Fábrica de celulose montada no Japão percorre 25 mil quilômetros rebocada, chega ao rio Jari após 84 dias e integra o Projeto Jari

Fábrica de celulose montada no Japão percorre 25 mil quilômetros rebocada, chega ao rio Jari após 84 dias e integra o Projeto Jari
Ilustração: Revista Amazônia

Duas plataformas construídas em Kure foram levadas até a divisa entre Pará e Amapá, em uma das maiores operações logísticas do Projeto Jari.

Uma fábrica inteira saiu do Japão rebocada pelo oceano

Em 1978, uma plataforma industrial deixou o Japão presa a uma operação de reboque que percorreu cerca de 25 mil quilômetros até a Amazônia. A estrutura havia sido montada em Kure, no Japão, para fazer parte do Projeto Jari, empreendimento instalado na divisa entre o Pará e o Amapá. Em vez de transportar peças separadas e montar uma fábrica no destino, o projeto levou pelo mar uma unidade de produção de celulose branqueada já estruturada para a operação.

A plataforma de celulose partiu em 10 de fevereiro de 1978 e chegou ao rio Jari em 4 de maio do mesmo ano, depois de 84 dias de viagem. A travessia transformou uma instalação industrial construída no litoral asiático em uma presença física na Amazônia. A chegada não encerrou apenas uma viagem marítima. Ela colocou no cenário amazônico uma fábrica concebida para funcionar dentro de um projeto que também dependia de uma segunda plataforma, voltada à geração de energia térmica e elétrica.

O Projeto Jari reuniu duas plataformas com funções diferentes

As duas estruturas foram construídas em Kure com tecnologia finlandesa desenvolvida em Tampere. Uma delas abrigava a produção de celulose branqueada. A outra reunia os equipamentos destinados à geração de energia térmica e elétrica, com potência de 55 megawatts. Separar as funções em duas plataformas permitiu que a fábrica de celulose e o sistema de energia fossem levados como unidades distintas, embora integrassem o mesmo empreendimento.

A plataforma de energia partiu em 1º de fevereiro de 1978 e chegou ao destino em 28 de abril, após 87 dias de reboque. A estrutura de celulose começou a viagem nove dias depois e completou o percurso três dias antes da unidade energética. As datas mostram que não se tratou de uma única travessia com uma instalação indivisível, mas de duas operações marítimas relacionadas. Cada plataforma tinha uma finalidade específica no desenho industrial do Projeto Jari.

Daniel Ludwig levou a indústria para a divisa entre Pará e Amapá

O empreendimento foi conduzido pelo bilionário americano Daniel Keith Ludwig, em sociedade com Joaquim Nunes Almeida. O local escolhido ficava na região do rio Jari, na divisa entre Pará e Amapá. A posição amazônica dava ao projeto uma escala territorial própria, porque a indústria não foi instalada em um centro urbano já consolidado. A fábrica, a plataforma de energia e os demais elementos do empreendimento passaram a compor uma experiência industrial ligada diretamente à ocupação daquela área.

O transporte das plataformas resume a dimensão logística da iniciativa. Primeiro, uma unidade de produção foi construída no Japão com tecnologia finlandesa. Depois, a estrutura atravessou milhares de quilômetros rebocada pelo oceano até alcançar o rio Jari. O processo conectou três referências geográficas e industriais distintas, Japão, Finlândia e Amazônia, em uma mesma cadeia de implantação. A plataforma não chegou como um equipamento comum de transporte, mas como uma instalação de grandes proporções destinada a integrar o complexo do Projeto Jari.

O investimento bilionário não impediu a mudança de controle

Depois da chegada das plataformas e da implantação do empreendimento, Ludwig abandonou o Projeto Jari em 1982. Até então, havia investido cerca de 1,15 bilhão de dólares na iniciativa. O valor indica a escala financeira atribuída ao projeto, mas também mostra que a dimensão do investimento não garantiu a permanência do controlador original. A história do complexo passou, portanto, da grande operação de transporte para uma nova etapa de administração e continuidade industrial.

Em 2000, o Grupo Orsa assumiu o projeto e, em 2004, obteve a certificação FSC. A sequência conecta a travessia de 1978 a uma transformação posterior na gestão do empreendimento. A fábrica que chegou ao rio Jari depois de 84 dias não permaneceu vinculada para sempre ao homem que a concebeu dentro daquele plano empresarial. Sua trajetória passou por outra administração e alcançou uma certificação associada à gestão responsável de florestas e produtos florestais.

Uma viagem de 25 mil quilômetros virou parte da história amazônica

A operação marítima permanece como o episódio mais concreto da implantação do Projeto Jari. Uma plataforma destinada à celulose percorreu 25 mil quilômetros entre Kure e o rio Jari, enquanto a unidade de energia fez percurso equivalente em outra viagem e levou 87 dias. A diferença de três dias entre as chegadas revela que as estruturas foram transportadas separadamente, mesmo pertencendo ao mesmo projeto. A fábrica de celulose chegou em 4 de maio de 1978 e a plataforma de energia, em 28 de abril.

O caso também mostra como a história industrial da Amazônia foi marcada por estruturas que atravessaram fronteiras antes de alcançar seu destino. A plataforma nasceu de uma construção no Japão, incorporou tecnologia finlandesa e foi rebocada até uma área entre Pará e Amapá. Décadas depois, o controle mudou e a operação recebeu certificação FSC. Mais do que uma máquina deslocada pelo oceano, a plataforma registra uma escolha de escala: levar a própria fábrica até a floresta e fazer do rio Jari o ponto final de uma viagem iniciada do outro lado do mundo.

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