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Trouxeram aves de outro país para tentar salvar uma espécie…

Soltaram 29 renas numa ilha sem predadores no mar para ter carne na guerra; o rebanho explodiu a 6 mil e um único inverno brutal deixou só 42 vivas

Rena solitária na tundra gelada de uma ilha remota do mar de Bering sob luz fría de fim de tarde
Ilustração. Uma rena isolada na tundra de Saint Matthew, cenário do rebanho que explodiu a milhares e despencou quase por completo num único inverno.

Em agosto de 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial, uma barcaça da Guarda Costeira dos Estados Unidos atravessou águas geladas do mar de Bering carregando 29 renas retiradas da ilha Nunivak.

O destino era Saint Matthew, um confete de terra de 332 quilômetros quadrados, remoto, desabitado e tão isolado que a referência humana mais próxima no mapa mental brasileiro é o próprio Alasca ou o estreito que separa a América da Rússia.

A ideia era simples e prática: manter um rebanho vivo como reserva de carne caso o reabastecimento da estação de rádio de navegação falhasse e os dezenove homens da base ficassem sem comida. A guerra virou a favor dos Aliados mais depressa do que se temia. Ninguém precisou abater uma única rena.

A base foi desativada, os militares voltaram para casa e os animais ficaram sozinhos numa ilha sem lobos, sem ursos e sem caçadores, coberta por tapetes de liquen de vários centímetros de espessura que, no inverno ártico, fazem o papel que o capim faz num pasto brasileiro, só que crescem devagar no frio extremo.

O que parecia um buffet eterno virou o cenário de um dos maiores colapsos de população de herbívoros já documentados.

De reserva de carne a multidão na tundra

Treze anos depois do desembarque, o biólogo David Klein chegou a Saint Matthew para estudar ruminantes selvagens e encontrou um rebanho que já não cabia na conta original. As 29 renas de 1944 tinham se multiplicado até cerca de 1.350 indivíduos no verão de 1957, e os animais ostentavam peso corporal bem acima do padrão de criações domésticas, com fêmeas e machos visivelmente mais robustos.

A ilha ainda parecia generosa, embora Klein já notasse sinais localizados de pastoreio excessivo no liquen que sustenta as renas quando a neve cobre o solo. Seis anos mais tarde, em 1963, a cena era outra. Uma nova contagem apontou cerca de 6 mil renas, uma densidade absurda para um pedaço de tundra tão isolado, da ordem de dezenas de animais por quilômetro quadrado.

O tamanho corporal tinha diminuído, a proporção de filhotes em relação aos adultos caía, e o aviso biológico era claro para quem sabia ler o campo: a festa de crescimento sem freio estava no limite. Sem predadores no topo da cadeia e com comida de inverno de recuperação lentíssima, a ilha tinha se transformado num laboratório involuntário de demografia animal.

O inverno que apagou quase todo o rebanho

Klein só conseguiu voltar em 1966. Antes disso, guardas-costas de passagem em 1965 já descreviam dezenas de esqueletos branqueados espalhados pela tundra.

No chão, a equipe encontrou a ilha coberta de ossadas e contou apenas 42 renas vivas: nenhum filhote, 41 fêmeas e um único macho com chifres anormais, provavelmente incapaz de se reproduzir. Em poucos meses de um único inverno, o de 1963 para 1964, cerca de 99% do rebanho desapareceu.

Não foi um declínio suave espalhado por várias estações de fome; foi um tombo brusco, quase instantâneo na escala da biologia de populações. Durante muito tempo a explicação dominante apontou só o superpastejo do liquen: demais bocas, comida de inverno destruída, fome generalizada.

Uma releitura científica posterior, discutida em estudos de ecologia de renas e retomada em cobertura como a do sciencepost.fr, matizou o quadro. A mortalidade em massa parece ter se concentrado naquele inverno extremo, quando frio intenso e neve dura e abundante impediram os animais de alcançar o pouco liquen que ainda restava sob a crosta gelada.

A superpopulação tinha esgotado a forragem; a tempestade de inverno foi o gatilho que transformou escassez em armadilha mortal. Reconstituições climáticas das ilhas vizinhas de St. Paul e Nunivak para aquele período mostram condições excepcionalmente severas de temperatura e precipitação de neve. Para uma população já no limite da capacidade de suporte da tundra, o resultado foi devastador.

O liquen, organismo de crescimento lento formado pela associação de fungo e alga, não se recupera de uma safra para outra como um pasto tropical; quando milhares de renas roem a cobertura até o solo, a ilha fica sem “estoque” de inverno por décadas.

O silêncio definitivo de uma ilha sem renas

O destino dos 42 sobreviventes estava selado. Com um macho provavelmente estéril e quase nenhuma chance de reprodução viável, o rebanho local se extinguiu ao longo das décadas seguintes, e nos anos 1980 já não restava traço de chifre ou casco na tundra. Hoje os únicos grandes mamíferos a circular por ali de forma estável são as raposas-do-ártico.

Saint Matthew voltou ao silêncio de antes da barcaça de 1944, só que com o solo marcado pela memória de um ciclo completo de explosão e colapso. O episódio entrou para manuais de ecologia sob o nome clássico de overshoot and collapse, o descompasso entre crescimento desenfreado e a capacidade real do ambiente de sustentar aquela densidade.

Em ilhas fechadas, sem caça e sem predadores, herbívoros introduzidos tendem a picos espetaculares seguidos de crashes violentos quando a forragem de inverno some e o clima aperta. Saint Matthew não foi experimento planejado de laboratório; foi reserva de carne esquecida que virou lição involuntária sobre limites frágeis de ecossistemas isolados.

O que a tundra ensina sobre fartura sem freio

A cronologia cabe em poucas marcas: 29 animais em 1944, cerca de 1.350 em 1957, cerca de 6 mil no auge de 1963, 42 em 1966 e extinção local nas décadas seguintes. O que matou o rebanho não foi caçador, lobo ou doença inventada para dramatizar o caso. Foi a combinação de demografia sem controle, liquen devastado e um inverno que fechou o acesso à comida restante sob neve dura.

A ilha, grande o bastante para parecer generosa e pequena o bastante para não perdoar excesso, mostrou como uma abundância que parece triunfante pode ser só o prólogo silencioso de um vazio. Para quem lê de longe, o mar de Bering parece abstrato, mas a mecânica é reconhecível: lotar um ambiente fechado com gado sem manejo e depois enfrentar um ano seco ou de geada.

Em Saint Matthew o “pasto” era liquen ártico, o “curral” era o oceano gelado ao redor, e o “inverno seco” veio com neve que os cascos não conseguiam romper. O caso continua sendo citado porque resume, em escala de ilha e de rebanho, o risco de tratar recurso lento como se fosse infinito.

As renas chegaram como seguro alimentar de guerra e partiram como esqueleto de uma história que a tundra ainda carrega sob o vento. Hoje a ilha segue remota, fora de rotas turísticas e longe de qualquer metrópole. O que sobrou do episódio é o registro de campo, as contagens de Klein e a memória científica de um colapso que não precisou de vilão de carne e osso para acontecer.

Bastaram renas saudáveis, comida que demora a voltar e um inverno a mais do que o sistema fechado podia absorver. Em poucos anos a multidão da tundra virou silêncio, e o silêncio ficou.

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