
Quem viaja do Canadá aos trópicos percebe: quanto mais perto do Equador, mais espécies de plantas e aves. É um dos padrões mais antigos e consistentes da natureza. Um estudo publicado na revista científica PNAS mostra que a urbanização está apagando esse padrão, e o estrago é maior justamente nos trópicos, onde fica o Brasil.
Em média, áreas urbanas perto do Equador têm 42% menos espécies de aves do que áreas naturais próximas. A média global é de 32% a menos. A 65 graus de latitude, na região de Fairbanks, no Alasca, ou do norte da Escandinávia, a perda é de apenas 12%.
Um padrão de dezenas de milhares de anos
Segundo a professora Anna Hargreaves, do Departamento de Biologia da Universidade McGill, no Canadá, autora sênior, o aumento da diversidade em direção aos trópicos existe há dezenas de milhares de anos e é forte, antigo e muito consistente. Para ela, um dos padrões biológicos mais evidentes da Terra está quase sendo apagado pela urbanização.
Como o estudo foi feito
A equipe usou o eBird, banco de dados de ciência cidadã criado pela Universidade Cornell, no qual observadores de aves de todo o mundo registram o que veem. Foram analisadas mais de 10 mil espécies em cinco continentes.
O mundo foi dividido em quadrados de um quilômetro quadrado. Só entraram na análise os quadrados com dados suficientes para capturar pelo menos 95% da diversidade local, explica Jory Griffith, estudante de pós-graduação que liderou a análise. Cada quadrado foi classificado como urbano, suburbano ou natural, conforme a densidade de população e o grau de transformação da paisagem.
Por que os trópicos perdem mais
Os pesquisadores apontam duas razões. Primeiro, a urbanização tende a ser mais intensa nas cidades tropicais, que crescem rápido e com pouco planejamento verde. Segundo, muitas aves tropicais são especialistas, adaptadas a um tipo específico de floresta, alimento ou microclima, e têm mais dificuldade de lidar com mudanças bruscas.
Nas cidades frias, as espécies que restam já são, em geral, mais generalistas e tolerantes, acostumadas a invernos rigorosos e paisagens abertas.
Verde faz diferença
A intensidade da urbanização pesou muito no resultado. Áreas suburbanas e cidades com bastante área verde tiveram queda bem menor no número de espécies. Para os autores, preservar parques, matas urbanas, beiras de rio arborizadas e quintais com plantas nativas está entre as medidas que podem permitir que aves e pessoas dividam o mesmo espaço.
A equipe agora estuda como a mudança na composição das aves afeta interações como a polinização e o controle de insetos nas cidades.
O que isso significa para o Brasil
Cidades brasileiras ainda abrigam aves conhecidas de todo mundo, como bem-te-vis, sabiás, rolinhas e periquitos. São espécies que toleram bem a cidade. As que somem primeiro são as mais exigentes, que dependem de mata. Manter corredores verdes ligando parques e áreas de floresta ao redor é uma das formas de evitar que a riqueza de aves dos trópicos vire só lembrança fora das áreas protegidas.
Perguntas frequentes
A cidade diminui o número de espécies de aves?
Sim. Em média, áreas urbanas têm 32% menos espécies que áreas naturais próximas, e perto do Equador a perda chega a 42%.
Como ajudar as aves na cidade?
Preservar áreas verdes, plantar espécies nativas e manter árvores e matas ligadas entre si reduz a perda de espécies.
Com informações da Universidade McGill e do estudo publicado na PNAS.
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