
Os dinossauros mais antigos de que se tem notícia foram encontrados no sul da América do Sul, e o Rio Grande do Sul é um dos lugares-chave dessa história. Foi em Santa Maria que, em 1999, apareceu o Saturnalia tupiniquim, um dinossauro de cerca de 230 milhões de anos com o esqueleto em grande parte preservado. Faltava uma peça: o crânio. Ninguém sabia direito como era a cara do animal.
Isso mudou com um achado no sítio fossilífero Cerro da Alemoa, também em Santa Maria. Depois de anos de limpeza cuidadosa de um bloco de rocha, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) descobriram que ali havia não um, mas três indivíduos da espécie. E um deles tinha parte do crânio.
O apelido carinhoso
O crânio é pequeno, cabe na palma da mão. A paleontóloga Lísie Damke passou parte da graduação e o primeiro ano do mestrado na UFSM limpando o bloco onde estavam os fósseis, grão por grão. O cuidado com os ossos frágeis e delicados rendeu ao exemplar um apelido: Gracinha.
Encontrar três animais da mesma espécie num espaço tão pequeno foi uma surpresa para a equipe. O material foi coletado em 2018, e os resultados foram publicados em dezembro de 2024 na revista científica Zoological Journal of the Linnean Society.
Um carnívoro na origem dos gigantes
Os três dinossauros já eram adultos e tinham cerca de 1,5 metro de comprimento. Os crânios eram curtos e afunilados, com dentes afiados e serrilhados, sinal de uma dieta carnívora. Essas características podem ter ajudado o animal a fazer movimentos rápidos com a cabeça para capturar presas.
O detalhe é importante porque o Saturnalia pertence à linhagem dos sauropodomorfos, o grupo que, dezenas de milhões de anos depois, deu origem aos saurópodes, os gigantes herbívoros de pescoço longo. Com o crânio e os dentes, os paleontólogos reforçam que esse precursor dos maiores herbívoros que já pisaram na Terra começou como um pequeno predador.
Santa Maria, berço de dinossauros
A região central do Rio Grande do Sul guarda rochas do período Triássico, quando os dinossauros estavam surgindo. O primeiro dinossauro brasileiro descrito, o Staurikosaurus pricei, foi escavado em Santa Maria em 1936. Desde então, a região revelou várias espécies que ajudam a contar como os dinossauros começaram, numa época em que dividiam espaço com outros répteis maiores e mais numerosos.
Na época do Saturnalia, os continentes estavam unidos no supercontinente Pangeia, e o sul do Brasil fazia parte de uma paisagem quente, com estações secas e chuvosas bem marcadas.
O que vem agora
Os fósseis ainda devem ajudar a responder perguntas sobre o desenvolvimento, o comportamento e as relações do Saturnalia com outros organismos de seu ecossistema. Damke iniciou o doutorado estudando a anatomia dos ossos que protegem o encéfalo de vários dinossauros e deve voltar a Gracinha para comparar os resultados com outras espécies.
Para os pesquisadores, cada crânio encontrado é raro: ossos da cabeça são frágeis e costumam se perder antes da fossilização. Por isso, um crânio de 230 milhões de anos, mesmo incompleto, muda o que se sabe sobre a espécie.
Perguntas frequentes
Qual o dinossauro mais antigo do Brasil?
Os dinossauros mais antigos do Brasil vêm do Triássico do Rio Grande do Sul, com cerca de 230 milhões de anos, entre eles o Saturnalia tupiniquim e o Staurikosaurus pricei.
O Saturnalia era herbívoro?
Os dentes afiados e serrilhados indicam dieta carnívora, embora ele pertença à linhagem que originou os grandes herbívoros de pescoço longo.
Com informações da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e do estudo publicado no Zoological Journal of the Linnean Society.
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