Projeto transforma espécies nativas pouco conhecidas em alimento, renda e pesquisa para 70 famílias

Projeto transforma espécies nativas pouco conhecidas em alimento, renda e pesquisa para 70 famílias
Foto: Pequiá, by Julcéia Camilo

Iniciativa concluída reuniu seis universidades e catalogou dados nutricionais de 58 espécies da biodiversidade brasileira.

Frutas brasileiras pouco presentes no supermercado ou no prato cotidiano foram tratadas como oportunidade de alimentação, pesquisa e renda por uma iniciativa que conectou comunidades tradicionais, universidades e instituições internacionais. O projeto Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade para Alimentação e Nutrição, conhecido como BFN, começou em 2012 e foi concluído após apoiar atividades em cinco regiões do país.

Entre as espécies consideradas estão o camu-camu, a mangaba e o jenipapo. A proposta foi estimular o cultivo, o processamento e a comercialização de plantas nativas com potencial nutricional, mas ainda pouco conhecidas fora de seus territórios de origem. A gestão financeira no Brasil ficou a cargo do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, o Funbio.

Da fruta regional ao conhecimento de uso nacional

O ponto central do BFN foi enfrentar uma contradição da agricultura brasileira: embora o país tenha uma das maiores diversidades de plantas do mundo, a maior parte das espécies cultivadas comercialmente é exótica. As plantas nativas, por sua vez, continuam concentradas em mercados regionais e nas práticas de comunidades tradicionais.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil reúne cerca de 55 mil espécies de plantas descritas, o equivalente a 22% do total mundial. Esse patrimônio biológico, no entanto, não se converte automaticamente em variedade alimentar. Para isso, são necessários conhecimento técnico, cadeias de produção, formas de conservação e consumidores interessados.

Segundo o Funbio, o projeto BFN foi concluído no Brasil após envolver seis universidades em cinco regiões e trabalhar com espécies associadas aos biomas Cerrado e Caatinga. A iniciativa também fez parte de uma articulação internacional com o Fundo Global para o Meio Ambiente, a Bioversity International e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

O trabalho feito com comunidades quilombolas

Uma das frentes mais práticas foi a capacitação de 70 famílias de comunidades quilombolas. Os participantes receberam orientação para processar e armazenar frutas locais e suas polpas, etapa decisiva para reduzir perdas e permitir que produtos sazonais sejam utilizados por mais tempo.

Esse tipo de conhecimento interfere diretamente na possibilidade de uma espécie deixar de ser apenas um recurso de coleta e se transformar em produto. A qualidade da polpa, o armazenamento adequado, a segurança do alimento e a apresentação comercial são fatores que influenciam tanto o consumo doméstico quanto a entrada em feiras, restaurantes e outros mercados.

A proposta também desloca o debate sobre biodiversidade. Em vez de tratar a conservação somente como proteção de áreas naturais, o projeto relacionou a permanência das espécies ao seu uso sustentável e à valorização de quem detém conhecimentos sobre elas. A geração de renda para pequenos produtores e comunidades tradicionais aparece, assim, associada à manutenção da diversidade agrícola e alimentar.

O que os dados revelam sobre a biodiversidade comestível

O projeto reuniu informações nutricionais de 58 novas espécies apenas no Nordeste. Esse levantamento ajuda a preencher uma lacuna importante: muitas plantas brasileiras são conhecidas localmente, mas ainda não possuem dados sistematizados suficientes para orientar políticas públicas, pesquisas, produção comercial ou recomendações alimentares.

O resultado foi organizado em diferentes produtos de conhecimento. Entre eles estão um livro de receitas, dois volumes dedicados a espécies nativas das regiões Sul e Centro-Oeste e um banco de dados sobre a composição nutricional da biodiversidade brasileira.

Esses materiais cumprem uma função que vai além da divulgação. Ao reunir informações sobre nutrientes, formas de preparo e características de espécies, eles podem facilitar a aproximação entre agricultores, pesquisadores, chefs, escolas e consumidores. Também ajudam a dar visibilidade a alimentos que não costumam aparecer nas estatísticas mais conhecidas da produção agrícola.

Por que o tema importa para a Amazônia

Para os estados amazônicos, a discussão é especialmente relevante porque a região reúne uma grande variedade de frutos e plantas associados ao conhecimento de povos indígenas, comunidades quilombolas, extrativistas e agricultores familiares. O camu-camu, citado pelo projeto, é um exemplo de espécie nativa da Amazônia com potencial de uso alimentar e comercial.

A experiência do BFN não significa que toda espécie nativa possa ser transformada imediatamente em produto de mercado. Cada cadeia depende de pesquisa, manejo responsável, infraestrutura, logística e regras que protejam os conhecimentos tradicionais. Sem esses cuidados, a valorização comercial pode aumentar a pressão sobre os recursos naturais ou concentrar os ganhos fora das comunidades que mantêm esse conhecimento.

Para quem vive na Amazônia, o tema também se relaciona ao acesso a alimentos regionais e à diversificação da renda. Produtos nativos podem fortalecer economias locais quando são processados perto das áreas de produção, mas enfrentam desafios de transporte, conservação e regularidade de oferta. A experiência de capacitar famílias e organizar dados nutricionais oferece um caminho para enfrentar parte dessas dificuldades sem abandonar a escala comunitária.

O legado de uma iniciativa iniciada em 2012

O BFN foi desenvolvido em quatro países: Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia. No caso brasileiro, a estratégia combinou atuação territorial, formação técnica e produção de conhecimento, em vez de concentrar os resultados apenas em uma cultura ou em uma região.

Segundo o Funbio, o projeto BFN começou em 2012, envolveu seis universidades brasileiras e reuniu dados nutricionais de 58 espécies no Nordeste. A combinação desses números mostra a dimensão da iniciativa: o trabalho alcançou comunidades, instituições de ensino e áreas distintas do país, mantendo como eixo o uso sustentável da biodiversidade na alimentação.

O encerramento do projeto não elimina os desafios que deram origem à iniciativa. A continuidade depende de transformar os conhecimentos produzidos em políticas, negócios responsáveis, compras institucionais, pesquisas e hábitos alimentares. Os livros, os dados nutricionais e as experiências de processamento deixados pelo programa formam a base para que novas ações avancem sobre essas frentes.

O próximo passo para as instituições e comunidades envolvidas é manter a circulação desse conhecimento e ampliar a presença das espécies nativas em sistemas produtivos e mercados que respeitem os territórios de origem.

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