
Impedir que a floresta ainda de pé seja queimada ou explorada por madeireiros entrega mais biodiversidade e mais carbono por recurso investido do que plantar floresta nova em área já desmatada. A conclusão vem de um estudo publicado em 17 de setembro na revista Science, que acompanhou mais de três milhões de hectares nas regiões de Santarém e Paragominas, no Pará, entre 2010 e 2020, e é a reportagem de capa da edição 157 da Revista Amazônia, gratuita no site, em PDF e nos aplicativos de banca digital.
A edição reúne a ciência que mede o preço de proteger ou perder a floresta, o balanço da conferência da ONU sobre desertificação na Mongólia, o tempo que o conhecimento científico leva para virar decisão política e a Exposibram 2026, feira que já tem data marcada para chegar a Belém. Completam o número estudos sobre como as florestas tropicais respondem ao clima em cada continente, o peso real do El Niño nas chuvas do planeta, a recuperação de florestas depois de um aquecimento global de 56 milhões de anos atrás, a história do fogo humano na Amazônia, a estabilidade da circulação do Atlântico, o albatroz, os recifes de coral, as mamangavas e o céu fotografado do deserto do Kuwait.
Proteger a floresta em pé rende mais que restaurar
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Reino Unido, do Brasil, da Suécia e da Austrália, sob liderança da Universidade de Lancaster. A equipe cruzou imagens de satélite de alta resolução com dados de campo de 381 transectos distribuídos em 38 microbacias e 499 propriedades rurais, além de modelos que mapearam a distribuição de 160 espécies de aves e 426 espécies de árvores. É a primeira comparação sistemática entre as diferentes formas de proteger florestas existentes e de restaurá-las em terras agrícolas.
A partir das mudanças de uso do solo efetivamente registradas no período, os pesquisadores montaram cenários contrafactuais, que simulam o que teria acontecido com a biodiversidade e com os estoques de carbono caso cada estratégia tivesse sido aplicada. O custo de cada intervenção também foi estimado, o que permitiu comparar, dentro de um mesmo quadro, o benefício obtido por recurso aplicado.
Evitar a degradação florestal, ou seja, impedir incêndios e exploração seletiva de madeira, foi a estratégia que gerou os maiores ganhos para a biodiversidade. Para os estoques de carbono, teve peso quase igual ao de evitar o desmatamento. “Nenhuma estratégia isolada é uma bala de prata, mas nossos resultados dão evidência clara de que devemos começar priorizando as florestas que ainda temos”, afirma Leonardo Miranda, da Universidade de Lancaster e autor principal do estudo. “E a proteção precisa ir além de evitar o desmatamento. Evitar as perturbações causadas por incêndios ou pela exploração madeireira entregou os maiores benefícios para a biodiversidade florestal.”
Para Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior, os resultados apontam a necessidade de políticas e recursos para prevenir e enfrentar os incêndios que degradam as florestas tropicais. “Isso é ainda mais urgente neste ano de El Niño”, diz. “Esses eventos, combinados com a mudança climática, resultam em estações secas mais longas, quentes e intensas no arco do desmatamento da Amazônia, o que aumenta muito a extensão e a severidade dos incêndios florestais.”
A restauração também trouxe benefícios relevantes, sobretudo em propriedades onde a maior parte da floresta original já havia sido derrubada. No conjunto da área estudada, porém, restaurar terras agrícolas mostrou-se menos eficaz quando aplicada sozinha e saiu como a estratégia mais cara. Nenhuma intervenção isolada bastou para reverter as perdas de biodiversidade e de carbono em toda a área analisada. Ganhos líquidos só apareceram quando as duas frentes de prevenção foram adotadas juntas. “Combinar as três intervenções entregou ganhos ainda maiores”, diz Miranda. “Intervenções combinadas serão ainda mais importantes conforme a mudança climática avança, especialmente porque a floresta em restauração é particularmente vulnerável ao fogo.”
A coautora Joice Ferreira, pesquisadora sênior da Embrapa e coordenadora do programa de pesquisa Capoeira, dedicado à restauração, resume o dilema: “Restauração é essencial onde as florestas foram perdidas em grandes áreas. Mas nosso estudo mostra que investir em florestas novas faz pouco sentido se, ao mesmo tempo, falhamos em proteger as florestas existentes. Caso contrário, estamos despejando dinheiro em um pote furado.”
