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Solo milenar criado por indígenas pode revolucionar reflorestamento

Solo milenar criado por indígenas pode revolucionar reflorestamento
Foto: brasil.mongabay.com

Pesquisa da USP e Embrapa demonstra que terra preta da Amazônia acelera crescimento de árvores nativas em até 88% em condições reais de campo.

E se um solo criado há séculos por povos indígenas guardasse a chave para recuperar florestas degradadas hoje? Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Embrapa acabam de demonstrar que a terra preta da Amazônia, também conhecida como terra preta de índio, pode revolucionar projetos de restauração florestal na região.

Em experimentos realizados em condições reais de campo, pequenas quantidades desse solo ancestral aumentaram significativamente o crescimento de árvores nativas. No caso do ipê-roxo (Handroanthus avellanedae), espécie encontrada tanto na Amazônia quanto na Mata Atlântica, as mudas cultivadas com terra preta apresentaram crescimento 55% maior em altura e 88% em diâmetro de tronco em apenas 180 dias, comparadas com plantas sem o solo antropogênico.

A pesquisa, conduzida pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena-USP), Embrapa Amazônia Ocidental e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), foi publicada em janeiro de 2026 e acompanhou o desenvolvimento de mudas entre outubro de 2022 e abril de 2023 no Campo Experimental do Caldeirão, em Iranduba (AM), na Região Metropolitana de Manaus.

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Foto: brasil.mongabay.com

Além da fertilidade: o poder oculto dos microrganismos

O diferencial da terra preta, segundo os cientistas, não está apenas nos nutrientes. “A TPA alterou fortemente a microbiota do solo”, explica Anderson Santos de Freitas, pesquisador do Cena-USP e principal autor do estudo. “Ela teve pouco efeito na diversidade bacteriana, mas aumentou a diversidade fúngica, principalmente no ipê-roxo, e promoveu mudanças claras na composição microbiana, com redução de patógenos e aumento de microrganismos benéficos e agentes de biocontrole.”

Segundo a pesquisa publicada na revista BMC Ecology and Evolution, a terra preta atua como um “engenheiro biológico”, reconfigurando o microbioma do solo ao redor das raízes das plantas. Esse ambiente modificado torna-se mais supressivo a patógenos e mais favorável ao crescimento vegetal. “Esse efeito microbiano, aliado à fertilidade, explica seu potencial para a restauração ecológica sustentável”, afirma Freitas.

Outra espécie amazônica testada, o paricá (Schizolobium amazonicum), bastante utilizado no reflorestamento e na indústria madeireira por seu crescimento rápido, também apresentou resultados expressivos. Em média, essas plantas cresceram 20% mais e apresentaram tronco 15% maior em diâmetro.

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Da floresta ao laboratório

A ideia do experimento surgiu da necessidade de testar o comportamento dos microrganismos em condições ambientais reais, fora do ambiente controlado de laboratório. “A intenção foi testar o poder dos microrganismos da terra preta da Amazônia em campo, numa situação real, exposta aos fatores ambientais que um projeto de restauração enfrenta, como pluviosidade, ventos, vegetação ao redor e características do solo”, detalha o pesquisador.

As mudas foram inicialmente produzidas em viveiro com pequenas quantidades de terra preta e depois transplantadas para um latossolo, tipo de solo amplamente encontrado no Brasil e cultivado anteriormente com mandioca. Durante seis meses, os cientistas acompanharam o desenvolvimento das plantas, avaliando crescimento (altura e diâmetro) e coletando amostras de solo para análises físico-químicas e sequenciamento de DNA.

Lucas William Mendes, biólogo do Cena-USP e doutor em ecogenômica e sustentabilidade ambiental, que não participou da pesquisa, destaca o avanço científico. “A terra preta da Amazônia já era conhecida por sua alta fertilidade e pelo potencial de promover o crescimento de plantas. O diferencial deste estudo foi demonstrar, com critérios científicos e em condições de campo, que ela pode acelerar o crescimento saudável de espécies arbóreas amazônicas.”

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Protegendo o patrimônio arqueológico e ambiental

Os pesquisadores fazem questão de esclarecer: o objetivo não é utilizar a terra preta em larga escala nem retirar o solo original de seus locais de origem. No Brasil, os depósitos de terra preta são considerados patrimônio arqueológico e ambiental, protegidos por lei federal. A remoção ou exploração irregular desse solo é crime.

“A ideia central é entender como esse solo funciona e, a partir disso, mimetizar suas características em laboratório”, enfatiza Freitas. Segundo ele, a dimensão arqueológica da terra preta é protegida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), enquanto o acesso ao patrimônio genético é regulamentado pela legislação brasileira sobre biodiversidade.

