
Agroindústrias brasileiras ampliam investimentos em controle de dados e comprovação de origem para atender mercados mais rigorosos.
O acordo Mercosul-União Europeia já mobiliza agroindústrias brasileiras em uma agenda que transcende a redução de tarifas. Antes mesmo de efeitos comerciais diretos, empresas do setor ampliam investimentos em rastreabilidade, conformidade e integração de dados para comprovar a origem da matéria-prima e o controle dos processos produtivos. A capacidade de demonstrar origem, processamento, armazenagem, transporte e entrega final dos produtos ganha peso decisivo nas relações comerciais com mercados externos mais rigorosos.
Em mercados externos mais exigentes, escala, eficiência e qualidade seguem importantes, mas já não bastam para garantir competitividade. Segundo o diretor de agronegócios da Senior Sistemas, Fernando Silva, o acordo tende a acelerar uma transformação que já estava em curso no setor. “Mais do que criar uma exigência nova, o acordo Mercosul-União Europeia acelera uma agenda que já vinha ganhando força no agro. O que muda, na prática, é que não basta mais dizer que a operação segue boas práticas. Será cada vez mais necessário comprovar isso com rastreabilidade, dados confiáveis e evidências ao longo de toda a cadeia”, afirma Silva.
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A exigência de rastreabilidade alcança diferentes etapas da operação agroindustrial. A comprovação precisa acompanhar a originação, o recebimento da matéria-prima, o processamento, a armazenagem, a expedição e a logística. Qualquer falha nesse percurso pode comprometer a capacidade de comprovação da empresa diante de auditorias, clientes ou exigências contratuais.
A originação passa a ocupar posição estratégica, por reunir informações sobre procedência, documentos de entrada e vínculo com fornecedores. A logística também ganha novo peso. Erros na movimentação, mistura de lotes, falhas de armazenagem ou problemas no transporte podem prejudicar o histórico do produto e enfraquecer a confiança na cadeia.

O avanço, no entanto, ocorre em ritmos diferentes. Alguns segmentos, como o algodão, já operam com níveis mais maduros de rastreabilidade para atender mercados internacionais. De acordo com a Senior Sistemas, a empresa atende três das cinco maiores tradings do país nesse setor. Na base da companhia, 72 das 100 maiores empresas do agro brasileiro são clientes, e cerca de 50 podem ser beneficiadas de forma mais direta pelo acordo.
Controles manuais e planilhas ainda fragilizam parte do setor
Apesar do avanço de alguns segmentos, parte das agroindústrias ainda depende de controles manuais, planilhas e registros dispersos entre diferentes áreas. O problema aparece quando a empresa precisa reunir documentos rapidamente para responder a uma auditoria, uma exigência comercial ou uma demanda contratual.
Nesses casos, a falta de integração gera retrabalho, demora na consolidação de informações, decisões mais lentas e maior exposição a riscos fiscais, contratuais e logísticos. Em vez de apoiar a competitividade, a operação perde eficiência justamente no momento em que o mercado exige respostas rápidas e consistentes.
“Quando surge a exigência de comprovar uma informação, a resposta não pode depender de buscas em diferentes áreas nem de esforço manual para reunir dados. Sem informação consolidada e validada, a empresa perde agilidade, aumenta custos e enfraquece sua capacidade de resposta”, diz Silva.

Impacto financeiro pode chegar a US$ 5 milhões por operação
A gestão documental também pode ter impacto financeiro relevante. Segundo a avaliação da Senior Sistemas, o benefício tarifário associado ao acordo UE-Mercosul pode representar entre 2% e 5% do faturamento, a depender do produto, do volume exportado e das condições contratuais.
Por outro lado, falhas documentais, como inconsistências na comprovação de origem, podem gerar custos adicionais, perda de benefícios tarifários e capital imobilizado na operação. Em determinados contextos, os impactos podem ficar entre US$ 2 milhões e US$ 5 milhões por operação, conforme o porte da empresa e as variáveis envolvidas.
Entenda o desafio da rastreabilidade no agro
A rastreabilidade no agronegócio envolve a capacidade de registrar e recuperar informações sobre origem, processamento, transporte e armazenagem de produtos agrícolas. Sem sistemas integrados, empresas enfrentam dificuldades para atender auditorias e exigências de mercados externos. O acordo Mercosul-UE torna essa capacidade ainda mais crítica, pois a comprovação de origem passa a ser condição para acesso a benefícios tarifários.
Maturidade operacional será medida pela capacidade de resposta
Nesse novo cenário, a preparação das agroindústrias será medida menos pela quantidade de relatórios produzidos e mais pela capacidade de localizar documentos, rastrear lotes, reunir evidências e responder ao mercado com segurança. A cobertura da rastreabilidade, a qualidade documental na entrada, o tempo de resposta, o volume de retrabalho e a visibilidade logística passam a ser indicadores centrais de competitividade.

Para Silva, maturidade operacional significa reduzir o intervalo entre a pergunta e a prova. “Nesse novo cenário, maturidade operacional é reduzir o tempo entre a pergunta e a prova. Quanto mais rápida e consistente for a capacidade de reunir evidências, maior tende a ser a preparação da agroindústria para competir em mercados mais exigentes”, conclui o executivo.
A tendência é que empresas que investirem em tecnologia e integração de dados saiam na frente na disputa por mercados internacionais. A expectativa é que o acordo Mercosul-UE seja ratificado pelos países membros ao longo de 2026, ampliando a pressão sobre agroindústrias que ainda operam com controles fragmentados.
Perguntas frequentes
O que muda com o acordo Mercosul-UE para o agro brasileiro?
O acordo acelera a necessidade de comprovar a origem e o processamento dos produtos agrícolas com dados confiáveis e rastreabilidade em todas as etapas da cadeia produtiva.
Quais setores do agro já estão mais preparados?
O setor de algodão já opera com níveis mais maduros de rastreabilidade para atender mercados internacionais. Outros segmentos ainda dependem de controles manuais e planilhas.
Qual o impacto financeiro de falhas na rastreabilidade?
Falhas documentais podem gerar custos adicionais e perda de benefícios tarifários. Em alguns casos, os impactos podem variar entre US$ 2 milhões e US$ 5 milhões por operação, dependendo do porte da empresa.
Com informações de Senior Sistemas.
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