Perereca-de-vidro tem ventre translúcido e se camufla nas folhas dos riachos da Mata Atlântica

Perereca-de-vidro usa pele ventral translúcida para suavizar contornos corporais e ocultar órgãos nos riachos da Mata Atlântica
Ilustração: Revista Amazônia

Estudos publicados em 2020 e 2022 mostram que a transparência das pererecas-de-vidro é parcial e que ela depende de camuflagem pela borda do corpo e de uma adaptação do sangue e do fígado.

As pererecas-de-vidro, da família Centrolenidae, receberam esse nome por causa da pele do ventre, que deixa à mostra órgãos internos como o coração e o intestino. Na Mata Atlântica, a espécie Vitreorana uranoscopa ocorre do Espírito Santo e do sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, com registros também no nordeste da Argentina. Os adultos medem entre 2 e 3 centímetros e vivem junto a riachos de floresta, na vegetação da mata ciliar, segundo o Herpetocapixaba, projeto de divulgação de herpetologia do Espírito Santo.

O dorso é esverdeado e o ventre é translúcido. Sobre o fígado há um peritônio branco, que reveste o órgão, de acordo com o mesmo projeto. Em repouso, a perereca costuma se achatar contra a folha e ficar imóvel até se sentir segura. Dois estudos recentes, de 2020 e de 2022, ajudam a entender o que a translucidez faz pelo animal e o que ela exige do seu organismo.

Translúcida, e não transparente

A ideia de que esses anfíbios são plenamente transparentes é uma simplificação. Um estudo publicado em 2020 na revista PNAS por pesquisadores ligados à Universidade de Bristol, no Reino Unido, analisou duas espécies da família: Teratohyla midas, na Guiana Francesa, e Espadarana prosoblepon, no Equador. Os autores concluíram que a pele do dorso tem pigmentação esparsa e que os animais são mais bem descritos como translúcidos do que como transparentes. Nenhuma das duas espécies é brasileira, mas ambas pertencem à mesma família da perereca-de-vidro da Mata Atlântica.

Camuflagem pela borda difusa

Segundo o estudo, as rãs permanecem paradas durante o dia, achatadas contra as folhas, com as pernas dobradas junto ao corpo. Os predadores registrados na natureza foram principalmente aves, a julgar pelas marcas de bico encontradas nos animais. Os pesquisadores observaram que as rãs são sempre verdes, mas ficam mais claras ou mais escuras conforme o fundo, o que as aproxima da cor da folha. A mudança foi explicada sobretudo por variação de luminosidade, e não de matiz, e a reflexão de ultravioleta, tanto da rã quanto do fundo, foi pequena.

As pernas são mais translúcidas que o corpo. Com elas dobradas junto aos flancos, o conjunto forma um gradiente suave entre a cor da folha e a cor do dorso, em vez de uma borda nítida e de alto contraste. Os autores deram a esse mecanismo o nome de difusão de borda e o descreveram como uma forma de camuflagem diferente da transparência verdadeira e da mudança ativa de cor.

O sangue escondido no fígado

Em dezembro de 2022, a revista Science publicou um estudo liderado por Carlos Taboada, então na Universidade Duke, nos Estados Unidos, em parceria com Jesse Delia, do Museu Americano de História Natural, e outros pesquisadores. A equipe trabalhou com a espécie Hyalinobatrachium fleischmanni e usou microscopia fotoacústica, técnica que dispensa contrastes e cirurgia, para localizar as hemácias dos animais em repouso. O estudo não testou a perereca-de-vidro da Mata Atlântica, mas trata de uma espécie da mesma família.

Os resultados mostraram que a rã em repouso retira cerca de 89% das hemácias da circulação e as guarda no fígado, que contém cristais refletivos de guanina e funciona como um espelho que esconde as células. Com isso, a transparência aumenta de duas a três vezes. Quando o animal fica ativo, devolve as hemácias ao sangue e perde a transparência. Segundo Delia, se a rã está acordada, estressada ou anestesiada, o sistema circulatório fica cheio de hemácias e o animal é opaco. Os autores também destacaram que os animais evitam a formação de coágulos mesmo com tamanha concentração de células, algo que pode interessar à pesquisa médica.

Reprodução sobre os riachos

A reprodução de Vitreorana uranoscopa está ligada a riachos de correnteza. De acordo com a descrição da espécie no AmphibiaWeb, a fêmea deposita os ovos em uma única camada sobre a face superior de folhas que pendem acima da água. Quando os ovos eclodem, os girinos caem no riacho e seguem o desenvolvimento.

Em outros gêneros da família, como Hyalinobatrachium, os machos permanecem junto da desova por semanas, hidratando e limpando os ovos e protegendo-os de predadores. Estudos com Hyalinobatrachium valerioi, publicados no Journal of Herpetology, indicaram que a presença do macho aumenta a sobrevivência dos embriões. A organização britânica Froglife relata que machos de rãs-de-vidro afastam vespas e formigas que atacam os ovos. O padrão de cuidado varia entre as espécies da família, e a descrição de cada uma deve ser consultada separadamente.

Girinos no leito do riacho

Os girinos de Vitreorana uranoscopa são típicos de riachos: ficam escondidos no folhiço, na lama, entre gravetos e na areia do fundo, geralmente perto de trechos de água turbulenta, segundo o AmphibiaWeb. Esse hábito reduz o risco de serem arrastados pela correnteza. A Froglife lembra que os riachos onde as rãs-de-vidro se desenvolvem costumam abrigar peixes e crustáceos predadores, o que torna o esconderijo no fundo uma proteção importante.

Ameaças e conservação

A espécie é classificada como pouco preocupante na Lista Vermelha da IUCN, mas depende de florestas com riachos limpos. Descrições da espécie apontam como ameaças o corte raso da floresta, a construção de barragens, a expansão do turismo e dos assentamentos humanos, além da baixa tolerância à poluição de rios e riachos. Como os ovos são postos em folhas sobre a água, a perda da vegetação das margens afeta diretamente a reprodução.

Os estudos de 2020 e 2022 mostram que a imagem de um animal de vidro é só parte da história. A translucidez do ventre convive com um dorso verde e pigmentado, com pernas que suavizam o contorno do corpo e, ao menos em uma espécie da família, com um mecanismo fisiológico que guarda o sangue no fígado durante o repouso. Preservar a mata ciliar e a qualidade da água dos riachos é a condição para que esses mecanismos continuem sendo observados na Mata Atlântica.

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