
Experimentos conduzidos com besouros africanos mostram que eles usam o contraste de brilho da faixa da Via Láctea, e não a polarização, para manter a rota.
O besouro rola-bosta da espécie Scarabaeus satyrus vive na savana africana e sai ao entardecer em busca de esterco de animais. Ao encontrar um monte, modela uma esfera e a rola em posição invertida, empurrando-a com as patas traseiras, para longe do local, onde há forte competição por alimento. Para não voltar ao ponto de partida e perder a esfera para rivais, o inseto precisa manter uma trajetória reta.
Em 2013, a pesquisadora Marie Dacke e colegas, da Universidade de Lund, na Suécia, e da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, publicaram na revista Current Biology o primeiro estudo a demonstrar o uso da Via Láctea para orientação em um animal. Os besouros rolavam as esferas em linha reta sob céu estrelado, mas perdiam essa capacidade sob céu encoberto. Em testes no planetário da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, mantiveram o rumo tanto sob o céu estrelado completo quanto sob um céu que mostrava apenas a faixa difusa da Via Láctea.
Brilho da faixa, e não polarização
O besouro não depende de polarização da luz da Via Láctea. Em 2017, James Foster e colegas, em artigo na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B, construíram uma Via Láctea artificial com LEDs. Os besouros só mantiveram o rumo quando os dois lados da faixa tinham brilho diferente, e se desorientaram quando viam apenas estrelas brilhantes isoladas. Ou seja, o inseto compara o brilho entre regiões do céu e não memoriza constelações.
A polarização é um sinal usado em outras condições. Em 2003, Dacke e colegas mostraram na revista Nature que outra espécie africana, Scarabaeus zambesianus, usa a luz polarizada da Lua para se orientar. Quando os pesquisadores giraram o padrão de polarização em 90 graus com filtros, os besouros mudaram de rumo também em 90 graus. Em noites sem Lua ou com céu encoberto, esses besouros não conseguiam manter a linha reta.
Olhos que não distinguem constelações
Segundo os pesquisadores, os olhos desses besouros não distinguem estrelas individuais nem constelações. O que o inseto percebe é o gradiente de claro e escuro oferecido pela faixa da galáxia, que atravessa o céu como uma mancha luminosa contínua. É essa diferença de brilho entre os lados da faixa que serve de referência para o rumo.
A dança sobre a esfera
Antes de partir, o besouro sobe na esfera e gira sobre ela, comportamento chamado de dança. Os pesquisadores o descrevem como um momento de orientação em que o animal localiza as fontes de luz que usará como referência. Depois, desce e empurra a esfera mantendo um ângulo constante em relação a esse referencial, o que, em princípio, mantém a trajetória reta e evita que o inseto ande em círculos.
Esfera de alimento e esfera de criação
Estudos sobre o comportamento de nidificação em Scarabaeus e Kheper indicam que, quando o casal enterra a esfera, ela é comida pelos dois, principalmente pela fêmea, e por isso é interpretada como um presente pré-nupcial do macho. A postura do ovo ocorre depois, em esferas de criação preparadas a partir de esterco enterrado. A larva se alimenta do material, passa pela fase de pupa e emerge adulta.
Os limites do que foi demonstrado
As demonstrações descritas vêm de espécies africanas do gênero Scarabaeus. Isso não permite afirmar que todos os besouros rola-bosta, inclusive os do Brasil, usem a Via Láctea. Também não há, nesses estudos, um valor único para a carga transportada: esses besouros rolam esferas várias vezes mais pesadas que o próprio corpo, e o valor varia conforme a espécie e o tamanho da esfera.
Papel dos besouros no solo
Ao enterrar esterco, os besouros rola-bosta, de modo geral, aceleram a decomposição, devolvem nutrientes ao solo e abrem galerias que favorecem a infiltração da água. A remoção rápida das fezes da superfície também reduz o material onde se desenvolvem moscas e parasitas do gado e de animais silvestres.
O caso do Scarabaeus satyrus mostra que um inseto pequeno, com olhos que não resolvem estrelas isoladas, consegue usar a estrutura mais ampla do céu noturno para se deslocar. Cada passo dessa descoberta veio de experimentos controlados em campo e em planetário, e as perguntas que restam, como o uso do mesmo recurso por espécies de outros continentes, dependem de novos testes.
Ovos de bicho-pau com apêndice nutritivo atraem formigas e podem escapar de vespas parasitoides
Um outro tipo de efeito borboleta: como borboletas coloridas e listradas com ilusões ópticas enganam os predadores
Borboleta-azul da Amazônia parece ter asas coloridas, mas microscopia revela que o azul nasce da estrutura das escamas e desaparece por baixoGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














