Tráfico de animais na Amazônia vai além do pet: estudo lista 137 espécies traficadas, muitas para comer e para rituais

Tráfico de animais na Amazônia vai além do pet: estudo lista 137 espécies traficadas, muitas para comer e para rituais
Tracajás (Podocnemis unifilis), quelônio amazônico muito visado pelo tráfico. Foto: Charles J. Sharp, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

A Amazônia brasileira, dona da maior biodiversidade do planeta, é também um dos grandes centros do tráfico de animais silvestres. Todos os dias, bichos são tirados da floresta para serem vendidos em outras partes do país e no exterior. Mesmo assim, faltam dados organizados sobre esse crime. Um estudo publicado em julho na revista científica Human Ecology tentou montar um panorama.

A pesquisa, liderada por Marta Custodio Lopes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), analisou 34 artigos científicos sobre tráfico de fauna na Amazônia brasileira para identificar os principais motivos, rotas e espécies-alvo.

137 espécies

O levantamento identificou 137 espécies de animais silvestres comercializadas ilegalmente na região. A maioria é de aves, 36,4%, seguidas de mamíferos, 28,4%, répteis, 18,9%, e peixes, 15,3%. Em todo o Brasil, as aves são o principal alvo do tráfico, e na Amazônia aparece uma grande variedade delas.

Não é só animal de estimação

Diferente de outras regiões do país, onde o comércio de pets domina, na Amazônia muitas aves de médio e grande porte são traficadas para servir de comida, uma característica local. O mesmo vale para os quelônios, como tartarugas e tracajás, e seus ovos, consumidos no Brasil e levados para países vizinhos.

O estudo também aponta usos medicinais, espirituais e religiosos entre os principais motivos do tráfico na região. Partes de animais são usadas em remédios tradicionais, amuletos e rituais.

Fronteiras porosas

Rios, florestas extensas e fronteiras com vários países facilitam o crime. Tabatinga, no Amazonas, e Letícia, na Colômbia, separadas por uma única rua, aparecem em relatórios sobre o tema como ponto obrigatório de passagem, especialmente de quelônios e peixes.

Um caso emblemático é o do acari-zebra (Hypancistrus zebra), peixe criticamente ameaçado que só existe no rio Xingu, no Pará. Muito cobiçado por aquaristas, ele é levado ilegalmente por milhares de quilômetros até a tríplice fronteira e de lá segue para o exterior. Outras rotas passam pela Guiana e pelo Suriname, onde a captura de algumas espécies nativas é permitida, o que facilita esquentar animais retirados ilegalmente do Brasil.

Pontos cegos

Como o estudo se baseia só em artigos científicos, ele reflete as áreas mais acessíveis aos pesquisadores, perto dos rios principais e das capitais. Segundo a autora, há muitas regiões sem nenhum trabalho publicado. Dados de apreensões também ficam espalhados entre municípios, estados e União, e muitos animais resgatados são soltos no próprio local sem entrar nas estatísticas oficiais.

Por que o tráfico é grave

Além de retirar animais da natureza, o tráfico mata a maioria dos bichos capturados, que morrem no transporte, em caixas apertadas e sem água. Também espalha doenças e tira da floresta espécies importantes para dispersar sementes e controlar populações de outros animais. Especialistas apontam ligação crescente entre o tráfico de fauna e outros crimes ambientais, como a extração ilegal de madeira.

Como ajudar

Não compre animais silvestres sem procedência legal, nem em feiras, nem pela internet. Ao ver venda ou transporte de bichos, denuncie ao Ibama, pela Linha Verde (0800 061 8080), ou à polícia ambiental do seu estado.

Perguntas frequentes

Quais animais são mais traficados na Amazônia?

As aves, que respondem por 36,4% das espécies identificadas no estudo, seguidas de mamíferos, répteis e peixes.

Comprar animal silvestre é crime?

Sim, quando não há autorização e procedência legal. A Lei de Crimes Ambientais prevê pena para quem compra, vende, transporta ou mantém animais silvestres sem licença.

Com informações da Universidade Federal Rural de Pernambuco e do estudo publicado na Human Ecology.

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