
Partido que liderou a transformação renovável do país agora rejeita o próprio legado em busca de votos conservadores.
A Polônia instalou 1,38 milhão de painéis solares residenciais em apenas oito anos, tornou-se a nação mais entusiasta da energia nuclear na Europa e substituiu centenas de milhares de caldeiras a carvão por sistemas limpos. O responsável por essa revolução? O partido de direita Lei e Justiça (PiS), que governou o país de 2015 a 2023. O detalhe: hoje, o mesmo partido finge que nada disso aconteceu e voltou a defender o carvão como “ouro negro” do país.
O motivo está na disputa acirrada da direita polonesa. De um lado, o PiS enfrenta partidos ainda mais radicais, como a Confederação de Krzysztof Bosak e Sławomir Mentzen. Do outro, tenta reconquistar eleitores de centro perdidos para a coalizão governista. Essa gangorra política transformou a transição energética em alvo fácil: ao mesmo tempo que precisa soar radical, a legenda quer manter um discurso palatável para o eleitor moderado.
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⭐ Adicionar Revista AmazôniaO legado que virou tabu
Os números não mentem. Quando o PiS assumiu o poder em 2015, a Polônia tinha apenas 71 megawatts de capacidade solar instalada. Ao sair do governo em 2023, esse número havia saltado para mais de 17 mil MW. O programa Ar Limpo (Clean Air), lançado sob gestão do partido, trocou fornos a carvão poluentes por sistemas modernos de aquecimento em centenas de milhares de lares, reduzindo o smog urbano e as contas de luz.
Além disso, o gasoduto Baltic Pipe, que traz gás norueguês para a Polônia, foi construído nesse período. O terminal de gás natural liquefeito (GNL) foi ampliado, e a estatal de energia Orlen começou a extrair gás no Mar do Norte. Projetos para uma usina nuclear e várias termelétricas a gás, destinadas a substituir as movidas a carvão, também arrancaram. Até roteiros para desativar minas de carvão em regiões específicas, incluindo Bełchatów (maior usina a carvão da Europa), foram elaborados.
Hoje, o partido evita falar sobre qualquer uma dessas conquistas. Pelo contrário: o candidato a primeiro-ministro do PiS, Przemysław Czarnek, tem feito elogios públicos ao carvão e até cogitado abrir novas minas de hulha. É como se os últimos oito anos não tivessem existido.
Por que o Green Deal virou veneno político
O Pacto Verde Europeu (Green Deal) tornou-se um espantalho na política polonesa. Uma pesquisa do think tank Project Tempo revelou que apenas 19% dos poloneses acreditam que o programa é benéfico para a economia europeia, número próximo da média da União Europeia (25%). Mas a rejeição não é contra energia limpa em si: é contra proibições e imposições vindas de Bruxelas.
“O nome em si é tóxico, mas os problemas que o Green Deal pretendia resolver não são”, explica Bartłomiej Orzeł, analista polonês do Project Tempo. Segundo ele, os poloneses apoiam fortemente políticas específicas de transição, como a construção de usinas nucleares e a expansão da energia solar fotovoltaica. O que rejeitam são mandatos amplos e banimentos que afetam transporte, agricultura, indústria e construção civil de uma só vez.
O sentimento de cerco se agrava porque o Green Deal nasceu em Bruxelas. Os poloneses resistem à ampliação de competências da UE sobre os Estados-nação. Em maio de 2026, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Varsóvia, em plena semana de trabalho, sob a bandeira do sindicato Solidariedade, contra as políticas climáticas da União Europeia. A manifestação recebeu apoio ostensivo da oposição de direita.
Entenda o paradoxo polonês
A Polônia construiu sua base de energia renovável justamente sob o governo que agora a renuncia. O PiS apostou em descentralização energética (painéis solares residenciais dão sensação de autonomia), mas hoje enfrenta uma disputa em que parecer “verde” equivale a parecer “pró-Bruxelas”. Com isso, o partido abandona uma narrativa vencedora de modernização em troca de um discurso conservador sobre o carvão, mesmo sabendo que o setor emprega menos de 70 mil pessoas e custa bilhões de zlóties em subsídios anuais.
Carvão perdeu apelo popular
As pesquisas do Project Tempo mostram que apenas 22% dos poloneses consideram o carvão uma boa fonte de energia. Quando perguntados sobre segurança energética, o apoio ao “ouro negro” sobe para 38%, mas fica muito atrás da energia nuclear, vista como garantia de autonomia por 70% da população. No quesito custo ao consumidor final, o carvão soma 31% de aprovação, contra 74% da nuclear.
“A consciência sobre o custo de extração do carvão na Polônia cresceu muito nos últimos anos”, diz Orzeł. “As crises sucessivas, sobretudo a guerra na Ucrânia (quando carvão importado entrou no país a preços altíssimos), puseram em xeque a segurança e a viabilidade de um setor que nos custa bilhões em subsídios por ano.”
Os poloneses também não esquecem rápido. Durante a crise energética de 2022, muitos tiveram que comprar carvão importado a valores exorbitantes. Falar em “carvão nacional” como solução para o custo de vida não convence quem viveu essa experiência na pele.
