Estrela despedaçada por buraco negro de massa intermediária produz brilho de rádio que cresceu por quase dois anos e durou ao menos quatro

Estrela despedaçada por buraco negro de massa intermediária produz brilho de rádio que cresceu por quase dois anos e durou ao menos quatro
Foto: NSF/AUI/NSF NRAO/M.Weiss

Radiotelescópios flagraram um jato escondido que só ficou visível anos depois, e o método pode ajudar a achar os buracos negros “elo perdido”.

Durante quase dois anos, o sinal de rádio de um evento cósmico visto em 2019 simplesmente não parou de ficar mais forte. Depois, decaiu devagar, por pelo menos quatro anos. Astrônomos que analisaram o caso, batizado de AT2019ijn, concluíram que o responsável mais provável é um buraco negro de massa intermediária que despedaçou uma estrela e lançou um jato estreito, apontado para longe da Terra. O resultado, divulgado em 7 de julho de 2026 pelo Observatório Nacional de Radioastronomia (NRAO), dos Estados Unidos, foi obtido com o Very Large Array (VLA), da Fundação Nacional de Ciência americana (NSF).

Um clarão azul que não se comportou como o esperado

O evento apareceu primeiro em levantamentos de luz visível como um flash azul brilhante. Subiu ao pico em poucos dias e depois se apagou de forma bem mais lenta do que costumam fazer fenômenos parecidos.

Foi ao revisitar as observações em ondas de rádio que a equipe encontrou o dado mais incomum. Em 3 gigahertz, o sinal chegou a uma luminosidade mais de 100 vezes superior à de transientes azuis rápidos e supernovas conhecidos em fases semelhantes.

Como a equipe montou o quebra-cabeça

Os pesquisadores combinaram dados de levantamentos ópticos com observações de rádio do VLA, incluindo o Very Large Array Sky Survey (VLASS), além de medições do ASKAP, na Austrália, e do Giant Metrewave Radio Telescope, já modernizado, na Índia.

Estrela despedaçada por buraco negro de massa intermediária produz brilho de rádio que cresceu por quase dois anos e durou ao menos quatro
Foto: NSF/AUI/NSF NRAO/M.Weiss

Com essa cobertura, foi possível acompanhar como o sinal mudou ao longo do tempo e testar modelos de um fluxo de matéria expelido por um evento de ruptura por maré. Esse é o nome do processo em que uma estrela chega perto demais de um buraco negro e é desfeita pela gravidade.

A modelagem indica que o material emissor se movia a uma fração significativa da velocidade da luz. Segundo o NRAO, os dados são mais bem explicados por um jato relativístico estreito visto bem de lado, e não de frente. Essa geometria explica por que o brilho de rádio demorou tanto a aparecer: ele só ficou visível quando a emissão em expansão cresceu o bastante para atravessar a linha de visada da Terra.

Por que o “elo perdido” importa

Buracos negros de massa intermediária ficam entre os de massa estelar, formados pelo colapso de estrelas, e os supermassivos, que ocupam o centro das galáxias. São difíceis de achar, e os astrônomos buscam novas formas de identificá-los.

No caso de AT2019ijn, a subida rápida do brilho óptico apontou para esse tipo de objeto. Segundo o NRAO, o evento oferece um caminho de busca: se um buraco negro intermediário lança um jato que não aponta para a Terra, o episódio pode parecer discreto no início e se tornar muito mais brilhante em rádio anos depois, quando o jato desacelera e sua emissão se espalha.

Estrela despedaçada por buraco negro de massa intermediária produz brilho de rádio que cresceu por quase dois anos e durou ao menos quatro
Foto: NSF/AUI/NSF NRAO/M.Weiss

O que ainda é interpretação

Os autores tratam a ruptura por maré como a explicação mais provável, não como fato encerrado. O estudo também sugere que alguns transientes ópticos incomuns podem pertencer a uma família maior de eventos movidos por buracos negros, que passou despercebida porque o pico de rádio chega muito depois do clarão inicial.

Isso muda a forma de observar o céu. Um evento ignorado após o brilho óptico pode merecer nova checagem em rádio anos mais tarde.

Reflexo para a Amazônia

O achado não depende de telescópios na região, mas dialoga com o trabalho de quem estuda o céu no Brasil e na Amazônia: grandes levantamentos repetidos do céu, em luz visível e em rádio, são acessíveis a pesquisadores de qualquer país, já que, segundo o NRAO, seus telescópios são abertos a astrônomos independentemente de instituição ou nacionalidade, com tempo de observação concedido por mérito científico.

Segundo o NRAO, o resultado foi aceito para publicação no periódico The Astrophysical Journal Letters, e o artigo científico completo está disponível online. Com novos levantamentos que varrem o céu repetidamente, os astrônomos esperam encontrar mais eventos como AT2019ijn, o que deve mostrar como esses buracos negros se formam, com que frequência destroem estrelas e em que condições produzem jatos poderosos.

Com informações de National Radio Astronomy Observatory (NRAO).

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