
Por cerca de 130 anos, o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) foi dado como extinto no Rio Grande do Sul. Até que câmeras e pesquisadores registraram o animal no Parque Estadual do Espinilho, uma unidade de conservação do Pampa no extremo oeste gaúcho, às margens do rio Uruguai, na fronteira com a Argentina.
Os registros aconteceram em 2023, um em junho e outro em setembro. Não foi possível confirmar se eram do mesmo indivíduo, mas o recado estava dado: a espécie voltou a pisar no estado. A suspeita dos biólogos é que o animal tenha atravessado vindo da Argentina. Do outro lado da fronteira, na província de Corrientes, a espécie foi reintroduzida nos Esteros del Iberá.
Um parque pequeno com bichos raros
O Espinilho fica no município de Barra do Quaraí, perto da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai. É uma das áreas protegidas mais importantes do Pampa e abriga outras espécies ameaçadas, como o cardeal-amarelo, ave que também já ganhou destaque por aparecer ali.
A paisagem é de parque de espinilhos, árvores baixas e espinhosas espalhadas sobre o campo, um ambiente raro no Brasil e mais comum no Chaco argentino. Para um tamanduá vindo do outro lado do rio, o parque funciona como uma porta de entrada.
O Pampa, um bioma esquecido
O Pampa é o segundo menor bioma do Brasil, restrito à metade sul do Rio Grande do Sul, mas abriga mais de 12.500 espécies, das quais 1.136 são de animais vertebrados. Está entre os mais ameaçados pelo avanço agrícola e tem menos de 3% de sua área em unidades de conservação. Mesmo as áreas de proteção integral sofrem pressão de usos humanos ao redor.
A volta do tamanduá-bandeira, um animal que precisa de grandes áreas de campo e mata para encontrar formigueiros e cupinzeiros, mostra que ainda há espaço para a fauna nativa, desde que haja conexão entre as áreas naturais.
A estrada no meio do caminho
O Espinilho é cortado pela BR-472, rodovia que liga as cidades do extremo oeste gaúcho à tríplice fronteira. E rodovias são um dos maiores perigos para o tamanduá-bandeira. Por ser lento e enxergar mal, ele é uma das vítimas mais frequentes de atropelamento em estradas do Cerrado e do Pantanal.
Em Mato Grosso do Sul, o projeto Bandeiras e Rodovias, do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas), estuda há anos os conflitos entre a espécie e o tráfego. No Espinilho, há poucos estudos sobre os efeitos da BR-472 na fauna da reserva. Especialistas alertam que é preciso conhecer melhor a biodiversidade dentro e fora da unidade e o impacto da estrada, para que o único tamanduá conhecido no estado não volte ao noticiário como mais um animal atropelado.
Quem é o tamanduá-bandeira
É o maior tamanduá do mundo. Pode passar de dois metros do focinho à ponta da cauda, que é longa e peluda como uma bandeira, origem do nome. Não tem dentes: usa garras fortes para abrir cupinzeiros e formigueiros e uma língua comprida e pegajosa para capturar dezenas de milhares de insetos por dia.
A espécie é classificada como vulnerável à extinção. Desapareceu de boa parte do Sul e do Sudeste do Brasil por causa da perda de habitat, das queimadas, da caça e dos atropelamentos. Ainda é encontrada no Cerrado, no Pantanal e em partes da Amazônia.
O que fazer ao encontrar um tamanduá
Apesar de manso na maior parte do tempo, o tamanduá-bandeira se defende com as garras quando se sente encurralado. A orientação é manter distância, não tentar tocar nem perseguir o animal e, em caso de bicho ferido ou em área urbana, acionar o órgão ambiental ou a polícia ambiental.
Perguntas frequentes
Existe tamanduá-bandeira no Rio Grande do Sul?
Sim. Depois de cerca de 130 anos sem registros, a espécie foi registrada em 2023 no Parque Estadual do Espinilho, em Barra do Quaraí.
O tamanduá-bandeira é perigoso?
Não ataca pessoas por iniciativa própria, mas pode usar as garras para se defender se for acuado.
Com informações do Parque Estadual do Espinilho e do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas).
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