Enquanto isso, o apego emocional aos painéis solares no telhado, símbolo de independência e liberdade, cresceu. Krzysztof Bosak, da Confederação (rival do PiS), percebeu bem esse sentimento e, ao ser questionado sobre energia solar, enfatizou justamente o aspecto de liberdade que vem de possuir a própria fonte de energia.
Nuclear une esquerda e direita
A Polônia é o país mais pró-nuclear da Europa. O apoio cruza todas as linhas políticas: da esquerda à extrema direita. Segundo o Project Tempo, mais de 70% da população apoia a construção de usinas nucleares, com base em autonomia, segurança, custos, competitividade industrial e até criação de empregos locais.
O dado mais surpreendente: o maior apoio à nuclear vem do segmento “climaticamente engajado”, mas o segundo maior vem dos “céticos conservadores”, que em geral se opõem à transição energética e muitos nem acreditam em mudança climática causada pelo homem. Isso mostra que o debate sobre transformação energética na Polônia já saiu do campo climático há tempos.
A direita polonesa tem credibilidade para liderar essa conversa. O PiS, afinal, colocou a política nuclear em movimento durante seus oito anos no poder. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia aprovou a alocação de 60 bilhões de zlóties (14,2 bilhões de euros) em ajuda estatal para a construção da primeira usina nuclear do país. A obra deve começar nos próximos meses.
O risco de soar como Polexit
Konrad Szymański, ex-ministro de Assuntos Europeus do PiS, alertou em março de 2026 que a direita polonesa não pode se deixar empurrar para uma narrativa de “Polexit”, porque isso seria um prenúncio de derrota eleitoral certa. No entanto, o partido mergulhou de cabeça em pedidos de saída unilateral do Sistema de Comércio de Emissões (ETS) da UE, caminhando exatamente nessa direção.
Szymański defende que o debate sobre o papel e a eficácia do ETS, incluindo reforma genuína para não sufocar a indústria europeia, vale a pena. Mas não dessa forma. A conversa deveria mirar a especulação e instituições financeiras globais, não a União Europeia em si.
Ironicamente, mais de 80% dos eleitores da Coalizão Cívica (KO, partido no poder) apoiam mais turbinas eólicas. Mas entre eleitores do PiS, o apoio não é desprezível: cerca de 47%. Há espaço para consenso, mas o partido opositor parece preferir a polarização.
O que vem pela frente
Nas últimas eleições parlamentares, há três anos, o PiS saiu de oito anos no governo (atravessando guerra, pandemia de COVID-19, inflação global e crise energética) com aproximadamente 35% dos votos, mais que qualquer outro partido. Hoje, as pesquisas mostram a legenda claramente abaixo desse patamar. Mesmo com ligeiros aumentos de apoio, é difícil enxergar uma vitória eleitoral do partido de Jarosław Kaczyński com a estratégia atual.
Enquanto isso, a Confederação de Bosak e Mentzen cresceu, assumindo o papel de “centro moderado”, sem apertar o PiS pela direita como imaginava o partido de Kaczyński. Os confederados parecem ter uma leitura melhor do humor público. Pesquisas do Project Tempo mostram que os poloneses valorizam acima de tudo crescimento econômico (que o país registra quase ininterruptamente desde a queda do comunismo) e segurança no sentido amplo, incluindo segurança energética.
A Polônia será, a partir do próximo mês, o último país da União Europeia que ainda extrai carvão mineral, após a República Tcheca (única outra produtora) anunciar o fechamento de sua última mina em janeiro de 2026. As próximas eleições parlamentares acontecerão 12 anos depois do último pico discursivo do carvão como “ouro negro”, em 2015. O mundo mudou enormemente desde então, e as velhas receitas não respondem às perguntas de hoje.
O conflito no Estreito de Hormuz, por exemplo, lembrou aos europeus como estão vulneráveis a conflitos globais e ao mercado de combustíveis fósseis. Segundo estimativas do think tank Instrat, apenas esse conflito custou à Polônia 10 bilhões de zlóties (2,33 bilhões de euros) em dois meses e meio. A queda de custos de tecnologias como painéis solares, bombas de calor e armazenamento de energia lançou as bases para uma nova revolução energética que, há uma década, simplesmente não era possível prever.
Perguntas frequentes
Por que o PiS abandonou sua política de energia limpa?
O partido enfrenta disputa eleitoral acirrada com legendas de ultradireita e teme perder votos conservadores caso continue defendendo a transição energética, associada ao Green Deal da União Europeia.
Os poloneses apoiam energia renovável?
Sim. Mais de 70% apoiam energia nuclear, e a maioria valoriza painéis solares e outras fontes limpas. O que rejeitam são imposições amplas vindas de Bruxelas e proibições em múltiplos setores de uma só vez.
O carvão ainda tem futuro na Polônia?
Não em termos populares ou econômicos. O setor emprega menos de 70 mil pessoas, custa bilhões em subsídios anuais e tem apoio de apenas 22% da população. A Polônia será o último país da UE a extrair carvão mineral a partir do próximo mês.
Com informações de Notes From Poland.
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