Pesquisa reúne 4.072 peixes de 127 espécies em 35 riachos do Acre e associa menor mata ciliar à perda de diversidade

Pesquisa reúne 4.072 peixes de 127 espécies em 35 riachos do Acre e associa menor mata ciliar à perda de diversidade
Ilustração: Revista Amazônia

Levantamento em áreas protegidas e não protegidas relacionou a intensidade e o tempo do desmatamento nas margens à redução das espécies de peixes.

Em riachos amazônicos, a redução da mata nas margens aparece associada a uma mudança direta na comunidade de peixes. Quanto maior a perda de vegetação ciliar e quanto mais tempo ela dura, menor tende a ser a diversidade registrada nos ambientes aquáticos estudados no Acre.

A relação foi observada pelo biólogo Lucas Pires Oliveira, da Universidade Federal do Pará, em um levantamento realizado entre 2019 e 2024. A pesquisa examinou 35 riachos, reuniu 4.072 indivíduos e identificou 127 espécies de peixes em duas reservas extrativistas e em uma área não protegida próxima a uma delas.

Riachos protegidos concentraram mais espécies de peixes

Nas duas reservas extrativistas, os riachos apresentaram comunidades com 75 e 60 espécies. Na área não protegida, onde a perda de vegetação às margens era maior, foram registradas 58 espécies. A diferença não representa apenas uma variação no número total de animais capturados, mas indica que os riachos submetidos a diferentes níveis de alteração abrigavam conjuntos distintos de peixes.

O levantamento incluiu ambientes de pequena escala, nos quais a mata ciliar mantém contato próximo com a água. Entre os peixes associados a esse tipo de paisagem está o tambuatá, que vive no fundo de rios de águas lentas ou paradas. A presença de espécies com hábitos diferentes ajuda a formar uma comunidade diversificada, mas cada grupo depende de condições específicas no riacho para encontrar alimento, abrigo e áreas adequadas ao seu modo de vida.

A vegetação das margens interfere no ambiente aquático

A mata ciliar funciona como uma faixa de transição entre o solo e o curso d’água. Suas raízes ajudam a manter as margens, enquanto folhas, galhos e outros materiais vegetais chegam ao riacho e participam da formação de matéria orgânica. A cobertura também reduz a exposição direta da água ao sol e contribui para conservar características físicas importantes do ambiente.

Quando essa vegetação é removida, o riacho deixa de receber parte desses elementos e passa a ter margens mais expostas. O solo pode ser levado para a água com maior facilidade, alterando o fundo e os espaços usados por diferentes peixes. Essas mudanças atingem espécies com hábitos variados, incluindo aquelas que procuram alimento junto ao leito, como o tambuatá, e podem reduzir a quantidade de ambientes disponíveis dentro do mesmo curso d’água.

O tempo do desmatamento também apareceu no resultado

A análise não relacionou a diversidade apenas à extensão da perda de mata. Os resultados também refletiram a duração do desmatamento nas margens dos riachos. Assim, áreas submetidas por mais tempo à retirada da vegetação apresentaram uma condição associada a comunidades menos diversas, enquanto a manutenção da cobertura ciliar esteve ligada a uma variedade maior de espécies.

Essa dimensão temporal é importante porque a transformação da margem não termina no momento em que as árvores são retiradas. A alteração do solo, da entrada de material vegetal e das condições do leito pode permanecer enquanto a vegetação não se recompõe. A pesquisa, publicada em fevereiro no Journal of Environmental Management, examinou essa relação a partir das comunidades encontradas durante as coletas realizadas ao longo de cinco anos.

O estudo amplia o olhar sobre a conservação no Acre

Os números mostram a dimensão do levantamento: 4.072 peixes de 127 espécies distribuídos em 35 riachos. Nas reservas extrativistas, os registros chegaram a 75 e 60 espécies, enquanto a área não protegida apresentou 58. A diferença reforça que proteger apenas a água não basta quando a faixa de vegetação que acompanha o riacho também sofre alterações.

Os resultados apontam uma associação entre a perda da mata ciliar e a redução da diversidade, mas não transformam todos os riachos em ambientes iguais nem estabelecem que uma única mudança explique cada diferença observada. Características locais e o histórico de uso das margens fazem parte da interpretação. Divulgado em 21 de abril de 2026, o estudo aproxima a conservação da Amazônia de uma cena concreta: a floresta que acompanha um pequeno riacho também participa da vida que existe dentro dele.

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