
Um tsunami é uma série de ondas causada por terremotos ou erupções vulcânicas sob o mar, segundo a agência oceânica dos Estados Unidos (NOAA), e a Amazônia não costuma entrar nos alertas do Pacífico: o boletim emitido após o terremoto de magnitude 7,6 no Panamá, em 9 de outubro de 2026, não incluía o litoral brasileiro. Isso não quer dizer que a região não trema. O Centro de Sismologia da USP registra sismos no Amazonas e em Roraima, e o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) localiza tremores profundos sob o Acre.
Esta reportagem explica como funcionam terremotos e tsunamis e onde a Amazônia entra nessa história. Os detalhes do alerta do dia estão na cobertura do alerta de tsunami após o terremoto no Panamá.
Como um terremoto vira tsunami
Um terremoto é o deslocamento brusco de uma falha na crosta. Quando isso acontece sob o oceano e move o fundo do mar, a água acima é empurrada e gera ondas. A NOAA explica que, em águas profundas, as ondas de um tsunami não crescem de forma dramática, mas ganham altura ao se aproximar da costa, onde o mar fica raso.
A velocidade depende da profundidade do oceano, e não da distância da origem. Em mar aberto, as ondas podem viajar tão rápido quanto aviões a jato, e só desaceleram ao chegar à água rasa. A NOAA desencoraja o nome “maré”, porque as marés têm pouco a ver com o fenômeno.
O Centro de Alerta de Tsunami do Pacífico (PTWC) lembra que o tsunami é uma série de ondas, com intervalo de 5 minutos a uma hora entre elas, que a primeira pode não ser a maior e que o perigo pode durar horas.
O que o boletim do Panamá diz sobre o Brasil
No boletim das 15h51 (horário de Brasília) de 9 de outubro de 2026, o PTWC previa ondas de 1 a 3 metros acima da maré em algumas costas do Panamá e ondas de menos de 0,3 metro em países como Colômbia, Equador, Peru, Chile e México, além de ilhas do Pacífico. O Brasil não consta na lista. O texto também informa que cabe às autoridades de cada país definir o nível de alerta.
Mas a Amazônia treme
O Brasil está no interior da placa tectônica da América do Sul, longe das bordas onde ocorrem os maiores terremotos, e por isso os grandes tremores são raros. Raros, porém, não é nenhum. Em 31 de janeiro de 2021, um terremoto na divisa entre Roraima e a Guiana teve magnitude mb 5,6, segundo o Centro de Sismologia da USP, e Mw 5,7, segundo o USGS. Foi o maior sismo intraplaca sentido no Brasil desde 1955, superando o de Codajás, no Amazonas, em 1983, que teve mb 5,5.
O tremor de 2021 foi sentido em todo o estado de Roraima e até em Manaus, segundo a USP, que informa não haver notícias de danos sérios além de pequenas trincas no chão e da queda de uma parede de barro na região do epicentro, de baixa densidade populacional. A mesma instituição lembra que a área já teve sismos de magnitude 4,3 e 4,8 em 1964 e 1968, e que tremores foram sentidos em Boa Vista em 1928 e 1953.
Por que o chão da Amazônia se mexe
Segundo o Centro de Sismologia da USP, os sismos do centro da Amazônia e de Roraima não estão relacionados diretamente ao encontro das placas de Nazca e da América do Sul, nos Andes. A causa é uma compressão da crosta na direção norte-sul, cuja origem ainda não é bem compreendida. Outro fator são áreas de fraqueza, como o Graben do Takutu, um vale que começou a se abrir na era Mesozoica e teve a abertura “abortada”. A USP o compara a uma cicatriz não totalmente curada.
É a mesma bacia do Tacutu onde pesquisadores descreveram pegadas de dinossauros, tema da reportagem sobre as pegadas de dinossauros em Roraima. A USP também aponta, em seu mapa, um provável terremoto ocorrido na Amazônia em 1690, cujo epicentro foi apenas estimado.
Os tremores profundos sob o Acre
No extremo oeste, a origem é outra. O USGS explica que a placa de Nazca afunda sob a América do Sul e que terremotos profundos, com mais de 300 quilômetros de profundidade, ocorrem nessa placa também a leste da fossa, sob o oeste do Brasil e a Argentina central. Foram localizados de forma confiável até cerca de 650 quilômetros. No norte do Peru, a placa de Nazca se move para o leste-nordeste a 67 milímetros por ano em relação à América do Sul, segundo o órgão.
O catálogo do USGS traz grandes tremores profundos nessa região da fronteira entre Brasil e Peru:
- 20 de junho de 2003: magnitude 7,1, a 105 km a leste de Cruzeiro do Sul, com cerca de 558 km de profundidade;
- 24 de novembro de 2015: dois tremores de magnitude 7,6 no Peru, a cerca de 600 km de profundidade;
- 24 de agosto de 2018: magnitude 7,1 no Peru, a 136 km a oeste de Iñapari, com cerca de 630 km;
- 8 de junho de 2022 (tempo universal): magnitude 6,5, a 107 km a sul-sudoeste de Tarauacá, no Acre, com cerca de 623 km.
Tremores mais rasos no Peru também chegam ao Acre. O USGS registra que o terremoto de magnitude 7,0 de 24 de agosto de 2011, no norte do Peru, foi sentido em Cruzeiro do Sul e Rio Branco, no Acre.
Como acompanhar
O USGS publica catálogos e mapas de terremotos em tempo real, e o PTWC, os boletins de tsunami. O Centro de Sismologia da USP mantém o registro de sismos no Brasil e recebe relatos de quem sentiu um tremor, os chamados “sismonautas”.
Entenda
Magnitude é a medida da energia liberada por um terremoto, e cada instituição pode divulgar um valor ligeiramente diferente. Sismo intraplaca é o tremor que ocorre no interior de uma placa tectônica, longe das bordas. Tremor profundo é o que acontece a mais de 300 km, dentro de uma placa que afunda. Tsunami é a série de ondas gerada por um deslocamento no fundo do mar.
Perguntas frequentes
Um tsunami pode atingir a Amazônia?
O boletim do PTWC sobre o terremoto do Panamá não incluía o litoral brasileiro. O alerta era para o Pacífico, e as autoridades de cada país definem o nível de alerta.
A Amazônia tem terremotos?
Sim. A USP registra sismos no Amazonas e em Roraima, e o USGS localiza tremores profundos sob o Acre, na fronteira com o Peru.
Qual foi o maior terremoto sentido no Brasil nos últimos anos?
Segundo a USP, o de 31 de janeiro de 2021, na divisa de Roraima com a Guiana, foi o maior sismo intraplaca sentido no país desde 1955.
Os tremores do Acre causam danos?
Os registros lidos para esta reportagem descrevem tremores sentidos em Cruzeiro do Sul e Rio Branco, sem relatar danos.
O que fazer a seguir
Quem sentir um tremor pode relatar ao Centro de Sismologia da USP e acompanhar os registros no site do USGS. Em caso de alerta de tsunami, a orientação do PTWC é seguir as instruções das autoridades nacionais e locais.
Com informações do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), da NOAA e do Pacific Tsunami Warning Center.
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