Wenceslau Geraldes Teixeira, da Embrapa Solos e especialista em terras pretas e solos antrópicos amazônicos, também não participante do estudo publicado em 2026, considera a linha de pesquisa “promissora”, mas exige cautela. “A mineração ou extração comercial é crime. O verdadeiro potencial está no conhecimento científico gerado pela pesquisa”, alerta. “O objetivo não seria espalhar terra preta pelos campos, mas identificar e isolar os microrganismos específicos que promovem o crescimento e a proteção das plantas. A partir disso, no futuro, poderemos desenvolver bioinsumos comerciais.”

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Entenda o caso

A terra preta da Amazônia é um solo escuro e extremamente fértil, rico em matéria orgânica, formado ao longo de séculos por populações indígenas a partir do acúmulo de carvão, restos orgânicos, artefatos cerâmicos e outros resíduos. Diferente dos solos comuns da Amazônia, geralmente pobres em nutrientes, a terra preta mantém alta fertilidade mesmo após milênios. Sua distribuição na região inclui centenas de sítios arqueológicos espalhados pela bacia amazônica.

Desafios metodológicos e próximos passos

Teixeira também fez ressalvas metodológicas importantes. Segundo ele, é possível que parte do efeito observado decorra não apenas dos microrganismos, mas também dos nutrientes presentes na própria terra preta. “Os autores argumentam que a quantidade de terra era pequena, atribuindo os resultados aos efeitos microbiológicos. No entanto, 290 cm³ por planta não é tão pouco assim. É provável que os nutrientes presentes nesse bloco inicial tenham conferido vantagem física e nutricional de arranque a essas mudas em relação ao controle”, pondera.

O pesquisador também menciona a enorme variabilidade entre diferentes áreas de terra preta na Amazônia, com solos que diferem em composição química e microbiológica de região para região. “Em outro estudo, realizado na Bolívia, se testou a TPA e foram encontrados resultados com alta mortalidade de algumas espécies de árvores devido provavelmente ao excesso de alguns nutrientes e desbalanço.”

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Os achados de 2026 somam informações a um tema já investigado pela Embrapa Amazônia Ocidental. Em 2023, um estudo anterior publicado na revista Frontiers in Soil Science, do qual participaram alguns dos mesmos pesquisadores, incluindo Anderson Freitas e a professora Tsai Siu Mui, também do Cena-USP, já havia demonstrado que “o elevado teor de nutrientes e microbiologia das terras pretas da Amazônia pode promover o desenvolvimento de árvores utilizadas em projetos de restauração ecológica”.

Bioinsumos do futuro

Pesquisadores agora buscam novas formas de aplicar os potenciais científicos do solo fértil. Entre as possibilidades estudadas estão o uso de biochar (um tipo de carvão vegetal rico em carbono) e o isolamento de microrganismos presentes na terra preta capazes de estimular o crescimento vegetal. O objetivo futuro seria criar bioinsumos que reproduzam os benefícios biológicos da terra preta sem que seja necessária a remoção do solo original da Amazônia.

Ainda assim, os pesquisadores concordam que os resultados abrem uma nova fronteira para a restauração ecológica tropical, sobretudo em um cenário de mudanças climáticas, avanço do desmatamento e necessidade crescente de recuperar áreas degradadas. Suas visões coincidem em um ponto: ampliar o conhecimento para transformá-lo em tecnologia aplicável.

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Foto: brasil.mongabay.com

Segundo Anderson Freitas, da USP, a próxima etapa da pesquisa será isolar e caracterizar os microrganismos específicos responsáveis pelo efeito benéfico observado, visando o desenvolvimento futuro de produtos comerciais para restauração florestal. Os primeiros testes de isolamento de fungos e bactérias devem iniciar ainda em 2026.

Perguntas frequentes

O que é a terra preta da Amazônia?
É um solo escuro e fértil criado há séculos por populações indígenas amazônicas, a partir do acúmulo de carvão, restos orgânicos e artefatos cerâmicos. Rico em matéria orgânica e microrganismos benéficos, mantém alta fertilidade mesmo após milênios.

É permitido retirar terra preta da floresta para uso em reflorestamento?
Não. A terra preta é considerada patrimônio arqueológico e ambiental no Brasil, protegida por lei federal. Sua remoção ou exploração irregular é crime. O objetivo da pesquisa é isolar microrganismos para criar bioinsumos em laboratório, sem afetar os depósitos originais.

Quais espécies de árvores foram testadas no experimento?
Os pesquisadores testaram principalmente o ipê-roxo (Handroanthus avellanedae) e o paricá (Schizolobium amazonicum), duas espécies nativas amplamente utilizadas em projetos de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas na Amazônia.

Com informações da Embrapa Amazônia Ocidental.

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