O estudo também cobra a cadeia produtiva. “É preciso que as empresas e os mercados que se beneficiam de commodities negociadas nacional e globalmente, como soja e carne, assumam responsabilidade não apenas pelo desmatamento, mas também pela degradação das florestas remanescentes, que está indissociavelmente ligada a esses sistemas de produção”, afirma o coautor Toby Gardner, pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute e cofundador da Trase, iniciativa de rastreamento de sustentabilidade em cadeias de suprimento. Embora o recorte seja paraense, os pesquisadores consideram que as conclusões valem para outras fronteiras de desmatamento tropical. O trabalho foi articulado pela Rede Amazônia Sustentável e financiado, entre outras fontes, pelo Global Centre on Biodiversity for Climate, do Reino Unido, e pelo CNPq.
COP17 fecha sem acordo sobre a seca
A 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), realizada de 17 a 28 de agosto de 2026 em Ulaanbaatar, na Mongólia, sob o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”, terminou sem o quadro internacional de prevenção e gestão das secas que era o principal objetivo da reunião. Foi a segunda vez consecutiva que as 197 Partes da Convenção falharam nessa meta. O tema foi remetido para a COP18, prevista para o Egito em 2028.
As divergências envolveram o formato de um eventual acordo. Os Estados Unidos defenderam a suspensão do debate, países europeus apoiaram mecanismos voluntários e países africanos, com apoio do Brasil, defenderam compromissos obrigatórios. Os representantes americanos também bloquearam, no início da conferência, itens sobre gênero, participação da sociedade civil e integração entre as três convenções ambientais da ONU. Os países concordaram, no entanto, que a seca passe a ser um item permanente e independente da agenda das próximas conferências. “Talvez não tenhamos tido o pacote completo, mas certamente mantemos a possibilidade de progresso até a próxima conferência”, avaliou a secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad.
O dinheiro avançou mais que o texto. Governos, bancos de desenvolvimento, fundos e empresas anunciaram uma carteira de US$ 1,3 bilhão para restauração de terras e resiliência à seca em 23 países de cinco continentes. Desse total, US$ 644,5 milhões são novos recursos e US$ 216,4 milhões já estão confirmados e em implementação. A conta ainda não fecha: segundo a UNCCD, seriam necessários cerca de US$ 355 bilhões por ano para cumprir os compromissos globais de restauração até 2030, e o investimento anual está em torno de US$ 77 bilhões.
Entre os novos instrumentos está o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), criado pela UNCCD e por Luxemburgo, que pretende mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados. O Observatório Internacional de Resiliência à Seca apresentou o primeiro Índice de Resiliência à Seca, e a Parceria Global de Resiliência à Seca de Riad, criada na COP16, entrou em fase de implementação, com a discussão de um fundo voltado a cerca de 70 países de baixa e média-baixa renda.
A escolha da Mongólia coincidiu com o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. As pastagens representam cerca de um terço das principais áreas de biodiversidade do planeta, mas apenas 24 países as incluem em seus planos climáticos nacionais, contra 181 que incluem florestas. Uma análise apresentada no encontro estimou que esses ecossistemas geram entre US$ 21 trilhões e US$ 47 trilhões por ano em serviços ecossistêmicos. O Brasil levou à conferência um compromisso voluntário de Neutralidade da Degradação da Terra até 2030, com recuperação ou restauração de mais de 163 mil quilômetros quadrados por regeneração da vegetação nativa e sistemas agroflorestais e outros 3,51 milhões de quilômetros quadrados sob medidas de conservação e manejo sustentável.
Ciência leva sete anos para virar política ambiental
Sete anos. É esse, em média, o tempo que um conceito ecológico leva para sair das páginas das revistas científicas e entrar nos documentos oficiais das grandes conferências ambientais das Nações Unidas. A conta foi feita por uma equipe de 17 pesquisadores liderada por Luna Morcillo, do Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo (CEAM) e da Universidade de Alicante, na Espanha, e publicada na revista científica Cell Reports Sustainability. Entre os autores está Leandro Reverberi-Tambosi, pesquisador vinculado à Universidade Federal do ABC (UFABC), em Santo André (SP).
Os pesquisadores leram as decisões, resoluções e metas aprovadas em 28 COPs da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, de 1995 a 2023, em 15 da Convenção sobre Diversidade Biológica, de 1994 a 2023, e em 15 da Convenção de Combate à Desertificação, de 1997 a 2022. Um grupo de 16 revisores chegou a uma lista final de 46 conceitos ecológicos, de estoques de carbono a polinizadores, de pontos de não retorno a espécies invasoras. Depois, a equipe mediu quantos anos cada termo levou entre a primeira aparição na literatura científica e a primeira citação numa COP. O resultado ficou em 8,5 anos na convenção da desertificação, 6,7 anos na da biodiversidade e seis anos na do clima.
Os atrasos mais longos também ensinam. A diversidade filogenética levou 28 anos para aparecer nos documentos da biodiversidade. Eventos extremos e biodiversidade do solo levaram 22 anos para chegar à desertificação. E a convenção do clima deixou de lado os serviços ecossistêmicos por 27 anos, o que os autores atribuem à atenção que a agenda climática deu por décadas à mitigação. O caso das espécies invasoras mostra que cada convenção tem seu próprio ritmo: o tema entrou na agenda da biodiversidade um ano depois da primeira COP, na do clima oito anos depois e na da desertificação só após 22 anos.
O estudo lembra casos em que a ciência virou ação com rapidez. A moratória mundial da caça de baleias foi aprovada em 1982, 12 anos depois de a ciência mostrar que as alternativas de manejo não funcionavam. Segundo os autores, esses sucessos têm traços em comum: consenso científico forte, opinião pública informada, alternativas viáveis à mão, linguagem clara nas regras e cooperação internacional robusta.
A segunda parte do trabalho olhou para a distância entre a política aprovada e o resultado no mundo real, e aí a escala faz diferença. No plano global, a Meta 12 de Aichi, que previa frear a extinção de espécies ameaçadas até 2020, ficou longe do objetivo: entre 2010 e 2021, 84% das espécies que mudaram de categoria na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza passaram para uma situação pior. Na escala regional, na Comunidade Valenciana, na Espanha, as aves com plano de conservação apresentaram tendência positiva e as que ficaram sem plano, tendência negativa.
A conclusão conversa com uma experiência que a Amazônia já conhece. Em 1999, na comunidade São Raimundo do Jarauá, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, ribeirinhos e pesquisadores do Instituto Mamirauá começaram a manejar o pirarucu. O método junta contagem dos estoques, proteção das áreas de reprodução, tamanho mínimo de captura e cota de pesca que nunca passa de 30% dos adultos de cada área. Em 25 anos, a população de pirarucus nas áreas manejadas cresceu 620%. Hoje o manejo envolve mais de 1.300 famílias em 25 municípios do Amazonas. “Para garantir que a ciência beneficie a sociedade por meio da política ambiental, precisamos encurtar o caminho da evidência à ação”, escrevem os autores.
Exposibram 2026 bate recorde e marca a edição de Belém
A Expo & Congresso Brasileiro de Mineração, organizada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), ocorreu de 24 a 27 de agosto no Expominas, em Belo Horizonte (MG), e celebrou os 50 anos do instituto. A feira reuniu mais de 750 expositores em 17.000 metros quadrados e recebeu 112 mil visitantes, superando os 86 mil registrados em 2024. Minerais críticos e estratégicos, transição energética, descarbonização, inteligência artificial e geopolítica do setor dominaram os painéis.
Na abertura, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse confiar na aprovação, pelo Senado, do projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e anunciou aumento de recursos para o Serviço Geológico do Brasil. Hoje, o conhecimento do potencial mineral brasileiro está restrito a 28% do território. O diretor-presidente do Ibram, Pablo Cesário, defendeu que o setor vá além do conceito de sustentabilidade: “O futuro é um binômio entre mineração e conhecimento. Se há energia verde, se há bateria, se há inteligência artificial, por trás disso tudo está a mineração.”
A presidente do Conselho Diretor do Ibram, Ana Sanches, reforçou a necessidade de aproximar a atividade mineral de compromissos ambientais e sociais: “Queremos uma mineração justa, sustentável e inclusiva. Que respeite os territórios, as pessoas e o meio ambiente.” O CEO da Vale, Gustavo Pimenta, apresentou uma proposta elaborada com a consultoria Accenture, com quatro agendas prioritárias e 15 iniciativas estratégicas. “É preciso agir com urgência e diligência”, disse.
