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Rio Negro perde 3,16 metros em agosto e a seca pode expor novamente gravuras de até dois mil anos no sítio das Lajes

Rio Negro perde 3,16 metros em agosto e a seca pode expor novamente gravuras de até dois mil anos no sítio das Lajes
Ilustração: IA

Cota registrada no Porto de Manaus chegou a 24,19 metros no fim de agosto, enquanto projeções indicam nova baixa histórica em 2026

O nível do rio recuou mais de três metros em um mês

O Rio Negro terminou agosto de 2026 com 24,19 metros no Porto de Manaus, depois de perder 3,16 metros ao longo do mês. Em 1º de setembro, a cota registrada foi de 24,09 metros, mantendo a trajetória de descida observada na passagem entre os dois meses. Para quem acompanha a margem em Manaus, a variação representa uma mudança visível na relação entre a água e as áreas que ficam submersas durante boa parte do ano. O comportamento do nível também recoloca no horizonte um lugar onde a oscilação do rio já permitiu observar marcas deixadas diretamente na pedra.

O ponto é o sítio arqueológico das Lajes, localizado à margem do Rio Negro, em Manaus. Suas gravuras rupestres ficaram expostas durante as secas de 2010 e de 2023. A eventual reaparição depende de quanto o rio ainda vai baixar ao longo de 2026, e não apenas da cota registrada no começo de setembro. Os primeiros 15 dias deste mês são considerados determinantes para confirmar o cenário projetado para o ano. Assim, a sequência já registrada, com a queda de agosto e a nova medição de setembro, ainda se conecta a uma possibilidade arqueológica que depende da evolução do nível da água.

As marcas na pedra podem ter até dois mil anos

As gravuras das Lajes são registros feitos sobre a superfície rochosa na margem do rio. Especialistas estimam que elas tenham entre mil e dois mil anos, uma faixa de idade que as coloca no período anterior à presença colonial portuguesa na Amazônia. A estimativa também mostra por que cada novo período de exposição amplia a observação de um patrimônio associado a ocupações humanas antigas na região do Rio Negro. As marcas não são uma construção recente nem um vestígio produzido pela própria dinâmica da água, mas intervenções realizadas na pedra por grupos que viveram na área em outro momento da história amazônica.

A alternância entre submersão e exposição faz parte da própria condição do sítio. Quando a água recua o suficiente, as superfícies gravadas podem voltar a ser vistas; quando o nível sobe, elas ficam novamente cobertas pelo rio. Esse ciclo não permite transformar toda baixa do Negro em garantia de reaparecimento das gravuras. O dado decisivo é a cota atingida na área das Lajes. As exposições de 2010 e 2023 formam o precedente conhecido para a expectativa atual, mas a possibilidade de 2026 continua vinculada à intensidade da seca e à posição final do nível em relação às pedras gravadas.

Projeções apontam uma cota mínima entre 13 e 16 metros

O Serviço Geológico do Brasil e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia projetam uma cota mínima entre 13 e 16 metros para o Rio Negro em 2026. Essa projeção é muito inferior aos 24,19 metros medidos no fim de agosto e aos 24,09 metros registrados em 1º de setembro. A diferença entre a cota observada e a mínima estimada ajuda a dimensionar o intervalo de descida que ainda pode ocorrer durante o período de estiagem. Ela também explica por que a exposição das gravuras permanece como uma possibilidade para os próximos meses, em vez de ser apresentada como um fato já consumado.

No cenário mais severo, a seca de 2026 seria a terceira maior da série histórica, atrás das registradas em 2023 e 2024. A classificação depende do ponto mínimo que o rio alcançar, e os primeiros 15 dias de setembro são relevantes para confirmar qual trajetória se consolida. O histórico recente torna a comparação concreta: as gravuras das Lajes foram observadas quando o Rio Negro baixou em 2010 e em 2023. Ainda assim, uma projeção de cota não determina sozinha o que poderá ser visto no sítio, porque a relação entre o nível medido no porto e a exposição de cada trecho rochoso depende da posição específica das gravuras na margem.

O reencontro com as gravuras depende da descida final

Se a água alcançar uma cota compatível com a exposição das superfícies rochosas, as gravuras das Lajes poderão aparecer novamente em Manaus. A consequência mais direta da seca, nesse caso, será tornar visível por algum tempo um registro arqueológico estimado entre mil e dois mil anos. O interesse do sítio está justamente nessa combinação entre paisagem atual e evidência de ocupação antiga: a margem que hoje acompanha a variação do Rio Negro também conserva marcas produzidas por pessoas que viveram na região muito antes do presente.

A história das Lajes reúne, portanto, dois relógios que avançam em escalas diferentes. O primeiro é o do rio, que perdeu 3,16 metros em agosto e continuou baixando no início de setembro. O segundo é o da arqueologia, representado por gravuras cuja idade pode chegar a dois mil anos e que já foram expostas em 2010 e 2023. A origem das informações sobre a idade estimada e as exposições anteriores foi publicada pelo Brasil de Fato em 16 de outubro de 2023. Agora, a confirmação dependerá da evolução da cota em 2026. Quando a água recua, a margem não revela apenas uma pedra: revela quanto tempo uma paisagem amazônica consegue guardar a memória humana antes de devolvê-la ao olhar.

Com informações de Brasil de Fato.

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