Transição energética terá de levar renováveis de 5,2 para 38,2 TW e eletricidade a mais de 50% até 2050

Transição energética terá de levar renováveis de 5,2 para 38,2 TW e eletricidade a mais de 50% até 2050
Foto: ClimaInfo,

Relatório da IRENA calcula que redes, armazenamento e eficiência serão decisivos para evitar gargalos na corrida contra o aquecimento global.

O principal obstáculo para a transição energética não será apenas construir mais usinas solares e eólicas. Será fazer a eletricidade chegar com segurança a casas, empresas e serviços, armazenar o excedente e reduzir o desperdício. Essa é a conclusão central do relatório World Energy Transition Outlook 2026, lançado em 13 de outubro pela Agência Internacional de Energia Renovável, a IRENA, que calcula um salto da capacidade renovável mundial de 5,2 terawatts para 38,2 terawatts até 2050.

Segundo a IRENA, o mundo precisa acelerar a eletrificação, ampliar as fontes renováveis e reformar o sistema energético para manter uma trajetória compatível com o limite de 1,5°C do Acordo de Paris. O diagnóstico interessa diretamente a países como o Brasil, onde a expansão da geração limpa precisa caminhar junto com linhas de transmissão, planejamento territorial e capacidade para atender novos usos da eletricidade.

O desafio começa depois da instalação dos painéis

Uma placa solar ou uma turbina eólica produz energia, mas não resolve sozinha o problema de abastecimento. A geração varia conforme o sol e o vento, enquanto o consumo ocorre o tempo todo. Por isso, o relatório coloca redes elétricas, baterias, flexibilidade operacional e eficiência energética no centro da mudança.

Na prática, isso significa construir sistemas capazes de transportar energia entre regiões, guardar parte da produção para os momentos de menor geração e ajustar a demanda conforme a disponibilidade. Também significa fazer mais com menos energia, por meio de equipamentos eficientes, edifícios melhor planejados e processos industriais que reduzam perdas.

Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, afirmou que “Eletrificação, redes elétricas, armazenamento, flexibilidade e eficiência energética não são meros elementos de apoio à margem dessa transformação energética global; são a sua espinha dorsal”. Para ele, a questão é implementar essas soluções juntas e na escala necessária, sem comprometer a segurança, o acesso e a competitividade.

Mais eletricidade no consumo, menos dependência de fósseis

A IRENA projeta que a eletricidade represente 35% do consumo final de energia até 2035. Em 2050, essa participação passaria de 50%. Mais de 80% da eletricidade seria produzida por fontes solar e eólica em meados do século.

Esse movimento não equivale simplesmente a acrescentar novas usinas a uma matriz que continua baseada nos combustíveis fósseis. A proposta descrita no relatório é substituir progressivamente carvão, petróleo e gás em atividades que podem ser eletrificadas, combinando a geração renovável com tecnologias mais eficientes e combustíveis sustentáveis para os setores de substituição mais difícil.

A mudança alcançaria o transporte, a indústria, os edifícios e outros segmentos que hoje dependem diretamente da queima de combustíveis. O resultado esperado seria uma redução das emissões, mas o estudo também associa a transição a ganhos de produtividade e a uma estrutura de energia mais competitiva.

O que os números dizem sobre emprego e preços

No cenário alinhado ao limite de 1,5°C, a economia mundial cresceria 1,1% ao ano acima do cenário usual, de acordo com a projeção apresentada pela IRENA. A diferença acumulada até 2050 chegaria a cerca de US$ 46 trilhões, o equivalente a R$ 231,1 trilhões conforme a conversão divulgada no material.

O setor de energias renováveis também poderia ampliar sua força de trabalho de pouco mais de 16 milhões de pessoas para 84 milhões até 2050. Esse número é uma projeção, não uma garantia: sua concretização dependerá de investimentos, formação profissional, políticas industriais e capacidade de distribuir os benefícios entre países e regiões.

Transição energética terá de levar renováveis de 5,2 para 38,2 TW e eletricidade a mais de 50% até 2050
Foto: ClimaInfo,

Outra estimativa aponta uma possível redução de 15% nos preços da energia para o consumidor final até 2050, caso mercados elétricos mais competitivos avancem. A queda, portanto, está condicionada à modernização do sistema e à forma como os custos de infraestrutura, financiamento e operação serão distribuídos.

África mostra por que os dados também importam

Um exemplo citado no material ajuda a dimensionar outro problema da transição: nem todo avanço aparece imediatamente nas estatísticas oficiais. A África deve instalar 17 gigawatts de painéis solares em 2026, alta de 45% em relação a 2025. O volume equivale a 1,2 vez a capacidade da hidrelétrica de Itaipu.

Em uma análise baseada nas importações de placas solares chinesas, de onde vêm 94% dos painéis instalados no continente, as organizações Ember e African Tech Futures Lab estimaram que os países africanos instalaram 12 gigawatts de energia solar em 2025. No mesmo ano, a IRENA registrou 3,8 gigawatts, em grande parte associados a parques solares de maior escala.

A diferença sugere que sistemas de medição concentrados em grandes empreendimentos podem deixar de fora instalações em telhados e projetos menores. Para governos e investidores, acompanhar esse tipo de geração distribuída é importante tanto para planejar redes quanto para avaliar o acesso real à energia.

O que o relatório significa para a Amazônia

Nos estados da Amazônia Legal, Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a discussão sobre eletrificação não se resume à expansão de grandes usinas. A distância entre comunidades, cidades e centros de consumo torna decisiva a escolha entre reforçar redes, instalar geração local, criar armazenamento ou combinar diferentes soluções.

O relatório da IRENA não apresenta uma meta específica para cada estado brasileiro, mas seus critérios ajudam a avaliar projetos na região. Uma expansão renovável sem transmissão suficiente pode desperdiçar energia; redes sem armazenamento ou flexibilidade podem ter dificuldade para lidar com fontes variáveis; e novas cargas, como transporte elétrico e equipamentos industriais, exigem planejamento antecipado.

Para o leitor amazônico, a consequência prática é que a transição energética será percebida não apenas na origem da eletricidade, mas também na qualidade do fornecimento, no preço, na criação de empregos e na possibilidade de substituir geradores a combustíveis fósseis em áreas afastadas. O benefício climático dependerá de essa infraestrutura alcançar diferentes perfis de território e consumo.

A conta da velocidade ainda está aberta

O relatório estabelece uma direção e uma escala de esforço, mas não elimina as disputas sobre financiamento, licenciamento, localização de empreendimentos, formação de trabalhadores e distribuição dos ganhos. Também não significa que o limite de 1,5°C esteja assegurado. A IRENA descreve o caminho necessário para manter essa trajetória, enquanto os resultados dependerão de decisões políticas e investimentos efetivamente realizados.

A agenda prática defendida pela agência começa até 2035, com aceleração da eletrificação, das renováveis, da eficiência, das redes e do armazenamento. O acompanhamento dos próximos planos nacionais de energia e clima mostrará se as projeções sairão do papel e se a expansão ocorrerá com segurança, acesso e participação social.

O relatório completo World Energy Transition Outlook 2026 pode ser consultado no site da IRENA.

Com informações de IRENA.

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