Para a Amazônia, o anúncio mais importante veio no encerramento. A Exposibram 2027 será realizada de 20 a 23 de setembro no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, em Belém, e dará continuidade aos debates e negócios do setor tendo a região como cenário. “O setor, ao levantar a cabeça, olhou no espelho e se percebeu”, resumiu Cesário sobre a edição mineira.
Florestas tropicais respondem de maneira diferente ao clima
Um estudo publicado na Nature por pesquisadores do Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais (STRI), da Universidade de Maryland, da NASA e da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri analisou 16 milhões de estimativas de biomassa de florestas na Amazônia, na Bacia do Congo e no Sudeste Asiático, obtidas pelo satélite GEDI, da NASA, em 2020. O GEDI usa pulsos de laser para medir a estrutura tridimensional das florestas, o que permitiu cruzar a biomassa acima do solo com clima, solos e topografia.
Locais mais quentes tenderam a ter menos biomassa, mas com diferenças marcantes entre as regiões. As florestas da Bacia do Congo foram particularmente sensíveis à temperatura, as amazônicas apresentaram sensibilidade moderada e as do Sudeste Asiático foram relativamente insensíveis. Com a falta de água, a ordem se inverteu: a biomassa caiu drasticamente nos locais mais áridos do Sudeste Asiático, enquanto as florestas amazônicas tiveram pico de biomassa em níveis intermediários de aridez. Nas florestas mais altas, onde as árvores passam de 70 metros, raios e ventos fortes podem ser os fatores que mais reduzem a biomassa.
“Este estudo mostra definitivamente que as florestas tropicais em diferentes continentes respondem de maneira diferente ao clima”, disse Helene Muller-Landau, coautora e cientista do STRI no Panamá. Para o autor principal, Matheus Nunes, professor da Universidade de Maryland e cientista da missão GEDI, a lição é de escala: “Não basta ter análises globais que mostrem como o ambiente, incluindo o clima, afeta a estrutura da vegetação, pois esses efeitos são muito heterogêneos e dependem fortemente do contexto local.”
Nem tudo é culpa do El Niño
O El Niño responde por algo entre 15% e 20% dos extremos de chuva registrados no planeta. A medida está em um trabalho dos climatologistas Aiguo Dai, Inez Fung e Anthony Del Genio, publicado no Journal of Climate em 1997, que analisou as variações de chuva observadas em terra entre 1900 e 1988. O meteorologista Tom Di Liberto, da NOAA, a agência de oceano e atmosfera dos Estados Unidos, usa uma imagem doméstica: se os extremos de chuva fossem uma pizza grande, o fenômeno seria duas fatias.
Há também um limite geográfico. Simon Mason e Lisa Goddard concluíram, em 2001, que apenas 20% a 30% das áreas continentais do mundo são potencialmente afetadas durante o El Niño e a La Niña. Em 2005, Goddard e Maxx Dilley encontraram números muito parecidos de grandes anomalias de chuva em anos de El Niño, de La Niña e neutros, e registraram que os desastres ligados ao clima não aumentam nos anos de evento.
O valor do fenômeno está na previsão. Quando há El Niño ou La Niña, a localização de alguns dos maiores eventos secos ou chuvosos fica mais previsível, e o ENSO pode ser antecipado com meses de antecedência. Di Liberto calculou que a nota média de acerto das previsões sazonais de chuva nos Estados Unidos desde 1995 ficou perto do dobro em anos de El Niño e de La Niña, na comparação com anos neutros. Para quem planta, navega ou se prepara para o fogo na Amazônia, o fenômeno não explica tudo, mas indica onde vale a pena olhar primeiro.
O que o passado conta sobre a floresta e o fogo
Há 56 milhões de anos, no episódio conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, as temperaturas globais subiram até 6 graus Celsius. Em um estudo publicado na revista Science, paleobotânicos reconstruíram a estrutura das florestas do Wyoming, nos Estados Unidos, a partir do formato das células de cutículas de folhas fossilizadas. Folhas que crescem na sombra têm células mais alongadas; folhas expostas ao sol, células mais curtas e arredondadas. A ferramenta foi calibrada com solos de florestas da América Central e do Sul.
