
Os paredões de arenito do sul do Piauí, onde estão algumas das pinturas rupestres mais antigas das Américas, vão continuar sendo estudados pelo menos pelos próximos dois anos. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) renovou por 24 meses a autorização do projeto “Parques Nacionais Serra da Capivara e Serra das Confusões: Referências Arqueológicas para a Região Sul/Sudeste do Estado do Piauí”. A renovação foi publicada no Diário Oficial da União em 20 de outubro de 2026, na Portaria 102 do Centro Nacional de Arqueologia do Iphan.
Quem conduz a pesquisa
O projeto é coordenado pelas arqueólogas Anne Marie Pessis e Gisele Daltrini Felice e tem apoio institucional da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), entidade que trabalha há décadas na região. A autorização cobre os municípios de Coronel José Dias e Guaribas, onde ficam áreas dos dois parques nacionais.
No Brasil, toda pesquisa arqueológica de campo precisa de permissão do Iphan, prevista em portarias do órgão. A autorização define quem coordena os trabalhos, a área e o prazo. Sem ela, escavar sítios arqueológicos é proibido: os sítios são bens da União e protegidos por lei.
Um dos maiores conjuntos de arte rupestre do mundo
O Parque Nacional da Serra da Capivara foi criado em 5 de junho de 1979 e é Patrimônio Mundial da Unesco desde 1991. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra a unidade, o parque tem mais de 1.200 sítios arqueológicos, com pinturas que podem ter até 25 mil anos.
A Unesco descreve que muitos dos abrigos rochosos do parque são “decorados com pinturas rupestres, algumas com mais de 25 mil anos”. As figuras retratam animais, cenas de caça e grupos humanos, e o conjunto é considerado pela Unesco um testemunho de algumas das mais antigas comunidades humanas da América do Sul.
A vizinha menos conhecida
O Parque Nacional da Serra das Confusões, também no sul do Piauí, guarda sítios arqueológicos e entra no mesmo projeto. Em junho de 2026, um decreto federal ampliou a área da unidade. No mesmo mês, o Iphan autorizou outro projeto na região, voltado ao uso de novas tecnologias no estudo da ocupação humana antiga da Serra das Confusões.
Juntos, os dois parques formam um mosaico de áreas protegidas no semiárido piauiense, ligando paisagens de chapadas, cânions e boqueirões onde grupos humanos viveram, caçaram e pintaram ao longo de milhares de anos.
Por que a região é tão importante
A Serra da Capivara está no centro de um dos debates mais longos da arqueologia: quando os primeiros humanos chegaram às Américas. Escavações feitas desde os anos 1970 na região, lideradas pela arqueóloga Niède Guidon, defenderam datas muito mais antigas do que as aceitas pela maioria dos pesquisadores na época, e a discussão continua aberta.
Estudos recentes de DNA antigo indicam que os primeiros grupos humanos chegaram às Américas entre 14 mil e 20 mil anos atrás, como mostrou a Revista Amazônia em reportagem sobre a chegada dos primeiros humanos. Sítios como os do Piauí, com camadas de ocupação e de arte rupestre muito antigas, são peças-chave para testar essas cronologias.
O que a renovação garante
Com a portaria, a equipe pode continuar os trabalhos do projeto nos dois parques por mais 24 meses, contados a partir da publicação. O objetivo declarado no título do projeto é construir referências arqueológicas para o sul e o sudeste do Piauí, uma base para entender como a região foi ocupada ao longo do tempo.
Entenda
- O que foi renovado: a autorização do Iphan para o projeto de pesquisa arqueológica nos parques nacionais Serra da Capivara e Serra das Confusões.
- Prazo: 24 meses, a partir de 20 de outubro de 2026.
- Coordenação: Anne Marie Pessis e Gisele Daltrini Felice, com apoio da Fumdham.
- Área: municípios de Coronel José Dias e Guaribas, no Piauí.
- O parque: Patrimônio Mundial da Unesco desde 1991, com mais de 1.200 sítios arqueológicos.
Com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Diário Oficial da União, do ICMBio e da Unesco.
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