
Estudo da Universidade Concordia, no Canadá, testa um ciclo fechado de materiais que pode reduzir a dependência de cargas levadas da Terra.
Uma chave inglesa e uma estrutura leve, esponjosa, capaz de se deformar para absorver impacto saíram de uma impressora 3D feita com dois ingredientes improváveis: restos de plástico espacial reciclado e um pó que imita o solo da Lua. O experimento foi conduzido na Universidade Concordia, em Montreal, no Canadá, e publicado na revista Composites Part B: Engineering. O objetivo é reduzir o custo de levar material da Terra para a futura construção de bases lunares.
O problema do frete até a Lua
Segundo a Concordia, levar um único quilo de carga à Lua pode custar mais de 1 milhão de dólares, de acordo com algumas estimativas. Qualquer plano de habitat permanente depende de baixar esse valor.
Por isso, engenheiros olham há tempo para o regolito, o conjunto de fragmentos rochosos pontiagudos e poeira que cobre a superfície lunar. Ele é abundante e já está no local, o que o torna candidato a matéria-prima de impressão.
Como o composto foi feito
A equipe, formada por Farshad Malekpour, mestre em 2026, e pelo professor Mehdi Hojjati, do Departamento de Engenharia Mecânica, Industrial e Aeroespacial, usou um termoplástico de alto desempenho chamado poli(éter cetona cetona), o PEKK.
O plástico veio de uma estrutura impressa anteriormente. O refugo foi triturado, moído até virar pó e seco com calor. Depois, foi misturado a um simulante de regolito lunar disponível no mercado, transformado em filamento e impresso em 3D.
Foram produzidas formas-padrão para ensaios e uma estrutura sacrificial. Esse tipo de peça é projetado para absorver energia e se deformar sob carga, sem função estrutural permanente. Aqui, a configuração era leve e esponjosa, desenhada para o plástico dobrar e voltar à forma original sem dano. O comportamento serve de referência para o que o sistema de pouso de um módulo lunar precisaria suportar no impacto.
O que os testes mostraram
Os pesquisadores avaliaram a resposta do material ao calor, ao estiramento, à flexão e à compressão. Também submeteram algumas amostras a tratamento térmico para ver como isso alterava o desempenho.
- O PEKK foi reciclado três vezes sem degradação significativa das propriedades estruturais e mecânicas.
- As partículas de regolito ficaram distribuídas de maneira uniforme no plástico.
- O composto mostrou estabilidade térmica.
- O simulante reduziu o encolhimento e o empenamento durante o tratamento térmico.
- Ele também baixou a temperatura em que o PEKK cristaliza no aquecimento, o que torna esse tratamento mais eficiente.
A redução do empenamento importa porque, na Lua, há pouco ou nenhum acesso a equipamentos para processamento adicional.
As limitações do resultado
O composto também apresentou mais porosidade interna que o PEKK puro, o que o deixou mais frágil. Os autores observam que o plástico reciclado em si não sofreu degradação. A tecnologia, destacam, ainda é muito nova.
Segundo a Universidade Concordia, o estudo está entre os primeiros a demonstrar uma abordagem de ciclo fechado que combina a reciclagem de um polímero de grau espacial com regolito lunar. Hojjati afirma que se trata de um caminho promissor para o uso eficiente de materiais escassos na exploração espacial. A pesquisa recebeu financiamento do Conselho de Pesquisas em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá.
O que isso tem a ver com a Amazônia
A lógica de usar o que existe no local e reaproveitar o que já foi fabricado dialoga com um desafio conhecido na região amazônica: o custo de transportar insumos a comunidades isoladas, onde o acesso depende de rios e longas distâncias. O estudo não trata da Amazônia, mas ilustra como a combinação de reciclagem e matéria-prima local tem sido explorada em contextos de logística cara.
Os próximos passos dependem de novos testes que enfrentem a fragilidade causada pela porosidade e de demonstrações além do simulante de laboratório, já que o trabalho usou um material que imita o solo lunar, e não regolito real.
Com informações de Universidade Concordia.
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