
Estudo internacional encontrou 248 compostos humanos em 2.315 amostras de água coletadas entre 2017 e 2022.
A poluição nos oceanos está incorporada à matéria orgânica dissolvida da água, com a presença de compostos industriais, medicamentos, pesticidas e substâncias associadas à produção de plásticos. A conclusão é de um estudo internacional publicado em março de 2026 na revista Nature Geoscience, que analisou 2.315 amostras coletadas entre 2017 e 2022 em diferentes regiões oceânicas.
Os pesquisadores identificaram assinaturas químicas de 248 compostos produzidos por atividades humanas, chamados xenobióticos. A maior parte estava relacionada à indústria petroquímica, mas também foram encontrados resíduos de fármacos para hipertensão, ansiedade, infecções e malária, além de substâncias presentes em repelentes de insetos.
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As amostras vieram dos oceanos Índico, Atlântico Norte, Pacífico Central e Pacífico Oriental. O levantamento também incluiu o Mar Báltico e o Caribe. A presença dos compostos foi mais intensa nas áreas costeiras, principalmente onde rios carregam esgoto doméstico e industrial para o mar.
Nesses pontos, o sinal químico dos poluentes ultrapassou 20% da composição analisada e chegou a 76% em locais de encontro entre rios contaminados e o oceano. Em mar aberto, distante da influência direta das cidades e dos cursos d’água, a média foi de 0,5%.
Segundo a FAPESP, o estudo identificou 248 compostos produzidos por atividades humanas em 2.315 amostras de água coletadas nos oceanos entre 2017 e 2022. O resultado indica que a influência da poluição alcança até áreas afastadas das principais fontes terrestres.
O pesquisador brasileiro Bruno Ruiz Brandão da Costa, coautor do trabalho, afirmou que a distribuição dos compostos foi mais ampla do que o esperado. “Observamos que esses compostos estavam muito mais amplamente disseminados do que imaginávamos”, disse.
Entenda o caso
A matéria orgânica dissolvida é uma mistura formada por compostos naturais produzidos por algas, plantas e microrganismos. Ela também pode receber substâncias transportadas pela chuva, pelo solo, pela decomposição de folhas e de organismos.
Os cientistas analisaram essa mistura para identificar sinais químicos associados a produtos fabricados ou alterados pela atividade humana. A técnica aponta a presença e a participação relativa de cada sinal no conjunto, mas não informa, sozinha, a concentração exata de cada poluente em gramas ou miligramas.
Plásticos, remédios e repelentes
Entre os poluentes industriais mais frequentes estavam polialquileno glicóis, ftalatos e organofosfatos. Os ftalatos são usados para dar flexibilidade e durabilidade a materiais plásticos. Já parte dos organofosfatos é empregada em produtos industriais, inclusive como retardante de chama.
Os cinco compostos industriais mais detectados apareceram em mais de 30% das amostras. A ampla distribuição chama atenção porque algumas dessas substâncias estão associadas a riscos ambientais e à saúde descritos em estudos anteriores.
Os fármacos tiveram sinais mais fortes em estuários e áreas próximas de regiões urbanizadas. Entre os metabólitos identificados estavam derivados do atenolol, usado no tratamento da hipertensão, além de delorazepam, ácido nalidíxico, cloroquina e valsartana.
O metabólito do atenolol foi o mais frequente entre os medicamentos, aparecendo em até 37% das amostras analisadas. Os autores ressaltam que a detecção não depende apenas da quantidade consumida. A persistência e o comportamento das moléculas na água também influenciam sua permanência e identificação.

Entre os pesticidas, o DEET, presente em repelentes, apareceu em 30% das amostras. A icaridina, outro ingrediente usado para afastar insetos, foi detectada em 6% dos pontos. Os sinais de pesticidas foram mais intensos na costa da África do Sul e no Caribe, mas quase não apareceram em áreas de oceano aberto.
O que a pesquisa ainda não responde
A pesquisa não mediu diretamente a quantidade exata de cada poluente na água. A chamada assinatura química funciona como um radar, permitindo verificar quais substâncias estão presentes e quanto elas se destacam diante dos demais componentes da amostra.
Para calcular a concentração individual, seriam necessários testes específicos para cada composto. A diferença é importante porque detectar uma substância não significa, por si só, determinar se ela está em nível capaz de causar um efeito imediato nos organismos marinhos ou nas pessoas.
Alguns compostos foram reconhecidos por redes moleculares. Essa ferramenta agrupa moléculas com estruturas semelhantes e permite apontar a provável presença de substâncias que ainda não estão cadastradas nos bancos de dados. O método é especialmente útil para identificar metabólitos produzidos pela transformação de medicamentos no organismo.
Impacto para a Amazônia
O estudo não incluiu o Atlântico Sul, que banha a costa brasileira. Isso deixa uma lacuna importante para a compreensão da contaminação que pode alcançar o litoral da Amazônia, incluindo áreas do Amapá, Pará e Maranhão, além das conexões entre rios, estuários e zonas costeiras.
Na região amazônica, o transporte de substâncias por grandes bacias hidrográficas, a expansão urbana, o descarte de esgoto e as atividades industriais tornam o monitoramento dos rios e das áreas de transição especialmente relevante. Os resultados internacionais não permitem afirmar que os mesmos níveis foram encontrados nos rios amazônicos ou no Atlântico Sul.
O próprio Costa destacou que novas investigações precisam incluir regiões ainda pouco estudadas com a mesma metodologia. O coordenador do projeto, Daniel Petras, da Universidade da Califórnia em Riverside, busca parceiros para ampliar a coleta e comparar áreas que ainda não aparecem nos bancos públicos.
Monitoramento deve ser contínuo
Os autores defendem a criação de programas permanentes e padronizados de monitoramento. A organização e o compartilhamento dos dados em plataformas de ciência aberta podem facilitar a reprodução dos resultados e permitir análises sobre a evolução da poluição em diferentes oceanos.
O alerta também envolve o ciclo do carbono. Segundo os pesquisadores, compostos orgânicos produzidos por atividades humanas já representam uma parcela relevante da matéria orgânica dissolvida e podem influenciar processos do oceano que ainda são pouco compreendidos.
Os próximos estudos devem incluir o Atlântico Sul e realizar análises específicas para medir a concentração dos poluentes, ampliando a avaliação dos riscos para os ecossistemas marinhos e para as cadeias alimentares.
Perguntas frequentes
O estudo encontrou plástico dentro dos animais marinhos?
Não. A pesquisa analisou a matéria orgânica dissolvida na água e identificou assinaturas químicas de compostos associados principalmente à produção de plásticos, além de fármacos e pesticidas.
A pesquisa mediu a quantidade de remédios no oceano?
Não de forma direta. O método identificou a presença e a proporção relativa dos sinais químicos, mas a concentração exata de cada substância exige testes específicos.
A Amazônia foi incluída no levantamento?
Não. O Atlântico Sul ficou fora da análise por falta de estudos anteriores com a mesma metodologia. Os pesquisadores pretendem ampliar o levantamento para essa região.
Com informações de FAPESP.
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