
Encontrar um tatu-canastra na natureza já é um acontecimento. Ver dois machos adultos frente a frente, brigando, é ainda mais raro. Foi isso que uma câmera de trilha registrou na Reserva Água Doce, em Cacoal, Rondônia: dois tatus-canastra em confronto por cerca de 34 minutos, perto de um barreiro que a equipe da reserva apelidou de Lost.
Barreiros são locais de solo rico em minerais onde vários animais da floresta vão lamber ou comer terra. Por isso, são pontos estratégicos para instalar armadilhas fotográficas.
Uma cena nunca vista na reserva
O fundador e administrador da área, Jorge Antônio Cavallet, disse que nunca tinha presenciado uma disputa tão longa e intensa entre dois animais dessa espécie. Segundo ele, a reserva já tinha registros de tatus-canastra se alimentando, se deslocando e marcando território, mas uma briga entre machos adultos é raríssima.
O que mais impressionou foi a resistência dos animais, que se enfrentaram por mais de meia hora sem ferimentos graves aparentes. O monitoramento na reserva começou há seis anos e já acumulou centenas de gravações de onças, antas, veados, capivaras, aves como a harpia e o gavião-de-penacho, e várias espécies de tatus.
O maior tatu do mundo
O tatu-canastra (Priodontes maximus) é o maior tatu vivo. Pode passar de um metro de comprimento sem a cauda e chegar a cerca de 60 quilos. A garra do meio das patas da frente é enorme, uma das maiores entre os mamíferos em proporção ao corpo, e funciona como ferramenta de escavação.
Com ela, o animal abre tocas profundas e destrói cupinzeiros e formigueiros, seus principais alimentos. Um tatu-canastra pode cavar uma toca nova quase todos os dias. Essas tocas abandonadas viram abrigo para dezenas de outras espécies, de lagartos a pequenos mamíferos, o que faz do tatu um engenheiro do ecossistema.
Fantasma da floresta
Apesar do tamanho, o tatu-canastra é um dos mamíferos mais difíceis de ver no Brasil. É noturno, passa o dia escondido em tocas e vive em densidades muito baixas. Pesquisadores que estudam a espécie há anos contam que muitas vezes só conhecem os animais pelas câmeras e pelas tocas que deixam.
A reprodução também é lenta. As fêmeas costumam ter um único filhote, depois de uma gestação longa, e os intervalos entre os nascimentos podem passar de dois anos. Com tão poucos filhotes, qualquer perda de adultos pesa muito sobre a população.
O que é um barreiro
Na Amazônia, barreiros são clareiras ou barrancos com terra rica em sais minerais, como sódio, que é escasso na dieta de muitos animais da floresta. Antas, queixadas, veados, macacos e até araras e papagaios visitam esses lugares para lamber ou comer o solo, o que também ajuda a neutralizar toxinas de frutas e sementes. Por concentrar tantos bichos, os barreiros são os pontos preferidos de pesquisadores para instalar câmeras, e também de caçadores, o que exige vigilância nas áreas protegidas.
Por que os machos brigam
O tatu-canastra é territorial, sobretudo os machos, que defendem áreas de vida grandes. Confrontos podem acontecer quando dois indivíduos disputam o mesmo território ou o acesso a uma fêmea. Como esses encontros quase nunca são vistos, imagens como as de Cacoal ajudam os pesquisadores a entender o comportamento reprodutivo e os limites de convivência entre os animais.
Ameaçado de extinção
A espécie é considerada vulnerável à extinção. As principais ameaças são a perda de habitat com o desmatamento, a caça e os atropelamentos. Áreas protegidas e monitoradas, como a reserva em Rondônia, são justamente os lugares onde ainda é possível encontrar o animal. Para o administrador da reserva, cenas assim só acontecem onde a floresta é mantida, e mostram por que vale a pena conservá-la.
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