
Certificação da OMS expõe como vigilância em garimpos e atendimento a comunidades isoladas podem conter a doença.
O Suriname, país amazônico com menos de 630 mil habitantes e mais de 90% do território coberto por floresta, foi certificado pela Organização Mundial da Saúde como livre de malária em 30 de junho de 2025. O resultado encerra quase sete décadas de esforços contra a doença e torna o país o primeiro da região amazônica a alcançar esse status, apesar da presença de garimpos, comunidades indígenas dispersas e extensas áreas de difícil acesso.
A certificação eleva para 12 o número de países livres de malária nas Américas e para 46 o total mundial, além de um território. Mais do que um reconhecimento sanitário, o caso funciona como um teste para os demais países amazônicos, onde a combinação de floresta, mobilidade de trabalhadores e mineração ilegal mantém pontos persistentes de transmissão.
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O país está localizado no nordeste da América do Sul e tem uma economia fortemente dependente da exploração de recursos naturais, como ouro e bauxita. Essa característica criou uma dificuldade específica para o controle da malária: trabalhadores circulam entre áreas de mineração, fronteiras e comunidades remotas, muitas vezes fora do alcance regular dos serviços de saúde.
Roberto Montoya, assessor regional para malária da Organização Pan-Americana da Saúde, afirmou que a conquista demonstra ser possível eliminar a doença mesmo em um cenário de “selva, mineração de ouro e populações indígenas dispersas”. A declaração, porém, não significa que o risco tenha desaparecido. A certificação exige vigilância permanente para impedir que casos importados restabeleçam a transmissão local.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Suriname foi certificado como livre de malária em 30 de junho de 2025, após comprovar a interrupção da transmissão e a capacidade de manter a vigilância necessária para evitar a reintrodução da doença.
Entenda o caso
A malária é transmitida pela picada de fêmeas do mosquito do gênero Anopheles, que carregam parasitas do gênero Plasmodium. Os sintomas podem incluir febre, vômitos e anemia. Nas Américas, cerca de três quartos dos casos estão associados ao Plasmodium vivax, espécie capaz de permanecer no fígado e voltar a causar sintomas meses depois.
Essa característica torna a eliminação mais complexa. Mesmo quando a febre desaparece, o parasita pode continuar no organismo e exigir tratamento prolongado. Por isso, reduzir os casos registrados não é suficiente: o sistema de saúde precisa localizar infecções, completar os tratamentos e acompanhar possíveis recaídas.

Garimpos eram pontos críticos de transmissão
Uma das estratégias decisivas foi levar testes rápidos e medicamentos diretamente às populações que dificilmente chegariam a um posto de saúde. Em algumas comunidades indígenas, as equipes percorriam rios por até duas horas para oferecer diagnóstico e tratamento.
A mesma lógica foi aplicada aos trabalhadores da mineração, incluindo pessoas envolvidas em atividades ilegais. Agentes comunitários foram treinados para administrar medicamentos e criar uma ligação entre os acampamentos e as autoridades de saúde. A medida enfrentou um problema recorrente na região: trabalhadores que se automedicam, interrompem as doses assim que melhoram ou circulam para outras áreas antes de concluir o tratamento.
“Isso cria pontos de transmissão difíceis de controlar”, explicou Montoya ao analisar a relação entre mineração de ouro e malária em países como Brasil, Colômbia, Venezuela e Guiana. Segundo ele, o uso incompleto dos medicamentos também favorece problemas de resistência, uma ameaça que pode comprometer os avanços obtidos.
A rede de atendimento exigiu ainda a participação de donos de empresas de mineração e de diferentes órgãos públicos. Para Angélica Knudson Ospina, especialista em malária da Universidade Nacional da Colômbia, o exemplo do Suriname mostra que a vontade política é tão importante quanto a tecnologia disponível. Sem a cooperação dos responsáveis pelos locais de trabalho e das comunidades, os testes e remédios não alcançam os principais focos de risco.
Tratamento mais adequado ajudou na queda
Outra mudança ocorreu em 2005, quando o país substituiu o tratamento de oito dias baseado em quinina por medicamentos derivados da artemisinina. A alteração foi apontada como um dos fatores que contribuíram para enfrentar a doença com mais eficácia.
O desafio, contudo, é diferente daquele observado em regiões onde predomina o Plasmodium falciparum, espécie mais letal e comum em grande parte da África. O Plasmodium vivax, predominante nas Américas, pode permanecer dormente no fígado. A eliminação exige, portanto, localizar também pessoas que não apresentam sintomas no momento da avaliação.
O ministro da Saúde do Suriname, Amar Ramadhin, afirmou que o fim da malária pode produzir efeitos positivos sobre o sistema de saúde, a economia e o turismo. A relação econômica é plausível, mas não automática: os ganhos dependem da manutenção dos serviços, da segurança nas áreas de mineração e da capacidade de controlar casos trazidos de países vizinhos.

O que o exemplo significa para a Amazônia
A Amazônia se espalha por nove países e reúne condições ambientais favoráveis à reprodução dos mosquitos transmissores. No Brasil, os estados amazônicos concentram grande parte dos casos nacionais, especialmente em áreas rurais, indígenas, ribeirinhas e de exploração mineral. A realidade também envolve fronteiras extensas e circulação constante entre Brasil, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia e Equador.
O caso surinamês não pode ser copiado integralmente. O país tem população menor e uma estrutura territorial diferente da brasileira. Ainda assim, oferece uma lição operacional: combater a malária exige levar o diagnóstico até onde as pessoas estão, inclusive em áreas sem presença regular do Estado.
Também revela uma lacuna regional. A eliminação em um país não impede a entrada de casos vindos de locais onde a transmissão continua elevada. Brasil, Colômbia e Venezuela ainda registram cargas importantes da doença, assim como Peru e Haiti. México, Costa Rica, República Dominicana e Guiana Francesa estão entre os territórios que avançam na direção da eliminação.
O próximo passo do Suriname será sustentar a vigilância, acompanhar trabalhadores móveis e responder rapidamente a qualquer caso importado. Sem esse esforço contínuo, a certificação pode permanecer no papel, enquanto os fatores ambientais e econômicos que favoreceram a malária continuam ativos.
Perguntas frequentes
O Suriname é o primeiro país da Amazônia livre de malária?
Sim. A OMS certificou o Suriname como o primeiro país amazônico a eliminar a transmissão da malária e manter condições para impedir sua retomada.
A malária desapareceu completamente do país?
Não necessariamente. A certificação indica interrupção da transmissão local. Casos importados ainda podem ocorrer, por isso a vigilância precisa continuar.
Por que o garimpo aumenta o risco?
Garimpos reúnem trabalhadores móveis em áreas remotas, com acesso limitado a diagnóstico e tratamento. A automedicação e a interrupção das doses podem manter a cadeia de transmissão e favorecer resistência.
Com informações de Organização Mundial da Saúde.
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