Rã-pimenta constrói ninho de espuma em bacia no solo e alimenta os girinos com ovos não fecundados

Rã pimenta extrai alcaloides da dieta de ácaros e transfere toxinas para girinos por ovos nas bromélias
Ilustração: Revista Amazônia

Estudos de campo em Minas Gerais mostram que a rã-pimenta escava uma bacia à beira da água, bate espuma sobre os ovos e deixa que os girinos cresçam comendo ovos não fecundados.

A rã-pimenta (Leptodactylus labyrinthicus) é uma rã grande e robusta que vive em áreas abertas do centro e do Sudeste do Brasil. A reprodução dela foi descrita em detalhe por Wagner Rodrigues da Silva, Ariovaldo Giaretta e Kátia Facure, da Universidade Federal de Uberlândia, em artigo publicado em 2005 no Journal of Natural History. O trabalho mostra um sistema reprodutivo próprio do grupo: os ovos ficam em ninhos de espuma construídos em bacias escavadas no solo, rente à água, e os girinos se alimentam de ovos tróficos, isto é, ovos não fecundados postos junto com os fecundados. Esse ciclo se passa no solo, à beira da água, e não em bromélias.

Tamanho e armas dos machos

Na população estudada em área de Cerrado, em Uberlândia, os machos adultos mediram em média 136,5 milímetros do focinho à cloaca, com variação de 99,9 a 158,5. As fêmeas tiveram média de 127,3 milímetros, entre 100,9 e 148,0. A diferença de tamanho entre os sexos não foi estatisticamente significativa. O que distingue os machos são os antebraços hipertrofiados e os espinhos córneos: um espinho ampliado na base do polegar e grupos de um a três espinhos de cada lado do peito.

Essas estruturas funcionam como armas. Os pesquisadores observaram machos que se agarram ventre contra ventre, em embates que chegaram a durar 30 minutos, com pausas e retomadas. Dos 16 machos adultos da amostra, seis, ou 37%, tinham cicatrizes nos ombros, na posição que coincide com o espinho do polegar do adversário.

A pele que arde e os peptídeos estudados em laboratório

A pele da rã-pimenta tem glândulas que produzem uma secreção leitosa, que causa ardor em contato com olhos e mucosas, característica que costuma explicar o nome popular. Os compostos dessa secreção descritos pela ciência são peptídeos produzidos pela própria rã, e não alcaloides obtidos de presas. Em dissertação de 2008 na Universidade de Brasília, Michelle da Silva Libério purificou da secreção a pentadactilina e a falaxina, que se mostraram ativas contra bactérias. Um estudo publicado em 2011 na revista Amino Acids testou a pentadactilina contra células de melanoma de camundongo e observou queda da viabilidade das células conforme a dose, mas o composto também foi tóxico para fibroblastos humanos normais, embora com efeito mais forte nas células tumorais. Os autores afirmam que o mecanismo exato ainda é desconhecido.

Bacia, espuma e uma noite de trabalho

Em Uberlândia, a estação reprodutiva começou com as primeiras chuvas, em agosto ou setembro, e foi até meados de janeiro. Os machos passam a cantar de uma a duas horas antes do pôr do sol, e o canto segue além da meia-noite, nas margens de corpos d’água permanentes ou temporários, inclusive na periferia da cidade. É o macho quem indica onde será a bacia, raspando a camada superficial do solo com as patas traseiras. Depois do amplexo, a fêmea completa a escavação, empurrando a lama com o focinho e as mãos, num trabalho que pode levar até três horas.

As bacias medidas tinham em média 239 milímetros no maior diâmetro e 91 milímetros de profundidade, e ficavam sempre a menos de 15 centímetros da água. No fundo havia, em geral, de 10 a 30 milímetros de água. Amplexo e desova duraram de oito a 11,5 horas nas observações, período em que o macho bate a espuma com as pernas enquanto a fêmea libera os ovos. Cada desova teve em média 2.101 ovos de cor cinza-clara. As bacias podem ser reutilizadas: na temporada de 2002 e 2003, 14 ninhos foram postos em apenas seis bacias. Para os autores, a bacia deve proteger ovos e embriões de girinos canibais e reduzir o ressecamento da espuma, que fica em contato com o solo úmido.

