
Um cacto de caules finos, folhas pequenas e flores brancas que se abrem ao anoitecer foi descrito como espécie nova para a ciência na Caatinga da Bahia. Batizada de Quiabentia pelodaserra, a planta foi encontrada pelo botânico José Alves Siqueira, professor do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em um afloramento de calcário na divisa dos municípios de Jussara, Central e Itaguaçu, no centro-norte do estado. É apenas a terceira espécie conhecida do gênero Quiabentia no mundo, e a primeira registrada mais de um século depois das outras duas.
Um gênero que parou em 1923
As duas espécies conhecidas até agora foram descritas no começo do século 20: Quiabentia zehntneri, em 1919, e Quiabentia verticillata, em 1923. Ambas têm flores cor-de-rosa, que se abrem de dia e são polinizadas por abelhas e beija-flores.
A espécie nova foge desse padrão. Suas flores são brancas e compridas, abrem ao entardecer, ficam pendentes depois de abertas e têm uma grande câmara de néctar. A seiva tem cheiro acre. Segundo Siqueira, o que separa a planta das parentes está sobretudo na reprodução. “A diferença entre as espécies está documentada principalmente nas partes reprodutivas: flor, fruto e semente”, afirma o botânico.
Polinizada por morcegos?
Pela forma da flor e pelo horário em que ela se abre, os pesquisadores levantam a hipótese de que a planta seja polinizada por morcegos. Ainda não há registro direto de visitas desses animais. Se a hipótese for confirmada, será o primeiro caso conhecido de polinização por morcegos entre os cactos opuntioides, o grupo das palmas, ao qual a Quiabentia pertence.
O nome veio dos moradores
O nome da espécie homenageia o saber local. Os moradores da região chamam a planta de “pelo da serra”, por causa dos espinhos finos que se prendem à roupa e à pele, e os pesquisadores decidiram manter o nome na descrição científica.
A descoberta aconteceu em 2025, durante o pós-doutorado de Siqueira na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, em Piracicaba. O afloramento, da Formação Bambuí, é de difícil acesso por causa das rochas muito cortantes, e, segundo o botânico, nenhum pesquisador tinha coletado plantas ali antes. “Tem gente que passa, vê, mas não percebe”, diz.
O artigo que descreve a espécie, assinado por Siqueira com os botânicos Daniela Zappi e Nigel Taylor, especialistas na família dos cactos, foi publicado no volume 44 de 2026 da Bradleya, periódico anual da British Cactus and Succulent Society, do Reino Unido.
Já nasce criticamente ameaçada
A Quiabentia pelodaserra é conhecida em um único local, com área de ocorrência estimada em 72 quilômetros quadrados, no distrito biogeográfico de Irecê. A população mais próxima de uma parente, a Q. zehntneri, fica a cerca de 300 quilômetros dali. Por isso, os autores classificaram a espécie como Criticamente em Perigo, a categoria de maior risco de extinção na natureza.
As ameaças listadas são a expansão agrícola e urbana, a mineração de calcário, a abertura de estradas e o sobrepastoreio de ovelhas. “O grande desafio agora é como conservar esse tesouro da Caatinga”, afirma Siqueira.
Como primeira medida, dois exemplares são cultivados no Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas das Caatingas (Crad), no campus de Ciências Agrárias da Univasf, em Petrolina (PE). A coleção funciona como reserva genética da espécie fora do ambiente natural e pode servir, no futuro, para reintroduzir a planta na natureza.
A Caatinga ainda esconde espécies
A descoberta reforça que a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, ainda guarda plantas desconhecidas em lugares pouco visitados pelos cientistas. Siqueira passou um ano em expedições fotografando a vegetação do bioma e prepara, com o professor Vinicius Castro Souza, da Esalq, o livro Guia das Plantas da Caatinga. “A ciência é feita de forma coletiva”, resume o botânico.
Entenda
- Espécie: Quiabentia pelodaserra, terceira do gênero.
- Onde: afloramento calcário entre Jussara, Central e Itaguaçu, no centro-norte da Bahia.
- Diferencial: flores brancas que abrem ao anoitecer, possivelmente polinizadas por morcegos.
- Situação: Criticamente em Perigo, conhecida em um único local.
Com informações da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e da revista Bradleya.
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