Caatinga lidera estratégia nacional contra desertificação

Caatinga lidera estratégia nacional contra desertificação
Foto: projetocolabora.com.br

Segunda edição da Caatinga Climate Week coloca o bioma no centro do debate sobre adaptação climática e recuperação de territórios degradados.

Cisternas, sistemas agroflorestais, bancos de sementes crioulas, biodigestores. Todas essas tecnologias já existem na Caatinga e mostram, no dia a dia, que o único bioma exclusivamente brasileiro está na linha de frente da adaptação à crise climática. Agora, pela primeira vez, o Brasil tem uma lei federal dedicada à recuperação de um bioma inteiro.

Sancionada em junho de 2026, a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga (Lei nº 15.430/2026) determina a criação de planos de ação para combater desmatamento e desertificação no semiárido, ampliar a produção sustentável de alimentos e contribuir com a segurança hídrica e a bioeconomia.

A nova legislação foi tema central da segunda edição da Caatinga Climate Week 2026, evento realizado entre 1º e 3 de julho em Recife (PE). Organizada pelo Centro de Desenvolvimento Ecológico Sabiá e pelo Instituto Socioambiental (ISA), a semana do clima trouxe painéis, debates e atividades em diferentes territórios do semiárido para discutir os impactos da emergência climática no bioma e as respostas que já existem localmente.

Desertificação ameaça mais da metade do bioma

Segundo estudos do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), cerca de 62% das áreas da Caatinga estão suscetíveis à desertificação, processo ligado à degradação do solo e do ciclo hidrológico. As secas cada vez mais longas e severas confirmam a intensidade das mudanças climáticas no presente do bioma.

“Fortaleza recebe água do Açude de Castanhão, que fica no sertão. Salvador recebe água da barragem de Pedra do Cavalo, que bebe água do Rio Paraguaçu, que vem do sertão. Então, a Caatinga é suporte ecológico para as atividades econômicas, para a agricultura familiar e para a vida de povos indígenas e quilombolas”, explica Sérgio Leitão, diretor-executivo do Instituto Escolhas.

Para Leitão, o caminho para preservar o bioma passa pela restauração produtiva, ou seja, por um processo que inclua as pessoas e comunidades. Isso é essencial tanto para garantir o abastecimento de água para diversas cidades do Nordeste quanto para enfrentar desigualdades socioeconômicas históricas.

O potencial econômico do “recaatingamento”

Estudo lançado em 2024 pelo Instituto Escolhas mostra que cerca de 1 milhão de hectares já poderiam estar sendo restaurados na Caatinga, apenas em áreas de reserva legal e proteção permanente (APPs). Para isso, seria necessário um investimento estimado em R$ 15,1 bilhões, valor distante dos R$ 90 milhões anunciados no final de 2025.

Por outro lado, a pesquisa revela que o investimento pode trazer um retorno de até R$ 29,7 bilhões para os territórios da Caatinga, além da geração de 465,8 mil empregos e produção de 7,4 milhões de toneladas de frutas, verduras e hortaliças. Os dados incluem ainda 702 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO²) removidas da atmosfera ao longo do processo de restauração.

“É a primeira vez que no Brasil existe uma lei dedicada à recuperação de um bioma”, pontua Sérgio Leitão. O Instituto Escolhas participou de todo o processo de formulação e aprovação da Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga.

Entenda o Programa Recaatingar

Além da Política Nacional, o MMA lançou em junho o Programa Recaatingar, que prevê financiar projetos combinando recuperação ambiental, segurança hídrica e alimentar e inclusão socioeconômica de povos tradicionais e agricultores familiares. O edital prevê investimento inicial de R$ 60 milhões para projetos em áreas degradadas. A meta é recuperar 10 milhões de hectares até 2045, por meio de práticas como adubação verde, compostagem, plantio direto e implantação de sistemas agroflorestais.

A Caatinga como território de inovação e resistência

“A cultura também é fundamental para a preservação dos espaços geográficos”, destaca Carlos Magno, coordenador do Centro de Desenvolvimento Ecológico Sabiá. Neste ano, o tema escolhido para a Caatinga Climate Week foi: “A Caatinga falando para o mundo”.

O evento busca romper com estereótipos sobre o bioma e mostrar a cultura que faz a vida pulsar no semiárido, além de reconhecer a Caatinga como território de inovação, resistência e futuro.

A Caatinga ocupa mais de 840 mil km² e cerca de 11% do território nacional. O nome significa “mata branca” em tupi. Com um ecossistema diverso adaptado aos regimes de chuva e seca, o bioma abriga uma biodiversidade singular e comunidades tradicionais, como indígenas, camponeses e quilombolas.

Exemplo prático: Terra Indígena Kambiwá

“A mulher sertaneja aprende a ser resiliente desde o nascimento”, disse Romana Kambiwá, educadora indígena e engenheira agrônoma, durante o painel “Modos de vida e clima”. Na Caatinga Climate Week, ela apresentou parte do trabalho feito pelo povo Kambiwá na recuperação socioprodutiva do semiárido.

Localizada entre os municípios de Inajá, Ibimirim e Floresta, no Sertão do Moxotó (PE), a Terra Indígena Kambiwá possui cerca de 31 mil hectares e abriga mais de 3 mil indígenas. No território, a Associação Caboaman reúne mulheres em um projeto de beneficiamento de frutas nativas da Caatinga.

“Temos um olhar para a questão do recaatingamento, com plantas frutíferas e também medicinais”, explica Romana. A iniciativa conta com um viveiro para produzir mudas de espécies como murici e umbu. O projeto “Sabores e Saberes com Frutas da Caatinga” transforma as plantas em doces, geleias e licores, o que contribui com a autonomia das mulheres Kambiwá.

Brasil pressionado a liderar na COP17 da Desertificação

Diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), órgão vinculado ao MMA, Alexandre Pires enfatiza a importância do “recaatingar” em valorizar as soluções que nascem dos territórios. O Programa Recaatingar também está vinculado à Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.

Presente na Caatinga Climate Week, Alexandre foi cobrado por um posicionamento maior do Brasil nas discussões da COP17 da Desertificação, marcada para agosto na Mongólia. Questionado sobre a possibilidade de o país sediar a conferência (o evento acontece a cada dois anos e a seguinte deverá ser no Egito), ele respondeu que isso depende de um processo longo de construção.

Perguntas frequentes

O que é a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga?

É a primeira lei federal brasileira dedicada à recuperação de um bioma específico. Sancionada em junho de 2026 (Lei nº 15.430/2026), ela cria planos de ação para combater desmatamento, desertificação e ampliar a produção sustentável no semiárido.

O que é o Programa Recaatingar?

Lançado em junho pelo MMA, o Recaatingar financia projetos que combinam recuperação ambiental, segurança hídrica e alimentar e inclusão de povos tradicionais e agricultores familiares. A meta é recuperar 10 milhões de hectares até 2045, com investimento inicial de R$ 60 milhões.

Qual o tamanho da ameaça de desertificação na Caatinga?

Segundo o MMA, cerca de 62% das áreas do bioma estão suscetíveis à desertificação, processo ligado à degradação do solo e do ciclo hidrológico. Secas cada vez mais longas e severas agravam a situação.

A terceira edição da Caatinga Climate Week está prevista para 2027, quando novas ações e resultados dos programas de recuperação devem ser apresentados.

Com informações da Caatinga Climate Week, Instituto Socioambiental e Instituto Escolhas.

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