O resultado mostra que, pouco antes do aquecimento acelerado, a cobertura florestal atingiu seu pico em centenas de milhares de anos, provavelmente favorecida pelo aumento do dióxido de carbono. Depois, o calor e a seca superaram esse benefício. As florestas perderam 60% de sua cobertura e levaram mais de 100.000 anos para se recuperar. Hoje, lembram os autores, os humanos liberam dióxido de carbono aproximadamente 10 vezes mais rápido do que os processos naturais do planeta faziam naquela época. As florestas podem se recuperar, mas o tempo necessário se mede em milhares de gerações.
Na Amazônia, o fogo tem história humana. Uma reconstrução de 10.000 anos, baseada em 1.361 datações por radiocarbono de carvão e material arqueológico queimado em 303 sítios, publicada na Frontiers of Biogeography por Crystal McMichael, Mark Bush e colegas, mostra que o fogo na floresta tropical é quase exclusivamente causado pela ação humana. Em sítios como o Cerro dos Seis Lagos e a Serra Sul dos Carajás, o carvão estava ausente ou era mínimo antes da chegada dos humanos. No Equador, o núcleo de sedimentos de Campo Libre mostrou 30.000 anos sem fogo, que só terminaram quando os humanos chegaram, há cerca de 4.500 anos.
A linha do tempo tem três fases. Entre 10.000 e 6.000 anos atrás, os incêndios se concentravam na periferia da bacia e ao longo do canal principal do rio Amazonas. Entre 6.000 e 4.000 anos atrás, o fogo e os sítios de ocupação se espalharam pela maioria das regiões, no mesmo período em que começou o cultivo do milho no noroeste e no sudoeste da Amazônia. Entre 3.000 e 2.000 anos atrás, o fogo alcançou o interior profundo da floresta, e a Amazônia central deixou de ser um refúgio livre de queimadas. O estudo derruba o mito da Amazônia intocada e ajuda a entender por que uma floresta que evoluiu sem fogo é tão vulnerável a ele.
O ritmo do aquecimento decide o destino da circulação do Atlântico
A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, a AMOC, é o sistema de correntes que leva água quente dos trópicos para o norte e ajuda a redistribuir o calor pelo planeta. Até agora, acreditava-se que ela entraria em colapso em torno de um aumento de temperatura de +4°C. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica da Universidade de Utrecht mostraram, em estudo publicado na Nature Climate Change, que a velocidade do aquecimento também pesa.
A equipe rodou um modelo climático duas vezes, com o CO2 subindo 0,5 ppm por ano em uma simulação e 2,5 ppm por ano na outra, ritmo comparável ao atual. Sob aquecimento lento, a AMOC permaneceu estável bem acima de +4°C e não entrou em colapso nem com +5°C. Sob aquecimento rápido, colapsou por volta de +2°C. “Não existe necessariamente uma temperatura fixa a partir da qual a AMOC inevitavelmente entra em colapso”, afirma o autor principal, René van Westen. “A estabilidade da circulação depende da velocidade com que o clima está mudando.”
Segundo os pesquisadores, a taxa crítica de aquecimento está em torno de 0,3°C por década, um ritmo que o mundo já está atingindo. “Com um aquecimento mais rápido, o oceano simplesmente não consegue acompanhar”, diz o coautor Henk Dijkstra, professor de oceanografia dinâmica. Van Westen compara a situação a dirigir em direção a uma parede: “Quando se trata de aquecimento global, o mundo ainda está pisando fundo no acelerador.”
Albatroz, corais, mamangavas e um tubarão no céu
Cortar as emissões de gases de efeito estufa reduz praticamente pela metade a probabilidade de extinção do albatroz-de-sobrancelha-negra. Esperar que a espécie evolua para se ajustar ao novo clima não resolve. A conclusão é de um estudo publicado em 21 de setembro na PNAS por uma equipe liderada pela ecóloga Stéphanie Jenouvrier, da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, com mais de três décadas de dados da população das Ilhas Kerguelen, acompanhada por pesquisadores franceses desde 1960. “Para essa ave marinha de vida longa, limitar a magnitude da mudança climática tem um efeito muito maior sobre a persistência da população do que a adaptação evolutiva sozinha”, disse Jenouvrier. Segundo o Projeto Albatroz, é o albatroz mais comum na costa brasileira e também a espécie mais capturada acidentalmente pela pesca no país.
