Astrofísicos varrem universos simulados em supercomputador e concluem que o Sol, na periferia da Via Láctea, está num dos melhores endereços para a vida

Astrofísicos varrem universos simulados em supercomputador e concluem que o Sol, na periferia da Via Láctea, está num dos melhores endereços para a vida
Foto: Geraint Lewis

Estudo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society mapeou onde e quando as condições cósmicas seriam mais favoráveis a planetas habitáveis.

Uma estrela que cruze a Via Láctea durante um bilhão de anos tem menos de uma chance em mil de passar por um evento extremo capaz de aniquilar a vida. É o que indica um novo estudo que usou universos simulados em supercomputador para procurar os lugares mais acolhedores do cosmos. Os autores são Luke Barnes e Miroslav Filipovic, da Western Sydney University, e Geraint Lewis, da Universidade de Sydney, e o trabalho saiu na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

A conclusão tem um tom tranquilizador: o Sol, na periferia da nossa galáxia, está num local tão bom quanto se pode esperar.

Três escalas de zona habitável

Astrônomos chamam de zonas habitáveis, ou zonas de Cachinhos Dourados, as regiões em que as condições são “na medida certa” para a vida. Isso não significa que haja vida ali, apenas que o ambiente não a impede.

A primeira escala é a zona habitável circunstelar, a faixa ao redor de uma estrela em que a água pode existir em estado líquido, sem virar vapor nem gelo. A segunda é a zona habitável galáctica. Estrelas muito próximas do centro da galáxia sofrem com a vizinhança congestionada. Já as muito distantes ficam num ambiente estéril, sem os elementos químicos necessários à vida.

A terceira escala é a novidade da pesquisa: comparar galáxias inteiras, em diferentes épocas do universo.

Como o universo foi “refeito” no computador

A equipe recorreu ao projeto EAGLE (Evolution and Assembly of GaLaxies and their Environments), uma das simulações mais realistas do universo observado. Ela acompanha a expansão do espaço, a gravidade e a física de gás, estrelas e buracos negros, e produz um mapa de centenas de milhões de anos-luz.

Com esse mapa, os pesquisadores perguntaram onde a vida seria mais bem-vinda. Como nunca se observou vida alienígena, foi preciso adotar hipóteses. O hidrogênio e o hélio do Big Bang são simples demais para formar organismos, então o foco recaiu sobre as gerações de estrelas que espalharam elementos mais pesados pelo cosmos.

Observações de exoplanetas mostram que planetas rochosos como a Terra exigem certa concentração desses elementos. O excesso, porém, pode favorecer os chamados Júpiteres quentes, gigantes gasosos que varrem o sistema planetário e engolem mundos rochosos.

O que ameaça um planeta

O avanço do estudo está na modelagem detalhada dos riscos. Estrelas massivas explodem e esterilizam o entorno. Explosões maiores, como as erupções de raios gama, atingem volumes muito maiores. Paleontólogos levantam a hipótese de que a extinção em massa do Ordoviciano, há 450 milhões de anos, tenha sido causada por uma explosão próxima.

Há ainda o risco de uma estrela vizinha passar perto do Sistema Solar e perturbar a órbita quase circular da Terra, o que torna desaconselháveis as regiões lotadas. E há os buracos negros: a maioria é pequena e inofensiva, mas os supermassivos, com mais de um milhão de vezes a massa do Sol, podem se ativar ao engolir matéria. A radiação intensa resultante pode arrancar a atmosfera de planetas.

O veredito para a Via Láctea

Segundo o estudo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, a Via Láctea está entre as galáxias mais eficientes em transformar a matéria-prima do cosmos em ambientes favoráveis à vida. Os autores ressaltam que o resultado não é apego à própria vizinhança: a simulação poderia ter apontado galáxias mais antigas, menores ou regiões mais afastadas do centro como melhores, e não apontou.

Os pesquisadores também observam que o universo criou muitas oportunidades de habitação, mas esse ritmo parece desacelerar, à medida que a frequência de catástrofes alcança a de formação de novos planetas.

Galáxias como a nossa já deixaram para trás a fase mais violenta e entraram numa espécie de aposentadoria tranquila. Já as galáxias menores, bem mais numerosas, são mais cheias e mais energéticas, portanto menos seguras.

O que isso significa para quem olha o céu da Amazônia

Para o leitor da região, a Via Láctea é um espetáculo cotidiano: em áreas ribeirinhas e comunidades afastadas das luzes das cidades, a faixa da galáxia se destaca no céu noturno. O estudo ajuda a entender que esse mesmo disco de estrelas é, estatisticamente, um ambiente de baixo risco para planetas.

O trabalho, no entanto, não diz que há vida em outros lugares, apenas indica onde as condições seriam mais favoráveis. A busca por sinais em exoplanetas, que depende de observações cada vez mais detalhadas, segue como o próximo passo para testar essas previsões.

Com informações de Western Sydney University e University of Sydney.

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