verificar como as alterações variam entre estações do ano. Também é necessário esclarecer quais trechos têm maior pressão e quais medidas já estão sendo adotadas pelos municípios e pelos usuários das bacias.

O próximo passo indicado pelos pesquisadores é manter o monitoramento da água e dos organismos, ampliar a conservação das margens e transformar os resultados em ações de manejo capazes de reduzir a entrada de sedimentos, nutrientes, metais e efluentes nos três rios.

Respostas rápidas sobre a pesquisa

Quais rios foram analisados?

A pesquisa avaliou os rios São Camilo, Santa Fé e Pioneiro, no Oeste do Paraná, com coletas de água em nove pontos e análise de peixes da espécie Hypostomus ancistroides.

Os resultados comprovam que a água está imprópria para consumo?

Não. O estudo identificou sinais de degradação ambiental e efeitos biológicos nos peixes, mas o material divulgado não apresenta uma avaliação sanitária específica para consumo humano nem informa se os limites legais foram ultrapassados.

Por que analisar peixes em vez de apenas coletar água?

Porque a água registra a condição do ambiente no momento da coleta, enquanto os biomarcadores podem indicar efeitos de exposição acumulada ou contínua sobre os organismos que vivem no rio.

Com informações de UFPR.

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