Os recifes de coral ocupam menos de 1% do oceano, mas abrigam quase um quarto de todas as espécies marinhas, segundo a NOAA. Nas Maldivas, Jj Milan e Bob Oxborrow, da Universidade de Washington, vão filmar com câmeras sincronizadas como cardumes da donzela-de-três-listras distinguem uma ameaça real de um alarme falso e se a arquitetura do coral muda essa conversa. A reportagem lembra que o Brasil tem um recife próprio e pouco conhecido: em 2016, uma equipe liderada por Rodrigo Moura e Fabiano Thompson, da UFRJ, descreveu na Science Advances um sistema de cerca de 9.500 quilômetros quadrados na foz do rio Amazonas, que se estende por aproximadamente mil quilômetros, da fronteira da Guiana Francesa até o Maranhão, entre 25 e 120 metros de profundidade, com 61 espécies de esponjas, 12 de corais construtores e 73 de peixes recifais.
As mamangavas, abelhas do gênero Bombus, somam cerca de 250 espécies no mundo. Uma revisão de Paul H. Williams, do Museu de História Natural de Londres, e Juliet L. Osborne, do Rothamsted Research, mostra o declínio no hemisfério Norte: no leste da América do Norte, uma amostragem entre 2002 e 2008 encontrou apenas dois indivíduos de Bombus terricola e nenhum Bombus affinis, duas das espécies mais comuns do sul de Ontário em 1983. As montanhas tropicais da Ásia e da América do Sul aparecem como pontos frios no mapa das espécies ameaçadas, e o exemplo citado é brasileiro, a Bombus brevivillus, com poucos registros recentes, o que não significa que esteja ameaçada. Os autores recomendam que mamangavas vivas não sejam transportadas entre continentes para polinização comercial.
Fecha a edição o céu. Com 28,5 horas de exposição feitas do Kuwait, Ali Alobaidly transformou a nebulosa escura LDN 1235, a 650 anos-luz da Terra, em um tubarão e venceu a 18ª edição do concurso de astrofotografia do Observatório Real de Greenwich, em Londres, com prêmio de 10 mil libras. É o primeiro fotógrafo do Kuwait a levar o prêmio maior. A reportagem traz também a supernova Abell 85, registrada com 88 horas de exposição, a aurora sobre uma igreja na Islândia e Vênus desaparecendo atrás da Lua.
O fio que une a edição
Do Pará à Mongólia, dos fósseis do Wyoming ao carvão enterrado nos sítios amazônicos, a edição 157 volta sempre à mesma pergunta: quanto tempo a natureza tem e quanto tempo nós levamos para agir. Florestas levaram mais de 100.000 anos para se recuperar de um aquecimento mais lento que o atual. A circulação do Atlântico aguenta mais quando o clima muda devagar. O albatroz não evolui na velocidade do clima. E a ciência leva, em média, sete anos para chegar às decisões globais.
A resposta que atravessa as reportagens é prática. Proteger o que ainda está de pé custa menos e rende mais. Decisões tomadas perto do território funcionam melhor, como mostram os pirarucus de Mamirauá. E a Amazônia, que vai receber a Exposibram em 2027 depois de sediar a COP30, segue no centro dessa conta.
Perguntas Frequentes
A Revista Amazônia é gratuita?
Sim. A edição 157 pode ser lida no navegador, baixada em PDF pelo site e também está nos aplicativos de banca digital Bancah, para clientes TIM, e Claro Banca, para clientes Claro.
Qual é a reportagem de capa da edição 157?
O estudo publicado na Science que comparou estratégias de conservação em mais de três milhões de hectares no Pará e concluiu que evitar incêndios e exploração madeireira na floresta em pé é o investimento com maior retorno para a biodiversidade e o carbono.
O que aconteceu na COP17 da desertificação?
A conferência, realizada na Mongólia, terminou sem acordo sobre um quadro internacional de gestão das secas, remetido para a COP18, no Egito, em 2028, mas mobilizou US$ 1,3 bilhão para restauração de terras e resiliência à seca em 23 países.
Quando a Exposibram será realizada em Belém?
A Exposibram 2027 está marcada para 20 a 23 de setembro de 2027, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, em Belém.
O El Niño é responsável pela maioria das secas e enchentes?
Não. Estudos citados na edição mostram que o fenômeno responde por 15% a 20% dos extremos de chuva do planeta, mas torna a previsão sazonal mais confiável quando está ativo.
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