Após 14 anos, pesquisadores confirmam pegadas de dinossauros com mais de 110 milhões de anos em Roraima, primeiro registro na Amazônia

Após 14 anos, pesquisadores confirmam pegadas de dinossauros com mais de 110 milhões de anos em Roraima, primeiro registro na Amazônia
Ilustração: Revista Amazônia

Marcas preservadas em lajedos da bacia do rio Tacutu indicam a presença de dinossauros carnívoros e herbívoros em um ambiente antigo, com pouca água e muita areia.

Marcas no arenito guardaram uma paisagem de 110 milhões de anos

Grandes marcas de pés aparecem preservadas em lajedos de arenito no município de Bonfim, ao norte de Roraima. As pegadas foram deixadas há pelo menos 110 milhões de anos e representam o primeiro registro de pegadas de dinossauros encontrado na Amazônia. A descoberta ocorreu na bacia do rio Tacutu, uma área formada por rochas sedimentares resultantes da deposição de camadas de areia.

O achado muda a leitura sobre a paisagem que existia naquele ponto do extremo norte brasileiro. Em vez da floresta amazônica atual, os pesquisadores encontraram evidências de um ambiente antigo com pouca água e muita areia, provavelmente uma planície de inundação ou uma área semiárida. Foi nesse cenário que dinossauros carnívoros e herbívoros caminharam sobre o solo, deixando marcas que permaneceram registradas na rocha.

Geólogo encontrou as primeiras marcas durante mapeamento em 2011

As primeiras pegadas foram identificadas em 2011 pelo geólogo e doutor em bioestratigrafia Vladimir de Souza, durante um mapeamento geológico na bacia do rio Tacutu. A atividade era realizada com alunos do curso de geologia da Universidade Federal de Roraima, instituição responsável pelas pesquisas que avançaram sobre o material encontrado nos lajedos.

A confirmação levou 14 anos. O estudo foi conduzido por Vladimir de Souza, pelo pesquisador Carlos Eduardo Vieira, doutor em geociências, e por Lucas Barros, mestre em ciências biológicas. Nesse período, a equipe avaliou as marcas preservadas nas rochas e confirmou que elas correspondiam a pegadas de dinossauros. A divulgação do achado ocorreu em 27 de outubro de 2025.

Conjunto reúne dinossauros carnívoros e herbívoros

As pegadas indicam que diferentes tipos de dinossauros passaram pela região. Entre os registros estão marcas associadas a animais carnívoros e herbívoros, incluindo formas que lembram os velociraptores e os saurópodes, conhecidos pelo pescoço e pela cauda longos. O conjunto também inclui pegadas de animais com três dedos, uma característica visível em parte dos rastros preservados.

Algumas marcas indicam animais com mais de 10 metros de altura. Ainda assim, os pesquisadores não identificaram as espécies exatas apenas a partir das pegadas. Rastros fossilizados podem revelar o tamanho aproximado, o formato dos pés e o modo de deslocamento, mas não necessariamente permitem associar cada marca a uma espécie específica. Por isso, a pesquisa apresenta os grupos de animais representados sem atribuir nomes definitivos às espécies.

Rochas preservaram o momento em que os animais cruzaram o terreno

O registro foi formado quando os dinossauros caminharam sobre uma superfície arenosa que depois foi coberta e protegida por novas camadas de sedimentos. Com o passar de milhões de anos, a compactação e a transformação desses depósitos deram origem às rochas sedimentares atualmente expostas nos lajedos. Quando a superfície rochosa voltou a ficar descoberta, as marcas puderam ser observadas e estudadas.

A origem do terreno ajuda a explicar por que as pegadas permaneceram visíveis. O local era formado por areia e apresentava pouca água, condições compatíveis com uma planície de inundação ou uma área semiárida. A preservação não registra apenas a passagem de um animal, mas também a textura do solo e as características do ambiente em que os dinossauros se deslocavam no passado.

Fragmentação da Pangeia criou novos ambientes para a fauna

Quando essas pegadas foram deixadas, os continentes ainda passavam por grandes mudanças. Cerca de 150 milhões de anos atrás, as terras emersas formavam o supercontinente Pangeia. À medida que a Pangeia se fragmentou, braços de mar avançaram sobre áreas antes secas, alterando o relevo, a disponibilidade de água e as condições para a vida.

Essas transformações geográficas também modificaram a fauna e a flora. Os pesquisadores relacionam esse processo à diversificação de plantas como coníferas, plantas com flor e samambaias, além da presença de diferentes grupos de animais. As pegadas de Roraima fazem parte desse cenário de mudanças ambientais e registram que dinossauros ocupavam a região durante uma fase de reorganização dos continentes.

Primeiro registro na Amazônia amplia a história pré-histórica do Brasil

O achado na bacia do Tacutu amplia o mapa conhecido de vestígios de dinossauros no Brasil ao apresentar o primeiro registro de pegadas desse tipo na Amazônia. A descoberta também mostra que a região hoje associada à maior floresta tropical do planeta teve, em um passado remoto, ambientes muito diferentes, com extensas áreas arenosas e circulação de animais de grande porte.

As marcas continuam ligadas ao lugar onde foram deixadas há mais de 110 milhões de anos. Para a ciência, esse é o valor de uma pegada fossilizada: ela transforma uma paisagem desaparecida em uma cena concreta, na qual o tempo profundo deixa de ser apenas uma medida e passa a ocupar o chão.

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