
Paris, Basileia e outras cidades mostram como saneamento e monitoramento podem devolver os rios à população.
Em meio a uma onda de calor recorde, um mergulho no rio passou a valer, para muitos parisienses, como uma viagem sem sair da cidade. Em junho de 2026, moradores e turistas ocuparam o Sena e o Canal Saint-Martin, em Paris, depois que décadas de obras de saneamento, monitoramento da água e controle de despejos permitiram a reabertura de áreas destinadas ao banho.
A cena representa uma mudança prática e também simbólica. Durante boa parte do século 20, os rios urbanos europeus eram associados a esgoto, resíduos industriais e doenças. Agora, cidades como Paris, Basileia, Zurique, Berna, Copenhague e Oslo tentam transformar esses cursos d’água em espaços de lazer e uma alternativa para enfrentar dias cada vez mais quentes.
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Pauline Janbon, estudante de 20 anos da Universidade Sorbonne, cresceu ouvindo que havia cadáveres no Sena. A reputação do rio era tão negativa que, para ela, entrar na água parecia uma ideia distante. A percepção mudou em junho, quando a jovem se juntou a milhares de pessoas em busca de alívio para as altas temperaturas.
“Até hoje, eu nunca tinha tomado banho na minha própria cidade. Parece que estou de férias”, disse Janbon, ao sair da água do Canal Saint-Martin.
A experiência ainda divide os moradores. Soizic Prado, de 52 anos, levou os filhos para nadar, mas preferiu permanecer vestida na margem. Ela afirmou acreditar que a água é segura, embora décadas de notícias e histórias sobre a sujeira do Sena ainda dificultem a decisão de entrar no rio.
Como Paris recuperou o Sena
A poluição do Sena cresceu com a industrialização e a expansão populacional. Durante anos, águas residuais, restos de animais e resíduos de lavanderia eram lançados diretamente no curso d’água. Em 1923, Paris proibiu a natação no rio por razões de saúde pública.
As discussões sobre a limpeza do Sena começaram a ganhar força novamente em 1988. Em 2016, a prefeita Anne Hidalgo colocou a recuperação do rio entre os pilares da candidatura de Paris para sediar os Jogos Olímpicos de 2024. A cidade precisou ampliar a infraestrutura de saneamento, reduzir a chegada de esgoto ao rio durante chuvas fortes e criar estruturas específicas para o banho.
Em julho de 2025, mais de 100 mil pessoas nadaram nos três pontos oficiais instalados no Sena. A adesão levou a prefeitura a prolongar a temporada até o começo de setembro. Em 2026, o rio entrou em sua segunda temporada de natação pública justamente quando a França enfrentou sua onda de calor mais extrema.
O que o calor mudou na rotina
O retorno aos rios não acontece apenas por nostalgia. A França tem sistemas de ar-condicionado em apenas um quarto das residências e em menos de 7% das escolas. Em Paris, os edifícios haussmannianos, que formam parte importante da paisagem urbana, são conhecidos pelo isolamento térmico limitado.
Quando as temperaturas subiram no fim de junho, moradores buscaram os corredores refrigerados de supermercados e enfrentaram filas em piscinas municipais. Para muitos, porém, os canais e o Sena ofereceram a forma mais acessível de resfriamento. O rio deixou de ser apenas um cenário da cidade e passou a funcionar como infraestrutura de adaptação ao calor.
Segundo a National Geographic, Paris monitorava diariamente os níveis de Escherichia coli e enterococos no Sena durante a temporada de banho de 2026, seguindo os parâmetros europeus para águas balneares.
Essas bactérias podem estar associadas a febre, infecções urinárias e diarreia. A avaliação constante permite decidir quando a água pode ser usada, além de suspender o banho em situações de risco, como após chuvas que elevam a entrada de esgoto no sistema.
Basileia transformou limpeza em cultura
Se em Paris o banho ainda precisa vencer uma barreira psicológica, em Basileia, na Suíça, nadar no Reno faz parte do cotidiano. Em dias quentes, centenas de moradores entram no rio e deixam a correnteza conduzi-los pelo centro da cidade. Alguns carregam roupas, celular e carteira em bolsas impermeáveis conhecidas localmente como Wickelfisch.
A Suíça é apontada como líder internacional no tratamento de águas residuais e gasta, em média, cerca de 230 dólares por pessoa a cada ano na manutenção desse sistema. O investimento ajuda a explicar por que os moradores de Basileia demonstram confiança na qualidade da água, em contraste com a relação ainda desconfiada de muitos parisienses.
O vínculo com o Reno é antigo. Há registros de banhos desde pelo menos o século 15, quando freiras de uma abadia local usavam o rio para se refrescar. O primeiro balneário oficial teria sido aberto em 1831. A tradição, porém, foi interrompida durante décadas de poluição industrial e despejo de esgoto.
O desastre que acelerou a mudança
Em 1986, um incêndio em um depósito de produtos agroquímicos da empresa Sandoz lançou substâncias tóxicas no Reno e deixou a água avermelhada. O acidente matou grande parte da vida aquática rio abaixo e provocou mudanças profundas na legislação suíça.
O país passou a exigir estruturas para impedir que a água usada no combate a incêndios chegasse aos rios, atualizou estações de tratamento industrial e doméstico e implantou uma rede ampla de monitoramento. O episódio também aproximou a população da discussão sobre a proteção do Reno.
Patricia Holm, pesquisadora de ecossistemas aquáticos da Universidade de Basileia, afirmou que a crise ajudou a mobilizar a sociedade. Para ela, o rio está hoje mais saudável do que antes do acidente.
Água própria para banho não é sinônimo de rio intacto
A reabertura dos rios tem limites. O controle de bactérias indica se o contato com a água oferece risco imediato à saúde, mas não mede sozinho a condição ecológica do ambiente. Um rio pode ser adequado para nadar e ainda sofrer com perda de habitats, barragens, alterações no fluxo de sedimentos e presença de resíduos químicos.
Especialistas citam medicamentos, pesticidas e parabenos entre os micropoluentes que podem afetar pessoas, animais e organismos aquáticos. Em 2016, a Suíça aprovou uma lei que tornou obrigatória a remoção de substâncias químicas da água, e as cidades passaram a instalar unidades específicas para esse tratamento.
Essa distinção é especialmente importante para o debate urbano na Amazônia. Para cidades do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a lição europeia não é simplesmente liberar banhos em qualquer rio. O ponto central é combinar coleta e tratamento de esgoto, prevenção de despejos, acompanhamento microbiológico e proteção dos habitats antes de transformar um curso d’água em área de lazer.
O caso também mostra que a mudança depende da confiança. Em Paris, o monitoramento avançou mais rápido do que a memória coletiva. Em Basileia, a convivência histórica com o Reno ajudou a consolidar o rio como espaço comum. Em ambos os casos, a recuperação exigiu investimento contínuo, regras claras e participação pública.
Com ondas de calor mais frequentes, cidades que recuperarem seus rios poderão oferecer sombra, ventilação e acesso gratuito à água, mas ainda precisarão ampliar o tratamento de micropoluentes e recuperar a vida aquática. Paris deve manter a temporada de natação durante o verão de 2026, enquanto outras cidades observam os resultados para decidir se a experiência pode ser adaptada a seus próprios rios.
Com informações de National Geographic.
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