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Bactérias da pele ajudam a explicar por que cada espécie de mosquito escolhe vítimas diferentes

Bactérias da pele ajudam a explicar por que cada espécie de mosquito escolhe vítimas diferentes
Foto: discovermagazine.com

Estudo com 119 voluntários mostra que odor, sexo e microbioma podem alterar a atração de mosquitos transmissores de doenças.

Uma pessoa pode ser ignorada por uma espécie de mosquito e, ao mesmo tempo, chamar a atenção de outra. Essa diferença foi observada em um estudo com 119 adultos, conduzido por pesquisadores da Florida International University, nos Estados Unidos, e publicado na revista iScience em 2026.

A pesquisa indica que bactérias da pele, compostos do odor corporal, sexo e uso ou ausência de fragrâncias podem influenciar quais mosquitos tentam picar uma pessoa. O resultado ajuda a explicar por que, em um mesmo grupo ao ar livre, sempre parece existir alguém mais atacado pelos insetos.

Cada espécie identifica um cheiro diferente

O trabalho comparou as reações de três espécies consideradas importantes na transmissão de doenças. Foram analisados o Aedes aegypti, conhecido como mosquito da dengue, o Aedes albopictus, chamado de mosquito-tigre-asiático, e o Culex quinquefasciatus, associado à transmissão do vírus do Nilo Ocidental.

Os pesquisadores apresentaram amostras de odor humano aos mosquitos e observaram como cada espécie respondia. O resultado central foi que não houve um perfil universal de pessoa mais atraente. As preferências variaram conforme a espécie avaliada.

“É claro para mim agora que nossos microbiomas da pele definem nossa assinatura de odor humano. Cada espécie encontrou sua própria maneira de decodificar essa assinatura”, afirmou Matthew DeGennaro, neurogeneticista e diretor do Biomolecular Sciences Institute da Florida International University.

Segundo a Florida International University, o estudo publicado em 2026 mostrou que Aedes aegypti, Aedes albopictus e Culex quinquefasciatus responderam de maneira diferente aos mesmos voluntários e aos compostos presentes em seus odores.

Entenda o caso

Mosquitos fêmeas precisam de sangue para completar o desenvolvimento dos ovos. Os machos não picam pessoas e se alimentam principalmente de néctar e outros líquidos vegetais.

Para localizar um hospedeiro, as fêmeas combinam sinais como dióxido de carbono liberado na respiração, calor, umidade e odor corporal. O cheiro humano reúne mais de mil compostos orgânicos voláteis, muitos ainda pouco estudados.

A composição desse odor pode mudar de acordo com alimentação, temperatura, atividade física, genética, produtos usados na pele e microrganismos que vivem sobre o corpo. É essa combinação que pode tornar uma pessoa mais ou menos detectável para determinado mosquito.

O que atrai Aedes aegypti, Aedes albopictus e Culex

Na análise, o Aedes aegypti foi a única das três espécies a apresentar uma preferência discreta por participantes do sexo masculino. O resultado não significa que homens sejam sempre mais picados, mas indica que o sexo pode interagir com outros elementos do odor individual.

Aedes aegypti e Culex quinquefasciatus demonstraram preferência pela ausência de determinados compostos. Entre eles estavam álcoois cíclicos e monoterpenos, substâncias encontradas com frequência em perfumes, cosméticos e muitos óleos essenciais.

Já o Aedes albopictus mostrou preferência por cetonas e por compostos orgânicos voláteis associados a características vegetais, liberados pela pele. A resposta reforça que um repelente eficaz contra uma espécie pode não produzir exatamente o mesmo efeito contra outra.

Os cientistas também encontraram associações entre famílias específicas de bactérias da pele e a atração ou rejeição do Culex quinquefasciatus. A presença de determinadas comunidades bacterianas parece alterar os compostos liberados pelo corpo, embora o estudo não permita afirmar que uma única bactéria seja responsável por tornar alguém mais atraente.

Por que a descoberta importa para a saúde

As três espécies avaliadas podem transmitir vírus que causam doenças graves. O Aedes aegypti é vetor de dengue, zika e febre amarela. O Aedes albopictus também pode participar da transmissão de dengue e zika. O Culex quinquefasciatus está relacionado ao vírus do Nilo Ocidental.

O estudo não substitui medidas conhecidas de prevenção, como eliminar água parada, usar telas, vestir roupas que cubram o corpo e aplicar repelentes registrados pelas autoridades sanitárias. Também não sustenta a ideia popular de que algumas pessoas têm simplesmente “sangue mais doce”.

O achado mais importante é outro: a atração pode depender da combinação entre espécie do mosquito e assinatura química de cada pessoa. Por isso, uma solução baseada em um único cheiro ou repelente talvez não funcione da mesma forma em todos os locais.

Essa questão tem impacto direto na Amazônia. Em áreas urbanas e rurais do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a circulação de mosquitos vetores é influenciada por chuvas, calor, ocupação do solo e armazenamento inadequado de água. A região reúne condições favoráveis à proliferação de diferentes espécies, mas a pesquisa não avaliou especificamente populações amazônicas.

Clima pode ampliar o período de transmissão

Os pesquisadores relacionaram a busca por repelentes específicos às mudanças no clima. Com temperaturas mais altas e períodos quentes mais longos, algumas espécies podem ampliar sua área de ocorrência e permanecer ativas por mais tempo.

Esse cenário aumenta a necessidade de estratégias de controle adaptadas ao mosquito predominante em cada região. Uma formulação desenvolvida para bloquear os sinais usados pelo Aedes aegypti, por exemplo, pode precisar de ajustes quando o principal vetor for o Culex quinquefasciatus.

A equipe da Florida International University pretende aprofundar os perfis químicos do odor humano e do microbioma da pele. O objetivo é identificar quais compostos provocam atração ou aversão e em que concentração eles atuam.

O estudo completo publicado na revista iScience pode ajudar a orientar novas pesquisas sobre repelentes específicos e políticas de saúde pública. As próximas etapas devem testar se os padrões observados em laboratório se repetem em ambientes naturais e em diferentes populações.

Perguntas frequentes

As bactérias da pele fazem uma pessoa ser sempre mais picada?

Não. Elas podem influenciar o odor corporal, mas a resposta depende da espécie do mosquito e de outros fatores, como calor, umidade, respiração e produtos aplicados na pele.

Perfume protege contra mosquitos?

Não necessariamente. O estudo observou que algumas espécies responderam à ausência de compostos comuns em perfumes e óleos essenciais, mas isso não significa que qualquer fragrância funcione como repelente.

O estudo muda as medidas de prevenção?

Não. A recomendação continua sendo eliminar criadouros, usar barreiras físicas e aplicar repelente conforme as orientações do rótulo e das autoridades de saúde.

Com informações de Florida International University.

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