Cientistas mapeiam mais de 10 mil falhas jovens na Lua, que encolheu cerca de 45 metros em 400 milhões de anos

Cientistas mapeiam mais de 10 mil falhas jovens na Lua, que encolheu cerca de 45 metros em 400 milhões de anos
Foto: Intuitive Machines/Rick Hoppe/Smithsonian Institution

Estudo com imagens da sonda LRO indica que tremores lunares podem surgir em qualquer ponto da superfície, o que pesa no planejamento do programa Artemis.

Quem olha para a Lua numa noite limpa, de qualquer ponto da Amazônia, vê uma superfície calma e estável. A realidade, vista de perto, é outra: o solo lunar está marcado por mais de 10 mil falhas geológicas jovens, algumas delas provavelmente ativas, segundo estudo publicado na revista The Planetary Science Journal. A análise indica que o raio da Lua encolheu cerca de 45 metros (148 pés) nos últimos 400 milhões de anos.

Rugas que são falhas ativas

Os pesquisadores trabalharam com imagens da câmera LROC, instalada na sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA. O foco foram cristas e estruturas longas e sinuosas chamadas escarpas lobadas, que se formam quando um corpo celeste se contrai.

Em termos simples, é como a casca de uma fruta que enruga ao secar: o interior esfria e diminui, e a superfície rígida se quebra e se dobra para acomodar a perda de volume. O mapa produzido traz mais de 8.900 escarpas lobadas e mais de 2.000 pequenas cristas nas planícies escuras, os chamados mares lunares.

Segundo o Museu Nacional do Ar e do Espaço do Instituto Smithsonian, onde o autor do estudo, Tom Watters, é cientista sênior emérito, a Lua tem uma única placa que age como uma casca contínua. Por isso, tremores causados por deslizamento em falhas existentes ou pela formação de novas falhas podem ocorrer em qualquer lugar.

Cientistas mapeiam mais de 10 mil falhas jovens na Lua, que encolheu cerca de 45 metros em 400 milhões de anos
Foto: Intuitive Machines/Rick Hoppe/Smithsonian Institution

Por que a Terra é diferente

A comparação ajuda a entender o problema. A Terra tem um mosaico de 15 placas litosféricas, e cerca de 90% da atividade tectônica e sísmica se concentra perto dos limites entre elas. Na Lua não existe essa geografia do risco, o que torna a previsão de tremores ainda mais difícil.

Prever terremotos já é tarefa que a ciência não resolveu na Terra, onde há redes densas de sensores. Na Lua, os únicos dados sísmicos diretos vêm dos sismômetros deixados pelas missões Apollo.

Um histórico que vem de 2019

O encolhimento lunar não é novidade para os cientistas. A explicação mais aceita para a origem da Lua é que um impacto gigantesco com a Terra, bilhões de anos atrás, lançou detritos quentes ao espaço, que se juntaram e formaram o satélite. Segundo explicação da NASA que consultou Watters, muitas coisas encolhem ao esfriar, e a Lua não é exceção. Mercúrio passa por processo semelhante.

Em 2019, Watters e colegas apresentaram indícios de que essas rugas eram falhas ativas ligadas a tremores lunares. Segundo a NASA, os abalos registrados pelos sismômetros das missões Apollo ocorreram perto o bastante das falhas para sustentar a conexão.

Cientistas mapeiam mais de 10 mil falhas jovens na Lua, que encolheu cerca de 45 metros em 400 milhões de anos
Foto: Intuitive Machines/Rick Hoppe/Smithsonian Institution

Um estudo de 2024 reforçou a preocupação: treze locais propostos para pouso da Artemis 3, hoje Artemis 4, estavam perto de possíveis epicentros de tremores. Segundo a NASA, isso poderia elevar o risco de deslizamentos e outros problemas em missões.

O que o novo trabalho acrescenta

Os autores levantam a hipótese de que o efeito isolante de uma camada espessa de regolito, o solo fragmentado da Lua, nos primeiros tempos pode ter impedido o resfriamento e a contração do interior. Nessa leitura, o enrugamento seria um fenômeno recente, iniciado no período Copernicano, de cerca de 1,1 bilhão de anos atrás.

Se a taxa de contração tiver sido mais ou menos constante, o raio lunar diminui de 6 a 11 centímetros por milhão de anos.

“The number of these young faults revealed in LROC images is much greater than I ever imagined”

Cientistas mapeiam mais de 10 mil falhas jovens na Lua, que encolheu cerca de 45 metros em 400 milhões de anos
Foto: Intuitive Machines/Rick Hoppe/Smithsonian Institution

A frase é de Tom Watters, que completou: “As the interior of the moon continues to cool and contract, it is expected that the growth of existing faults and formation of new faults continues today.”

O que isso muda para as missões

O resultado não inviabiliza missões como a Artemis. O estudo constatou que regiões de crosta lunar mais espessa tendem a ter menos falhas e, portanto, podem ser mais estáveis. Isso ajuda a orientar a escolha de locais de pouso e de futuras estruturas.

Para o público brasileiro, o trabalho mostra como a geologia de outro corpo celeste pode ser lida com ferramentas parecidas com as usadas na Terra, inclusive em estudos de relevo e falhas na região amazônica. O próximo passo é cruzar o novo mapa com os candidatos a locais de pouso e com dados sísmicos, para refinar a avaliação de risco antes das próximas missões tripuladas.

O artigo completo está disponível na The Planetary Science Journal, e o comunicado do museu pode ser lido no site do Smithsonian.

Com informações de Smithsonian National Air and Space Museum e NASA.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA