
Encontro pré-COP terá passagem por um atol ameaçado pelo mar, mas reúne poucos chefes de governo de fora da região.
Em um arquipélago com cerca de 10 mil habitantes, a diplomacia climática será testada não apenas pelo texto de uma declaração, mas pela disposição de líderes estrangeiros de chegar até lá. Tuvalu recebe entre 5 e 8 de outubro uma reunião pré-COP organizada para dar visibilidade às nações insulares do Pacífico, ameaçadas pela elevação do nível do mar e por eventos extremos. O problema é que a presença confirmada de autoridades de fora do bloco regional ficou muito abaixo da expectativa inicial.
Os organizadores queriam transformar a visita a um pequeno atol em uma imagem política capaz de marcar a preparação para a COP31, prevista para novembro, na Turquia. Até agora, os chefes de governo de fora do Pacífico confirmados são os de Antígua e Barbuda, Cabo Verde, Tailândia, Maldivas e Timor-Leste. A reunião terá cerca de 30 representantes de países e instituições na etapa de líderes, segundo o governo de Fiji, mas a lista enxuta de autoridades expõe uma dificuldade central: o mundo reconhece a vulnerabilidade das ilhas, porém ainda não trata suas demandas como prioridade.
Uma viagem curta, um recado político longo
A programação foi desenhada para produzir uma demonstração concreta do risco climático. Os participantes devem passar aproximadamente um dia em Tuvalu, deslocar-se de canoa e visitar áreas de aterro recuperadas para resistir à subida do mar. Também conhecerão projetos solares criados para reduzir a dependência do diesel, combustível que ainda sustenta parte importante da geração de energia em comunidades insulares.
Para Maina Talia, ministro do Clima de Tuvalu, a visita precisa mostrar duas dimensões do problema: a exposição do país e as soluções construídas localmente. A mensagem é direta. O futuro do arquipélago depende das decisões tomadas pelos grandes emissores, mas a população não quer ser apresentada apenas como vítima da mudança climática.
Depois da passagem por Tuvalu, os participantes seguirão para Fiji, onde será assinada uma declaração. Cerca de 4 mil delegados são esperados no país para avançar em acordos que deverão ser discutidos na COP31. A reunião prévia é apontada como a primeira do tipo a contar com presidentes ou primeiros-ministros, ainda que a participação de líderes de fora da região tenha sido limitada.
O que as ilhas querem colocar na mesa
As prioridades do Pacífico combinam metas globais e necessidades muito práticas. Os governos defendem que o aquecimento do planeta seja mantido em até 1,5 grau Celsius acima do período pré-industrial, limite associado à redução dos impactos mais graves sobre comunidades costeiras e países de baixa altitude.
Também pedem maior proteção dos oceanos e acesso mais amplo a recursos para adaptar moradias, infraestrutura, sistemas de energia e economias inteiras. Uma das propostas é o fortalecimento do Pacific Resilience Facility, mecanismo que deverá financiar projetos de resiliência climática em países da região.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o mundo deve ultrapassar o limite de 1,5 grau Celsius nos próximos anos, o que tende a ampliar a ocorrência de eventos extremos e a pressão sobre comunidades situadas em áreas baixas. Para Tuvalu e seus vizinhos, a discussão não é uma previsão distante. Ela envolve a permanência de territórios habitáveis e a capacidade de manter serviços básicos diante do avanço do mar.
A contradição australiana aparece no centro do encontro
A Austrália tenta usar a reunião para ampliar sua influência diplomática no Pacífico. O país é o maior provedor de ajuda da região e defende que as ilhas tenham mais espaço nas negociações internacionais. Ao mesmo tempo, continua entre os grandes exportadores mundiais de combustíveis fósseis, com embarques anuais de carvão e gás natural liquefeito avaliados em cerca de 100 bilhões de dólares.
Canberra também segue aprovando projetos de carvão e gás, uma política contestada por várias nações insulares. A contradição reduz a força do discurso de parceria: a Austrália quer liderar a agenda climática regional, mas sua economia continua associada a atividades que contribuem para o aquecimento global.
O presidente de Palau, Surangel Whipps Jr., adotou uma posição pragmática. Para ele, seria preferível que a Austrália lucrasse com os combustíveis fósseis em vez de países como Rússia ou Arábia Saudita, considerados por ele menos comprometidos com a transição verde e com o apoio a nações vulneráveis. A declaração mostra que o debate regional não é dividido apenas entre combustíveis fósseis e transição energética. Também envolve influência geopolítica, financiamento e confiança.
Baixa adesão alimenta disputa sobre o objetivo da pré-COP
Diplomatas de países ocidentais disseram que seus governos tiveram dificuldade para justificar uma viagem de vários dias a Tuvalu, especialmente porque os líderes também deverão comparecer à COP31, na Turquia, poucas semanas depois. A distância e o calendário ajudam a explicar a ausência, mas não eliminam o efeito político da decisão.
Partidos de oposição na Austrália, que rejeitam medidas de combate à mudança climática, classificaram a baixa participação como um desastre diplomático. O governo australiano, por sua vez, afirma que a pré-COP servirá para elevar a liderança do Pacífico e fazer avançar os objetivos climáticos da região.
A crítica mais delicada é se o encontro foi concebido para produzir avanços reais nas negociações ou para gerar uma fotografia diplomática poderosa. A imagem de líderes navegando de canoa em Tuvalu teria forte impacto internacional, mas, sem compromissos financeiros e políticos, poderia ficar restrita ao simbolismo.
Por que esse debate também interessa à Amazônia
A distância entre Tuvalu e a Amazônia não elimina a conexão. Nos nove estados da Amazônia Legal, comunidades ribeirinhas, povos indígenas e cidades costeiras também dependem de políticas capazes de reduzir riscos climáticos e financiar adaptação. A experiência do Pacífico ajuda a evidenciar uma questão que aparece no Brasil em escala continental: os territórios mais expostos nem sempre são os que mais contribuem para as emissões, mas costumam enfrentar primeiro os efeitos da crise.
Para a região amazônica, o caso reforça a importância de fundos que cheguem diretamente a comunidades e governos locais, em vez de permanecerem apenas em compromissos internacionais. A defesa de Tuvalu por recursos para infraestrutura resiliente dialoga com necessidades brasileiras de proteção contra cheias, secas prolongadas, erosão e interrupções no acesso a energia e transporte. A comparação não significa que os problemas sejam iguais, mas revela uma disputa comum por financiamento, voz política e reconhecimento dos impactos locais.
Fiji deverá consolidar a declaração ao fim da programação de 5 a 8 de outubro, enquanto os negociadores avançarão nos temas que serão levados à COP31, na Turquia, em novembro. O resultado mostrará se a passagem por Tuvalu produzirá compromissos concretos ou apenas uma breve mudança de cenário na diplomacia climática.
Com informações de Reuters.
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