
As sardinhas do gênero Triportheus vivem em águas abertas dos rios amazônicos, comem insetos, frutos e sementes e sobem os rios de água branca para se reproduzir.
O que é a sardinha da Amazônia
Na Amazônia, o nome sardinha é usado para peixes do gênero Triportheus, da família Triportheidae, que na literatura em inglês aparecem como narrow hatchetfish. Segundo Cajado e colegas, em artigo publicado na revista Neotropical Ichthyology, o gênero reúne pequenos teleósteos exclusivos da região Neotropical, reconhecíveis pelas nadadeiras peitorais longas, pelos ossos coracoides expandidos e por uma linha lateral com inclinação pronunciada perto da nadadeira peitoral.
Oito espécies do gênero são registradas na bacia amazônica, e três delas, Triportheus albus, Triportheus angulatus e Triportheus auritus, são especialmente abundantes. São peixes pelágicos, de águas abertas, que fazem migrações de média distância para se reproduzir, em geral entre setembro e outubro, e têm hábito alimentar onívoro. Os mesmos autores destacam que elas são uma fonte importante de proteína para comunidades ribeirinhas e vêm sendo cada vez mais vendidas em mercados regionais, à medida que outras espécies diminuem.
Apesar da importância, o conhecimento sobre a primeira fase de vida é limitado: apenas cerca de 22% das 18 espécies conhecidas do gênero têm estágios embrionários ou larvais descritos. O artigo de Cajado e colegas descreve o desenvolvimento inicial de Triportheus albus e Triportheus angulatus e traz uma chave de identificação de larvas e juvenis de algumas espécies da Amazônia oriental.
Insetos, frutos e sementes: a dieta que acompanha o nível do rio
O estudo mais detalhado sobre a alimentação de Triportheus angulatus foi feito por Yamamoto, Soares e Freitas e publicado em 2004 na revista Acta Amazonica. Os pesquisadores capturaram 1.196 peixes, com comprimento padrão entre 3 e 25 centímetros, no lago Camaleão, em Manaus, de abril de 1998 a abril de 2000. O conteúdo estomacal de 363 exemplares foi analisado, e cerca de 52% de todos os peixes capturados tinham o estômago vazio.
A dieta mudou ao longo do ciclo hidrológico. Na enchente, os peixes comeram insetos e zooplâncton. Na cheia e na vazante, predominaram frutos e sementes. Na seca, voltaram a predominar os insetos. No conjunto do estudo, pelo índice de importância alimentar, os insetos somaram 52,7%, os frutos e sementes 24,2% e o zooplâncton 19,6%. Os peixes de 4 a 8 centímetros comeram apenas insetos durante a enchente.
A intensidade de alimentação também seguiu o rio. Foi maior na enchente e na cheia, caiu na vazante e chegou ao mínimo na seca, quando de 67% a 100% dos peixes de cada classe de tamanho estavam com o estômago vazio. As classes de 8 a 12 e de 12 a 16 centímetros eram as mais numerosas, com 40% e 39% dos exemplares, respectivamente. Isso mostra uma espécie que aproveita o período em que a floresta alagada e o lago oferecem mais alimento.
Um trabalho mais antigo, de Almeida, publicado em 1984 na Acta Amazonica, comparou a alimentação de três espécies de sardinha, Triportheus angulatus, Triportheus elongatus e Triportheus culter, no lago do Castanho, um lago de várzea da Amazônia Central. O autor relacionou o que cada espécie comia às variações do ambiente e ao desenvolvimento dos indivíduos, examinou estruturas do corpo ligadas à dieta e inferiu, a partir do alimento consumido, os ambientes que cada espécie provavelmente ocupa.
Pouco oxigênio na água, mas alimentação mantida
O lago Camaleão ajuda a entender um traço dessas sardinhas: a tolerância a águas pobres em oxigênio. Na enchente, o oxigênio na superfície era de cerca de 0,4 miligrama por litro, subiu para cerca de 1,2 na cheia e 1,5 na vazante e chegou a 3,4 na seca. Abaixo de um metro de profundidade, a água ficou quase sem oxigênio nas três primeiras fases. Mesmo assim, Yamamoto e colegas concluíram que o baixo oxigênio não reduziu de modo mensurável a alimentação no período estudado.
Os dados do lago mostram oxigênio maior na superfície do que abaixo de um metro, e o gênero se alimenta de itens que flutuam na água, como insetos, frutos e sementes. A relação entre peixes e floresta de várzea é um dos temas centrais da ecologia amazônica, e as sardinhas, ao comer frutos e sementes na cheia, entram nessa cadeia de interações.
A subida dos rios para desovar
A reprodução é o outro eixo da vida dessas sardinhas. Estudos sobre larvas de Triportheus no médio Solimões descrevem cardumes que se deslocam em direção aos rios de água branca para desovar no período de maior nível da água. Segundo a literatura sobre migrações de peixes amazônicos, os grandes rios de água branca são o principal corredor de dispersão para a migração reprodutiva dos peixes, e cachoeiras e corredeiras são ambientes importantes para a desova. As sardinhas são migradoras de médio porte, com aparente limitação para superar essas barreiras.
Como são migradoras e se alimentam de insetos e frutos da floresta alagada durante a cheia, as sardinhas dependem de rios conectados e de várzea preservada. Barragens e alterações na várzea são fatores que podem afetar esse ciclo. Ampliar o conhecimento sobre a fase larval, como propõem Cajado e colegas, é um passo para planejar o manejo de um recurso que sustenta a alimentação de comunidades amazônicas.
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