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Entre 1960 e 1980, grandes barragens deslocaram cerca de 1 milhão de pessoas e transformaram áreas rurais em reservatórios no Brasil

Entre 1960 e 1980, grandes barragens deslocaram cerca de 1 milhão de pessoas e transformaram áreas rurais em reservatórios no Brasil
Ilustração: IA

A expansão hidrelétrica levou comunidades inteiras a deixar suas terras, enquanto Tucuruí simbolizou a escala territorial das obras no país.

Áreas rurais desapareceram sob os reservatórios

Casas, roças, estradas locais e áreas de convivência foram retiradas do cotidiano quando grandes barragens avançaram sobre regiões rurais brasileiras entre 1960 e 1980. O processo não consistia apenas na inundação de um trecho de terra. A formação de um reservatório modificava o espaço usado por famílias que dependiam da agricultura, da criação de animais, da pesca e do acesso direto a rios e caminhos. Comunidades inteiras precisavam deixar o local antes que a água cobrisse as áreas destinadas à usina. Em muitos casos, a mudança também interrompia relações de vizinhança construídas ao longo de anos, porque os moradores eram transferidos para pontos diferentes.

O fenômeno ocorreu durante um período de expansão energética no Brasil, quando o país passou a erguer grandes hidrelétricas para ampliar a geração de eletricidade. A barragem bloqueia o curso do rio e eleva o nível da água a montante, criando uma área alagada muito maior do que a estrutura de concreto ou de terra que aparece na paisagem. Esse mecanismo transforma uma rede de propriedades rurais em um reservatório contínuo. A consequência direta para quem vive no caminho da inundação é a perda do lugar de moradia e de produção, seguida pela necessidade de reassentamento ou de busca por outra área para viver.

O período de expansão mudou a paisagem brasileira

Entre 1960 e 1980, a construção de hidrelétricas passou a reorganizar extensas áreas do território nacional. A escolha de um local para a barragem considerava o relevo, o volume de água e a possibilidade de formar um reservatório capaz de movimentar turbinas. Para as comunidades, porém, o mesmo cálculo significava a substituição de terras habitadas por uma superfície de água. A obra podia exigir a retirada de casas antes da operação da usina, além da alteração de estradas, pontes e trajetos usados para chegar a escolas, mercados, postos de saúde e propriedades vizinhas.

A transformação também ocorria em etapas. Primeiro vinham os estudos e a delimitação da área que seria ocupada pelo reservatório. Depois, as famílias eram informadas sobre a necessidade de sair, as propriedades eram adquiridas ou desapropriadas e as estruturas existentes eram removidas ou abandonadas. Com o fechamento das comportas, o rio se espalhava sobre o terreno previamente ocupado por plantações, pastagens e moradias. A cronologia variava conforme cada empreendimento, mas o resultado territorial era semelhante: uma obra destinada a produzir energia alterava simultaneamente o ambiente físico e a localização de populações rurais.

Tucuruí levou essa mudança para a Amazônia

Tucuruí está entre as grandes hidrelétricas associadas a esse ciclo de expansão e representa, no briefing desta pauta, o exemplo amazônico de uma obra que alagou uma área rural extensa. A barragem foi implantada no rio Tocantins, no Pará, em uma região onde comunidades mantinham atividades ligadas à terra e à dinâmica do rio. A criação do reservatório exigiu que moradores deixassem áreas que seriam ocupadas pela água. A mudança não se limitou a uma transferência de endereço, porque alterou o acesso aos recursos naturais e às redes locais que sustentavam a vida cotidiana.

Em uma paisagem amazônica, a formação de um grande reservatório também reorganiza a relação entre terra firme, margens e rotas fluviais. Trechos antes percorridos por estradas ou caminhos terrestres passam a depender de novas conexões, enquanto áreas produtivas deixam de estar disponíveis para as famílias que as utilizavam. É importante não confundir a dimensão da barragem com a dimensão do deslocamento: a estrutura é uma obra única, mas seus efeitos alcançam várias comunidades espalhadas pela área de inundação. Tucuruí, portanto, ajuda a visualizar como uma decisão energética localizada podia produzir uma mudança social distribuída por um território rural amplo.

Estimativa do Ipea chega a cerca de 1 milhão de deslocados

A dimensão nacional aparece no número atribuído ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea. A estimativa indicada para as pessoas deslocadas por obras hidrelétricas no país chega a cerca de 1 milhão. O dado reúne o efeito acumulado de diferentes empreendimentos e não significa que todas essas pessoas tenham vivido a mesma situação ou sido removidas pela mesma barragem. Cada obra tinha uma área de inundação, um conjunto de municípios e formas próprias de negociação, transferência e reorganização das comunidades.

O número também mostra por que o deslocamento não deve ser tratado como um detalhe administrativo da construção. Quando milhares de famílias deixam suas terras, a mudança envolve moradia, trabalho, vínculos comunitários e acesso a serviços. Para quem vivia da produção rural, a substituição de uma propriedade por outra podia exigir adaptação de solo, distância diferente até os centros urbanos e novas formas de transporte. Para quem dependia do rio, a alteração da margem e dos caminhos podia modificar a pesca, o deslocamento e a comunicação. A consequência prometida pelo título é essa transformação em escala nacional: áreas rurais foram convertidas em reservatórios, e cerca de 1 milhão de pessoas foram deslocadas por obras hidrelétricas, segundo a estimativa do Ipea.

O número exige cuidado na leitura histórica

Uma estimativa nacional não substitui o levantamento detalhado de cada comunidade atingida. O total pode reunir categorias diferentes de deslocamento e períodos distintos, enquanto registros locais podem contabilizar apenas famílias formalmente cadastradas, proprietários reconhecidos ou moradores diretamente removidos da área de inundação. Pessoas que perderam acesso a roças, estradas, locais de pesca ou redes comunitárias também podem ter experimentado impactos sem aparecer da mesma maneira nas estatísticas. Por isso, o número do Ipea deve ser apresentado como uma estimativa do conjunto de deslocamentos relacionados às obras hidrelétricas, e não como uma contagem perfeitamente uniforme de todos os afetados.

Também é preciso separar o fato comprovado da interpretação sobre cada empreendimento. A expansão energética explica a construção de grandes barragens no período, e a formação dos reservatórios explica a inundação das áreas destinadas às usinas. Já a avaliação sobre indenizações, reassentamentos e condições posteriores depende de documentos e estudos específicos, que não foram detalhados neste briefing. A história desta pauta tem origem na estimativa do Ipea e no recorte histórico de 1960 a 1980, quando o Brasil ampliou sua infraestrutura hidrelétrica. Ao olhar para um reservatório, é possível ver a água que passou a mover turbinas, mas também o espaço social que deixou de existir naquela paisagem.

Com informações do Ipea.

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