
Levantamento com tecnologia lidar identificou construções de terra que não apareciam nas imagens de satélite em área de 4,8 mil quilômetros quadrados
O relevo escondido aparece durante os sobrevoos
Do alto, a floresta parecia cobrir completamente o terreno. Quando os aviões passaram sobre o sul da Amazônia, porém, os sensores registraram formas geométricas que não apareciam nas imagens de satélite. O levantamento identificou 396 geoglifos escondidos pela vegetação, grandes construções feitas com valas e estruturas de terra.
As novas estruturas foram encontradas em uma área de aproximadamente 4,8 mil quilômetros quadrados, que inclui partes do Acre, do sul do Amazonas e regiões da Bolívia e do Peru. Os sobrevoos fizeram parte de uma pesquisa conduzida por brasileiros e finlandeses, coordenada no Brasil pelo botânico Evandro Ferreira, da Universidade Federal do Acre. A divulgação ocorreu em 1º de agosto de 2026, depois de o estudo ser publicado na revista Nature em 29 de julho.
O equipamento retirou a floresta da imagem
Para localizar os geoglifos, a equipe utilizou aviões equipados com lidar, tecnologia de mapeamento a laser capaz de registrar o relevo em três dimensões. Durante o voo, o aparelho coleta informações sobre a vegetação e sobre o solo. Depois, os dados passam por processamento em computador, que permite remover virtualmente a cobertura vegetal e observar a topografia.
Esse procedimento revelou marcas que permaneciam ocultas sob a mata. Parte dos sobrevoos saiu de Manoel Urbano, no Acre, em direção a Catuiri, no Amazonas, e depois seguiu até Lábrea. Também foram realizadas dez linhas de voo a partir de Rio Branco, passando por Boca do Acre até Lábrea. Cada linha cobria uma faixa de aproximadamente 10 quilômetros de largura, ampliando a observação sobre uma região extensa.
O número de estruturas conhecidas saltou de 36 para 432
Antes desse levantamento, apenas 36 geoglifos eram conhecidos na região estudada. Eles haviam sido identificados principalmente em áreas abertas, onde o desmatamento deixava as formas antigas expostas e permitia observá-las em imagens aéreas ou de satélite. Com os 396 novos registros, o total de estruturas mapeadas na área chegou a 432.
A diferença mostra como a vegetação interfere na leitura da paisagem arqueológica. Segundo Evandro Ferreira, somente 9% das estruturas identificadas já eram conhecidas em áreas abertas antes do uso do lidar. O resultado não representa apenas uma ampliação de uma lista, mas uma mudança no método de observação: o terreno passou a ser analisado mesmo quando a floresta escondia suas marcas.
A pesquisa começou com uma previsão de milhares de geoglifos ocultos
O trabalho partiu de um estudo publicado em 2023 por um grupo liderado por um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Naquele levantamento, sobrevoos com lidar pela Amazônia indicaram que milhares de geoglifos ainda poderiam estar escondidos sob a floresta. A hipótese orientou a ampliação da investigação no sul da região.
No mesmo ano, o grupo também havia publicado um levantamento que identificou cerca de 1,2 mil geoglifos em áreas já desmatadas. Esses resultados ajudaram os pesquisadores a definir uma nova etapa, baseada na busca por estruturas invisíveis nas imagens convencionais. O estudo atual transformou essa possibilidade em registros concretos, acrescentando centenas de formas ao conhecimento arqueológico da Amazônia.
O mapa revela estruturas, mas não resolve todos os mistérios
O lidar é capaz de indicar valas, elevações e desenhos geométricos no terreno, mas a identificação da forma não explica sozinha quando cada estrutura foi construída, quem participou da obra ou qual função ela desempenhava. Essas interpretações dependem de outras evidências arqueológicas e de análises específicas. Por isso, os 396 registros devem ser entendidos como uma ampliação do mapa de sítios, não como uma resposta completa sobre a sociedade que os produziu.
Também existe uma diferença importante entre reconhecer uma estrutura no relevo e estudá-la diretamente no solo. Nas áreas cobertas pela floresta, a tecnologia permite localizar construções sem que seja necessário esperar a abertura da vegetação para enxergá-las. Ao mesmo tempo, o levantamento não substitui a investigação arqueológica de cada local. A floresta deixou de ser uma barreira para a detecção, mas continua fazendo parte do contexto que precisa ser preservado.
O Acre passa a ocupar uma posição central nessa paisagem antiga
Os voos que partiram de Rio Branco conectaram o Acre a uma área arqueológica que ultrapassa fronteiras estaduais e nacionais. O levantamento acompanhou faixas do território até o Amazonas e alcançou regiões da Bolívia e do Peru, mostrando que os geoglifos não formam um fenômeno restrito a um único município ou país. A distribuição das estruturas exige uma leitura integrada do sul da Amazônia.
Após a publicação do estudo na Nature, o resultado também modifica a imagem de uma floresta sem registros visíveis de ocupação antiga: sob a cobertura verde, o relevo conserva sinais de obras organizadas em escala ampla. Cada novo geoglifo localizado não apenas aumenta o inventário arqueológico, mas muda o ponto de partida para compreender como diferentes povos transformaram e utilizaram essa paisagem.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














