
Estudo com mais de 800 mil registros separou pela primeira vez o efeito direto do clima sobre a perda de habitat.
As áreas onde os abelhões conseguem viver na Europa já diminuíram por causa do aquecimento do planeta. A redução média foi de 5%, mas chegou a 19% em pontos específicos, segundo um estudo publicado em 7 de setembro de 2026 na revista Nature Climate Change.
O resultado foi obtido depois que pesquisadores analisaram mais de 800 mil registros georreferenciados de 47 espécies. O levantamento mostra que a mudança climática não é apenas uma ameaça futura para esses polinizadores. Ela já alterou o mapa de condições ambientais disponíveis para os insetos.
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O desafio central da pesquisa foi identificar quanto da transformação observada poderia ser atribuído especificamente ao aquecimento. Abelhões também sofrem com perda de vegetação, poluição, espécies invasoras e exploração de recursos naturais.
Para isolar o efeito climático, os pesquisadores belgas treinaram modelos de nicho ecológico específicos para cada espécie. Esses modelos foram alimentados com os registros de ocorrência e projetaram a distribuição potencial dos animais em dois cenários.
O primeiro reproduziu as condições climáticas observadas entre 1901 e 2019. O segundo simulou um clima contrafactual, sem a tendência de longo prazo associada ao aquecimento global. A diferença entre os dois resultados indicou a parcela da mudança provocada pelo clima.
Segundo o estudo publicado na Nature Climate Change em 7 de setembro de 2026, a mudança climática reduziu em média 5% a adequação do habitat dos abelhões europeus, com perdas locais de até 19%.
Perdas mais fortes no sul e no centro da Europa
A pressão não aparece de forma uniforme no continente. As regiões sul e central da Europa registraram os efeitos mais intensos, justamente em um período em que o ritmo de aquecimento se acelerou.
As análises indicam que o impacto se tornou mais evidente a partir da década de 1980. O período coincide com o aumento das taxas de aquecimento e ajuda a explicar por que a alteração no habitat ganhou força nas últimas décadas.
Em áreas alpinas e boreais, o quadro foi diferente. O deslocamento de condições adequadas para altitudes mais elevadas compensou parcialmente a perda registrada em regiões mais baixas e em latitudes menores. Por isso, o saldo líquido nesses ambientes foi pequeno.
Essa compensação, porém, não significa que as espécies estejam protegidas. Subir para áreas mais frias exige que os abelhões encontrem continuidade de habitat, alimento e locais apropriados para reprodução. Uma mudança de altitude pode abrir uma nova área no mapa, mas não garante que o inseto consiga alcançá-la ou sobreviver nela.
Por que a perda dos abelhões afeta a agricultura
Abelhões estão entre os polinizadores mais importantes da Europa. Ao visitar flores em busca de néctar e pólen, eles transportam grãos entre plantas e contribuem para a reprodução de espécies silvestres e cultivadas.
O declínio desses insetos pode atingir a produção de alimentos de duas maneiras. A primeira é direta, quando culturas dependentes da polinização passam a receber menos visitas. A segunda ocorre no ambiente natural, com a redução da reprodução de plantas que sustentam outros animais e ajudam a formar a vegetação.
O estudo não calcula perdas agrícolas nem afirma que toda redução de polinizadores decorre do clima. A contribuição da pesquisa está em medir a parcela atribuível ao aquecimento, mantendo separados os demais fatores de pressão.
Essa distinção é importante para políticas públicas. Proteger flores e locais de nidificação pode aliviar a perda de habitat, mas não elimina o problema se as temperaturas continuarem mudando. A pesquisa aponta que mitigação climática, manejo de áreas naturais e conservação precisam avançar em conjunto.
O que o resultado indica para a Amazônia
Os números europeus não podem ser transferidos diretamente para a Amazônia. As espécies avaliadas vivem em outro continente, respondem a condições ecológicas próprias e não representam os polinizadores encontrados no Brasil.
Mesmo assim, o mecanismo descrito é relevante para Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A mudança do clima pode alterar temperatura, regime de chuvas, floração e disponibilidade de alimento em diferentes momentos do ano, afetando as relações entre plantas e animais.
Na Amazônia, abelhas nativas, mamangavas, besouros, moscas, borboletas e outros organismos participam da polinização. A resposta de cada grupo varia conforme a espécie e o ambiente. Por isso, os resultados europeus funcionam como alerta sobre a necessidade de acompanhar essas mudanças localmente, e não como uma previsão automática para a floresta.
O ponto comum está na dependência entre polinizadores e vegetação. Quando a floração muda de época ou ocorre em menor quantidade, os animais podem enfrentar períodos de escassez. Se o ciclo de um polinizador deixa de coincidir com o das plantas visitadas, a reprodução de ambos pode ser prejudicada.
O que ainda precisa ser protegido
Os autores defendem que a resposta não deve se limitar à criação de áreas protegidas. É necessário manter paisagens conectadas, conservar locais de alimentação e reprodução e administrar os ambientes que permitem o deslocamento das espécies.
A criação de corredores ecológicos pode reduzir o isolamento entre populações. O monitoramento contínuo também ajuda a detectar deslocamentos para altitudes maiores, mudanças na época de atividade e desaparecimento de áreas adequadas antes que a perda se torne irreversível.
Outra limitação é que os modelos trabalham com adequação ambiental. Uma área considerada favorável no mapa não representa necessariamente uma população saudável. Competição, doenças, agrotóxicos, disponibilidade de ninhos e presença de predadores também podem determinar se a espécie permanece no local.
O estudo, portanto, não encerra a investigação. Ele oferece uma medida específica de um problema mais amplo e mostra que o aquecimento já reorganizou a distribuição potencial de insetos essenciais para os ecossistemas.
Os pesquisadores concluem que a pressão deve crescer se o aquecimento continuar. As próximas etapas dependem de reduzir emissões e ampliar ações de conservação e manejo de habitat antes que novas perdas climáticas se acumulem.
Com informações de Nature Climate Change.
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