Dinossauros na Amazônia: por que achamos tão poucos fósseis?

Dinossauros na Amazônia: por que achamos tão poucos fósseis?
Foto: GLandovsky, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. Pegadas de dinossauros em Sousa (PB), usadas como ilustração; as de Roraima não têm foto livre.

Há poucos dinossauros conhecidos na Amazônia porque as rochas que poderiam guardá-los foram desgastadas pelo intemperismo e pela erosão e são de acesso difícil, segundo artigo publicado em 2026 na revista Cretaceous Research por pesquisadores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e da Universidade Federal do Pampa (Unipampa).

O mesmo estudo descreve as primeiras pegadas atribuídas a dinossauros na bacia do Tacutu e mostra que até rochas muito alteradas pelo clima tropical podem preservar esses rastros. A Revista Amazônia contou o achado em 7 de outubro de 2026, na reportagem sobre as pegadas de dinossauros em Roraima. Aqui, a pergunta é outra: por que a maior floresta tropical do planeta entregou tão pouco da era dos dinossauros?

O que os autores dizem sobre a escassez

O resumo do artigo é direto: na América do Sul, os registros de dinossauros são particularmente raros na região amazônica, sobretudo por causa do intemperismo e da erosão e da dificuldade de chegar a locais potencialmente produtivos. Assinam L. S. Barros, V. Souza, C. E. L. Vieira, G. S. Zaranza e F. L. Pinheiro, ligados à UFRR e à Unipampa, no volume 183 da revista, de julho de 2026.

A introdução reforça o quadro. A Amazônia tem escassez de dados sobre vertebrados do Mesozoico, e isso vale em especial para o centro-norte da região, onde fica Roraima. Os registros de dinossauros mais próximos, no norte da América do Sul, estão em geral associados à região andina.

Rochas escurecidas e afloramentos raros

Mesmo onde as pegadas apareceram, a preservação é difícil, e a paisagem ali é de savana, não de floresta densa. Os autores relatam que cada sítio pode ter dezenas de marcas, mas elas ficam camufladas pelo aspecto concrecionário e pela cor escura de rochas ricas em ferro, muito alteradas pelo intemperismo laterítico. A maior parte das pegadas não preservou trilhas, o que dificulta dar nomes científicos precisos.

No restante da Amazônia, o quadro também é de afloramentos raros. A Formação Alter do Chão, do Cretáceo, aparece em barrancos do rio Amazonas perto de Óbidos, no Pará, e seu topo é coberto por um solo laterítico do Paleógeno, segundo estudo de Anderson Mendes e colegas da Universidade Federal do Pará na Revista Brasileira de Geociências, em 2012.

O dente que veio de um poço de petróleo

Um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro reexaminou, em 2024, nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, o que era até então a única ocorrência definitiva de répteis do Mesozoico na região Norte do Brasil: dois dentes serrilhados recuperados de um testemunho de sondagem de poço de petróleo em Nova Olinda do Norte, no Amazonas. Eles vêm da Formação Alter do Chão, de idade cenomaniana.

Os autores concluíram que a hipótese mais provável é a de um abelissaurídeo, grupo de predadores conhecido em outras partes do Brasil, e descrevem o registro mesozoico do Norte como extremamente limitado.

O que o achado de Roraima mudou

Segundo o artigo, as pegadas da Formação Serra do Tucano são os primeiros registros de dinossauros no estado de Roraima e estão entre os pouquíssimos conhecidos da Amazônia central. Os rastros aparecem em pelo menos dez sítios do vale rifte do Tacutu, e o sítio Cascavel concentra a maior densidade e diversidade, com várias dezenas de marcas.

A equipe identificou quatro morfotipos associados a dinossauros ornitísquios e pelo menos três de terópodes, os dinossauros carnívoros de duas patas. Uma pegada grande de terópode pode indicar a presença de dromeossaurídeos de grande porte na América do Sul no Cretáceo Inferior.

As rochas são do Barremiano ao Albiano, dois andares do Cretáceo Inferior que somam algo entre 126 e 100 milhões de anos, e se formaram em ambiente predominantemente continental.

Outros fósseis do Cretáceo na região

O registro de dinossauros fora de Roraima é pontual. Em 2003, um grupo liderado por Ismar de Souza Carvalho descreveu na Cretaceous Research o saurópode Amazonsaurus maranhensis, da Formação Itapecuru, no Maranhão, de idade aptiana-albiana. O local fica no limite leste da Amazônia Legal. Até então, os únicos dinossauros reportados na Amazônia brasileira eram um dente de terópode da Alter do Chão e fragmentos de ossos da Bacia de São Luís.

Há também plantas. Pesquisadores da UFRR, da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre outras instituições, descreveram em 2023, no Journal of South American Earth Sciences, estruturas reprodutivas semelhantes às de Ephedra na própria Formação Serra do Tucano. O material da bacia é fragmentado, formado sobretudo por madeira silicificada, compressões carbonosas e impressões, e a associação de plantas sugere clima árido a semiárido entre o Barremiano e o Albiano.

O que se espera descobrir

Os autores descrevem o trabalho como o primeiro passo para pesquisas com vertebrados na bacia do Tacutu e afirmam que o vale rifte era um ambiente favorável a grandes vertebrados.

Na conclusão, defendem que até rochas muito afetadas pelo intemperismo laterítico, em ambientes tropicais, ainda podem guardar icnofósseis identificáveis, sobretudo onde faltam fósseis do corpo dos animais. A maioria dos sítios examinados mostra marcas apesar do desgaste.

Entenda

Icnofóssil é qualquer vestígio da atividade de um animal preservado na rocha, como pegadas e trilhas. Intemperismo laterítico é a alteração profunda de rochas em clima quente e úmido, que as enriquece em ferro. Bacia rifte é uma depressão formada quando a crosta se estica e afunda.

Perguntas frequentes

Roraima foi o primeiro registro de dinossauro na Amazônia?

Não no sentido absoluto. O artigo apresenta os primeiros registros de dinossauros em Roraima e entre os poucos da Amazônia central. Antes já havia um dente de terópode da Alter do Chão e o Amazonsaurus, no limite leste da Amazônia Legal.

Por que quase não há ossos de dinossauro na Amazônia?

Os autores citam intemperismo, erosão e dificuldade de acesso. Em Roraima, o artigo trata de uma região onde fósseis do corpo dos animais são raros e, por isso, as pegadas ganham peso científico.

Que dinossauros deixaram as pegadas de Roraima?

A equipe vê rastros de terópodes e de ornitísquios, em pelo menos dez sítios. Como a maior parte das marcas não forma trilhas, não há atribuição a espécies específicas.

O que fazer a seguir

Quem quiser conferir os dados pode ler o resumo e os destaques do artigo, que tem o identificador DOI 10.1016/j.cretres.2026.106335.

Com informações da Universidade Federal de Roraima, da Universidade Federal do Pampa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Universidade Federal do Pará, da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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