
Recorde histórico de temperatura em plena Semana do Clima escancara falta de adaptação da capital inglesa ao novo normal climático.
Londres registrou na última quinta-feira (25) a temperatura mais alta de sua história para o mês de junho: 36,4°C. O recorde anterior, de 36,1°C, havia sido batido apenas 24 horas antes. Com alta umidade incomum para a época, a sensação térmica chegou aos 40°C, transformando a maior metrópole da Europa Ocidental em uma verdadeira fornalha.
A marca histórica aconteceu durante a segunda onda de calor em dois meses no continente europeu. A primeira, em maio, foi algo sem precedentes mesmo em tempos de mudança climática. Mais de 100 milhões de pessoas experimentaram temperaturas acima de 35°C sob um domo de calor, uma bolha de ar quente do Saara que estacionou sobre a Europa.
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Cidade sem ar-condicionado entra em colapso
As aulas foram suspensas. Linhas de metrô paravam por superaquecimento de trens e trilhos, estações eram fechadas. Um ônibus pegou fogo. Repórteres do jornal Evening Standard mediram 39,4°C num trem da Central Line, uma das linhas de metrô antigas da cidade, onde não há refrigeração nem nas estações, nem nos trens.
Andar na rua era quase impossível. Mas buscar abrigo em ambientes fechados também não resolvia: são poucos os prédios londrinos com ar-condicionado. Menos ainda os que foram projetados para dissipar calor. Londres é uma cidade famosa pelo frio, pela chuva e pela neblina. As construções, muitas da era vitoriana, têm paredes grossas e janelas pequenas precisamente para manter o calor do lado de dentro.
Por toda a capital, o acessório mais usado era o ventilador portátil a pilha, cuja única serventia era soprar ar quente na cara do seu dono. Para quem conhece Manaus, a comparação é válida: imagine a capital do Amazonas sem ar-condicionado e com o sol torrando das 5 da manhã às 9h30 da noite.
Ironia climática durante Semana de Ação
O secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu a situação na terça-feira com um trocadilho: “Londres não está chamando, Londres está cozinhando”. A referência é à canção London Calling, hino da banda punk The Clash de 1979 que fala justamente de um apocalipse climático na cidade.
Guterres e mais de 100 mil pessoas estiveram na capital inglesa durante a onda de calor para participar de um evento sobre como resolver a crise climática. A Semana de Ação Climática de Londres, que acontece todos os anos na sequência da conferência do clima de Bonn, teve sua maior edição em 2026. Pelo menos um simpósio, sobre calor extremo, foi cancelado por conta do calor extremo.
Não é pouca ironia que o berço da Revolução Industrial, o lugar onde o capitalismo aprendeu a queimar combustíveis fósseis para gerar energia, se veja em meio a um extremo climático justamente nesse período. A diferença para Bonn é que Londres reuniu quem quer implementar soluções e fazer dinheiro com elas.
Entenda o contexto climático
Londres já havia atingido 40 graus no auge do verão de 2023, ano de El Niño, assim como 2026. Os eventos extremos de calor tornaram-se mais frequentes e intensos devido à mudança climática. É preciso recuar até 1976 para chegar ao distante terceiro lugar no ranking de temperaturas de junho na Inglaterra: 35,6°C. A diferença de 15°C em relação à média histórica para o mês mostra a velocidade da mudança.
Eletrificação domina debate climático
Dominando as conversas na Semana do Clima estava a palavra de ordem de 2026: eletrificação. Eletrificar o transporte e a indústria usando energia renovável barata, principalmente de painéis solares chineses, tornou-se objetivo a perseguir após o ataque israelo-americano ao Irã ter exposto a vulnerabilidade de um mundo dependente de combustíveis fósseis.

Londres já dá sinais dessa transição. Há tantos carros elétricos circulando na capital que algumas ruas se tornaram mais silenciosas. A prefeitura está substituindo os double-deckers, os icônicos ônibus vermelhos de dois andares, por modelos elétricos da chinesa BYD.
Para quem acha que eletrificação é coisa de país rico, a paupérrima Etiópia, que sediará a COP32 no ano que vem, proibiu há algumas semanas a importação de carros a combustão. Em Bonn, o presidente da COP31, Murat Kurum, anunciou meta de atingir 35% de eletrificação na matriz global até 2035.
Brasil prepara mapa do caminho para transição
Ana Toni, CEO da COP30, afirmou em evento sobre eletrificação em Londres que o tema não é mais tabu. “Levamos 28 COPs para falar da transição para longe dos combustíveis fósseis e veja em sete meses desde a COP30 tudo o que já aconteceu”, disse. “Essa guerra acontecendo agora mostra que precisamos fazer a transição, não só por causa do clima, mas por causa da segurança energética, por causa da segurança social, por causa da segurança econômica.”
Toni recebeu da ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez, e da ministra do Clima da Holanda, Stientje van Veldhoven, o relatório com os resultados da conferência de Santa Marta. O documento reflete o debate entre 57 países sobre como acelerar a transição e quais são as barreiras para isso.
Espera-se que o relatório seja insumo importante para o mapa do caminho da presidência brasileira da COP30, documento mais aguardado do ano para a luta contra a mudança climática. “O modelo energético global precisa não apenas de um novo capítulo, mas de um novo livro”, disse Vélez, mostrando o documento de Santa Marta.
Guterres prometeu organizar reunião de cúpula sobre eletrificação em setembro, à margem da Assembleia-Geral da ONU. Quando isso acontecer, provavelmente já estará pronto o roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis que está sendo produzido pela presidência brasileira da COP30.
Lições para a Amazônia
A situação de Londres serve de alerta para cidades amazônicas. Manaus, Belém e outras capitais da região já convivem com temperaturas elevadas, mas a tendência é de agravamento. A diferença é que na Amazônia o ar-condicionado já é amplamente usado, mas a demanda energética pode se tornar insustentável se a matriz não for renovável.
Os discursos do presidente Lula na COP30 pedindo roteiro global para o fim dos fósseis elevaram o perfil da conversa. A vitória dos bloqueadores, que impediram menção a fósseis nas decisões de Belém, até aqui vem sendo de Pirro, já que politicamente a dupla transição-eletrificação está cada vez mais na boca dos líderes.
Perguntas frequentes
Qual foi o recorde de temperatura em Londres?
Londres registrou 36,4°C em 25 de junho de 2026, a temperatura mais alta de sua história para o mês de junho. Com a umidade, a sensação térmica chegou a 40°C.
Por que Londres não tem ar-condicionado?
A cidade foi projetada para o clima frio tradicional britânico. As construções vitorianas têm paredes grossas e janelas pequenas para manter o calor interno, não para dissipá-lo. Poucos prédios têm refrigeração.
O que é eletrificação da matriz energética?
É o processo de substituir combustíveis fósseis por eletricidade gerada de fontes renováveis em transporte, indústria e outros setores. A meta global é atingir 35% de eletrificação até 2035.
Com informações do Observatório do Clima.
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