Ovos tróficos: o alimento dos girinos

Só uma pequena fração dos ovos de cada ninho se torna girino. Nos ninhos com mais de cinco dias analisados, o número de girinos variou de um (0,05%) a 377 (11,4%) do total de ovos postos, com média de 6,4%. O restante são os ovos tróficos, consumidos pelos girinos. Dentro do ninho, os girinos chegaram a incorporar até 12 vezes o peso seco de um ovo, nenhum passou do estágio 25 de desenvolvimento e o tamanho máximo foi de 34 milímetros. O período mais longo em que os pesquisadores acompanharam girinos na espuma foi de 25 dias, interrompido por uma chuva forte que inundou a bacia e deu acesso a uma lagoa.

Os autores registraram também o que ocorre com a espuma em períodos secos. Após mais de sete dias sem chuva, seis ninhos perderam volume e formaram uma crosta dura. Depois de chuvas leves, que não encheram a bacia, quatro ninhos voltaram a ter aspecto fresco, e os girinos ficaram bem ativos na superfície. Em dois episódios, a secagem do solo causou mortalidade de girinos.

Girinos que comem ovos de outras rãs

Ao chegar à água, os girinos mudam de cardápio. Sete girinos coletados numa poça recém-enchida tinham comido, em média, 49,4 ovos da perereca Hyla minuta e 22,6 ovos de uma rã do gênero Physalaemus. Em ninhos de espuma de Physalaemus cuvieri, todos os 14 girinos encontrados sob a espuma tinham comido ovos. Num ninho recente da própria espécie, o maior de nove girinos tinha canibalizado 28 ovos. Segundo os autores, ovos de outras espécies de anfíbios são um alimento importante depois que os girinos deixam o ninho.

O calendário reprodutivo ajuda a entender o hábito. A rã-pimenta começa a se reproduzir com as primeiras chuvas, de agosto a setembro, e os girinos já estão bem desenvolvidos quando os ovos de outras rãs se tornam abundantes, entre outubro e dezembro. Isso poderia explicar por que a espécie evita reproduzir depois de meados de fevereiro, quando faltam desovas para os girinos devorarem.

Moscas e secas ameaçam os ninhos

Os ninhos têm inimigos. Os sete ninhos analisados no estudo estavam infestados por larvas da mosca Beckeriella niger, em número que variou de 3 a 210 por ninho, com média de 61. Os pesquisadores observam que o efeito sobre a rã-pimenta é desconhecido, mas lembram que a mortalidade causada por essas larvas em ninhos de Physalaemus cuvieri chega a 70%.

Uma química diferente da das rãs venenosas

A confusão com rãs venenosas tem base real em outro grupo. Em dendrobatídeos como Oophaga pumilio, rã venenosa da América Central, os adultos obtêm alcaloides de artrópodes da dieta, como ácaros e formigas, segundo revisão de Saporito e colegas publicada em 2012 na revista Chemoecology. Nessa espécie, a mãe leva os girinos para a água acumulada em bromélias e os alimenta com ovos não fecundados, e estudos de 2014 e 2019 indicam que ela repassa alcaloides aos filhotes por esses ovos. É outra família de rãs, com outro modo de vida. A rã-pimenta pertence aos leptodactilídeos, não leva girinos para bromélias e, no que a literatura científica descreve, depende de peptídeos próprios da pele e não de alcaloides de ácaros.

Situação de conservação

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica a rã-pimenta como pouco preocupante, por causa da ampla distribuição, da presença em muitas áreas protegidas e da tolerância a ambientes variados. Como a reprodução depende de solo úmido e de corpos d’água temporários, períodos de seca prolongada, que no estudo causaram mortalidade de girinos, são um risco para a espécie. Preservar as áreas úmidas e as margens de lagoas e açudes, onde os machos cantam e as bacias são escavadas, protege os locais de que esse anfíbio depende para se reproduzir.

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