Fóssil de mamífero nadador de 120 milhões de anos revela dentes que se renovavam como os de répteis

Fóssil de mamífero nadador de 120 milhões de anos revela dentes que se renovavam como os de répteis
Foto: James Woodford

Animal encontrado na China combina patas semelhantes às do ornitorrinco, cauda achatada e uma característica dentária inédita entre mamíferos conhecidos.

Imagine um pequeno animal aquático nadando em lagos e rios há 120 milhões de anos, enquanto dinossauros ocupavam a paisagem. Seu corpo lembrava o de uma nútria, os pés tinham estruturas semelhantes às do ornitorrinco e os dentes não seguiam o padrão considerado típico dos mamíferos. Esse é o retrato de Dongoconodon platycauda, espécie descrita a partir de um fóssil quase completo encontrado na província de Liaoning, na China.

O animal media aproximadamente 40 centímetros e podia pesar até 190 gramas. A análise foi conduzida por Shundong Bi, da Universidade de Yunnan, e colaboradores, depois que o exemplar, localizado em 2018, chegou ao Museu de História Natural da Mongólia. O estudo foi publicado na revista Nature Communications e pode ser consultado no artigo científico sobre Dongoconodon platycauda.

Um nadador com patas parecidas com as do ornitorrinco

A forma do corpo é uma das primeiras pistas sobre o modo de vida do animal. Dongoconodon tinha tronco alongado, aparência hidrodinâmica e uma cauda achatada, combinação que favorecia a movimentação na água. A comparação visual mais próxima feita pelos pesquisadores é com a nútria, também conhecida como ratão-do-banhado, um roedor semiaquático atual.

As mãos e os pés, porém, aproximam o fóssil de outro mamífero: o ornitorrinco. Os ossos dos dedos apresentam expansões laterais, chamadas de flanges, que indicam a presença de membranas extensas entre os dedos. Essa configuração teria aumentado a área de contato com a água.

Na interpretação dos pesquisadores, as patas dianteiras forneciam grande parte da força para a propulsão. A cauda, mais estreita em direção à ponta, funcionava principalmente como leme, ajudando o animal a mudar de direção e a manter a estabilidade. O fóssil, portanto, não revela apenas a aparência de uma espécie extinta, mas também permite reconstruir como ela provavelmente se deslocava.

A dentição que rompe uma regra dos mamíferos

O principal achado está na boca. Mamíferos atuais geralmente têm uma dentição difiodonte: os dentes de leite são substituídos por uma dentição permanente, e cada classe de dente costuma passar por esse processo uma única vez. Em muitos casos, depois que os dentes definitivos surgem, não há uma nova reposição.

Dongoconodon parece ter seguido outro caminho. O fóssil preserva sinais de substituição repetida nos incisivos, caninos, dentes semelhantes a pré-molares e dentes semelhantes a molares. Essa condição é chamada de polifiodontia, mais associada aos répteis, cujos dentes podem ser continuamente trocados ao longo da vida.

Segundo Nature Communications, o fóssil de Dongoconodon platycauda, encontrado em Liaoning, China, preserva evidências de substituição múltipla nas quatro classes de dentes durante o Cretáceo. Se a interpretação estiver correta, trata-se do único mamífero conhecido com esse padrão completo em todos esses grupos dentários.

Os autores não estão dizendo que todos os primeiros mamíferos tinham dentes de reposição contínua. O resultado aponta para uma experiência evolutiva específica, preservada em uma linhagem que manteve características consideradas ancestrais por mais tempo do que outras espécies da mesma grande história evolutiva.

O ouvido também guarda uma etapa intermediária

A dentição não foi o único aspecto relevante. O exemplar conserva uma das regiões do ouvido médio mais completas já identificadas em um mamífero do Cretáceo Inicial. Entre as estruturas preservadas está a cartilagem de Meckel, uma formação embrionária que, nos mamíferos, liga temporariamente a mandíbula em desenvolvimento aos pequenos ossos do ouvido.

Em Dongoconodon, essa cartilagem parece representar uma fase de transição. Ela mantinha apenas um contato discreto com a mandíbula, mas ainda permanecia conectada aos ossos diminutos do ouvido. A configuração ajuda a acompanhar uma transformação anatômica que ocorreu gradualmente, em vez de aparecer pronta em uma única etapa.

Para a equipe, a combinação entre dentição polifiodonte e ouvido intermediário sugere que características importantes da evolução dos mamíferos não precisaram avançar juntas. A reposição dos dentes e a separação funcional dos ossos do ouvido podem ter seguido trajetórias parcialmente independentes.

O que o fóssil muda na história dos mamíferos

Durante muito tempo, a evolução dos mamíferos foi apresentada como uma sequência relativamente organizada: os animais abandonariam características herdadas de seus ancestrais reptilianos e, ao mesmo tempo, desenvolveriam os traços anatômicos associados aos mamíferos modernos. Dongoconodon torna esse quadro mais complexo.

Mike Benton, da Universidade de Bristol, avaliou que os pesquisadores apresentam uma boa justificativa para a existência de pelo menos três conjuntos de dentes e para a presença de uma anatomia intermediária no ouvido. Segundo ele, o animal teria conservado sinais de sua ancestralidade reptiliana mais tempo do que muitos outros mamíferos mesozoicos, que já haviam passado por essas transições ao fim do Triássico, há cerca de 201 milhões de anos.

Isso não significa que o fóssil seja um antepassado direto dos seres humanos ou que revele uma etapa linear até a nossa espécie. A importância está em mostrar que a evolução dos mamíferos produziu combinações variadas de características. Algumas linhagens podiam manter dentes com reposição contínua enquanto desenvolviam outras estruturas próprias do grupo.

Por que essa descoberta também interessa à Amazônia

Não há indicação de que Dongoconodon tenha vivido na Amazônia, e o fóssil foi encontrado na China. A conexão com a região está na possibilidade de comparar suas adaptações com a diversidade de mamíferos semiaquáticos que hoje vivem nos estados amazônicos.

Rios, igarapés e áreas alagadas da Amazônia abrigam espécies com soluções distintas para nadar, mergulhar e se orientar na água. Lontras, ariranhas, capivaras e outros mamíferos apresentam corpos, patas, caudas e hábitos moldados por ambientes aquáticos, mas isso não significa que sejam descendentes diretos do animal chinês. São exemplos modernos de como a vida pode chegar a formas parecidas quando enfrenta desafios semelhantes.

A comparação também ajuda a entender por que fósseis são importantes para a ciência brasileira e amazônica. Observar apenas espécies atuais mostra o resultado final de uma longa história. Registros paleontológicos, por outro lado, revelam combinações anatômicas que desapareceram e permitem testar se a evolução ocorreu por etapas independentes, como os autores propõem neste caso.

As dúvidas que permanecem

O exemplar é quase completo, mas um único fóssil não basta para estabelecer como todos os indivíduos da espécie cresciam ou quantas substituições dentárias ocorriam ao longo da vida. Novos exemplares serão necessários para confirmar a frequência desse padrão e verificar se ele também aparecia em parentes próximos.

O próximo passo é comparar Dongoconodon com outros mamíferos mesozoicos que viveram em ambientes terrestres ou aquáticos. Essas análises poderão indicar se a polifiodontia completa foi uma particularidade isolada ou parte de uma diversidade dentária mais ampla entre os primeiros mamíferos.

Com informações de Nature Communications.

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