
Estudo da USP aponta que áreas de transição entre cidade e campo podem contribuir para restaurar quase meio milhão de hectares.
Você já reparou que, justamente onde a cidade começa a perder prédios e o campo aparece, a vegetação pode estar ganhando espaço? Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) identificou que as bordas urbanas do Estado de São Paulo, áreas de transição entre zonas urbanas e rurais, somam cerca de 810 mil hectares e têm 413 mil hectares potencialmente disponíveis para projetos de restauração florestal. A pesquisa analisou dados de desmatamento, regeneração e uso da terra entre 1990 e 2020 para mostrar por que esses territórios podem ajudar a cumprir metas ambientais.
Uma fronteira ainda pouco aproveitada
A restauração florestal costuma ser associada a grandes áreas rurais, onde há mais espaço e menor competição com construções. O trabalho da USP, porém, indica que essa visão deixa de lado regiões densamente habitadas e com forte influência das decisões urbanas.
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Preguiça desce da árvore para defecar e mantém algas e mariposas no pelo da florestaAs bordas urbanas incluem áreas de expansão das cidades, novos loteamentos, núcleos rurais com características urbanas e regiões de baixa densidade construtiva. São territórios variados, que podem reunir condomínios, propriedades de agricultura familiar, áreas protegidas e bairros em situação de vulnerabilidade.
O estudo foi liderado pela pesquisadora Luciana Schwandner Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, sob coordenação do professor Jean Paul Metzger. A equipe também contou com a colaboração de cientistas e gestores estaduais.
Regeneração já supera o desmatamento
O conceito central da pesquisa é o de transição florestal. Ele descreve o momento em que a regeneração da vegetação passa a superar o desmatamento, invertendo uma trajetória histórica de perda de cobertura vegetal.
Segundo a USP, a regeneração já ultrapassou o desmatamento no Estado de São Paulo e essa mudança chegou às bordas urbanas antes do que os pesquisadores esperavam. Na macrometrópole paulista, que reúne 174 municípios e inclui regiões como Campinas, Baixada Santista e Sorocaba, a virada ocorreu em 2004.
Segundo a Universidade de São Paulo, a regeneração florestal superou o desmatamento nas bordas urbanas da macrometrópole paulista em 2004, com base em dados analisados entre 1990 e 2020.
Nas áreas de preservação permanente associadas a rios e córregos e em zonas sujeitas a enchentes, deslizamentos e erosão, a regeneração começou a superar o desmatamento ainda nos anos 1990. Para Luciana Schwandner Ferreira, o resultado mostra que a proteção legal pode produzir efeitos concretos sobre a paisagem.
“Nessas áreas de APP e de risco, a regeneração supera o desmatamento desde o início dos anos 1990. Por quê? Porque tem uma proteção legal. Isso é política pública com efeito”, afirmou a pesquisadora.
413 mil hectares com potencial
As bordas urbanas representam pouco mais de 810 mil hectares, aproximadamente 3,27% do território paulista. Desse total, cerca de 413 mil hectares foram considerados potencialmente disponíveis para projetos de restauração.
Na macrometrópole paulista, o potencial chega a 235 mil hectares. Se essas áreas fossem integralmente aproveitadas, poderiam contribuir com o equivalente a 27% da meta estadual de restaurar 1,5 milhão de hectares até 2050.
O contraste com as áreas urbanas densas chama atenção. Nelas, apenas 10% do território foi classificado como potencialmente disponível para iniciativas semelhantes. A proximidade entre áreas restauradas e comunidades também pode ampliar benefícios como sombra, redução do calor e proteção de nascentes.
“A restauração é normalmente considerada como algo a ser feito mais nas áreas rurais, onde tem mais espaço e o solo é mais barato. O nosso trabalho, contudo, argumenta que as áreas urbanas e as bordas urbanas também têm potencial de receber esse tipo de incentivo e de projeto”, explicou Luciana.
Entenda o caso
Para mapear essas áreas, os pesquisadores usaram categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseadas no Censo de 2021. Depois, cruzaram essa classificação com dados do MapBiomas sobre cobertura e uso da terra.
A equipe comparou, pixel por pixel, as mudanças ocorridas na vegetação ao longo de três décadas. O resultado foi publicado no artigo Urban boundaries are an underexplored frontier for ecological restoration, na revista Scientific Reports, do grupo Nature.
Mais árvores, mas ainda de forma fragmentada
Apesar do avanço da regeneração, o estudo identificou um problema: a vegetação se recuperou em manchas dispersas. O número de fragmentos florestais aumentou, sem necessariamente ampliar a conexão entre os remanescentes.
Essa fragmentação dificulta a circulação de animais, limita a recuperação da biodiversidade e reduz a capacidade dos ecossistemas de prestar serviços ambientais. Por isso, restaurar não significa apenas aumentar a área verde, mas também conectar os fragmentos existentes.
A pesquisa não teve como objetivo explicar completamente por que a regeneração está ocorrendo. Entre as hipóteses estão o abandono de áreas agrícolas, a recuperação obrigatória de terrenos desmatados em alguns condomínios e a consolidação urbana, que pode reduzir a expansão das construções sobre a vegetação.
O que isso ensina para a Amazônia
Embora a análise tenha sido feita em São Paulo, a lógica pode interessar ao planejamento de cidades amazônicas. Em municípios que crescem rapidamente, a faixa entre bairros, áreas rurais, rios e florestas costuma concentrar conflitos de uso do solo e também oportunidades de recuperação ambiental.
Na Amazônia, esse olhar pode ser útil para proteger nascentes, reduzir ilhas de calor, recuperar matas ciliares e criar corredores para a fauna nas áreas próximas a Manaus, Belém, Rio Branco, Macapá, Boa Vista, Porto Velho e outras cidades da região. A aplicação dos resultados, no entanto, exigiria estudos específicos para cada território, sem presumir que a dinâmica paulista se repita integralmente.
Para os autores, o principal desafio agora é transformar uma tendência espontânea de regeneração em política pública planejada, com incentivos, fiscalização e projetos que priorizem áreas capazes de conectar fragmentos florestais; novas pesquisas devem investigar as causas do processo e orientar essa seleção.
Perguntas frequentes
O que são bordas urbanas?
São áreas de transição entre a cidade consolidada e o campo. Elas podem incluir zonas de expansão urbana, loteamentos, núcleos rurais urbanizados e regiões com baixa densidade de construções.
Quantos hectares podem ser restaurados?
O estudo estima que 413 mil hectares das bordas urbanas paulistas têm potencial para projetos de restauração florestal.
A pesquisa analisou a Amazônia?
Não. O levantamento foi realizado no Estado de São Paulo, mas o método pode inspirar análises semelhantes em cidades amazônicas, desde que sejam considerados os contextos ambientais e sociais locais.
Com informações de Universidade de São Paulo.
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