
Estudo do INPA indica que o mesmo fungo que manipula formigas pode sobreviver silenciosamente dentro de musgos.
Uma equipe do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) encontrou evidências de que o fungo associado às chamadas formigas zumbis também pode viver dentro de musgos da floresta amazônica. O material foi coletado na Reserva Florestal Adolpho Ducke, ao norte de Manaus, e analisado por metabarcoding, técnica que identifica o DNA de diferentes organismos em uma amostra. O resultado, publicado em 2026 na revista científica IMA Fungus, sugere que Ophiocordyceps tem uma fase endofítica, silenciosa e pouco conhecida, além do estágio parasitário que altera o comportamento das formigas.
O fungo não precisa estar visível para estar presente
A descoberta chama atenção porque o gênero Ophiocordyceps é conhecido principalmente pela capacidade de infectar insetos. O exemplo mais famoso é Ophiocordyceps unilateralis, chamado popularmente de fungo das formigas zumbis. Depois de entrar no corpo do inseto, o fungo se espalha e interfere em seus músculos, levando a formiga a abandonar a colônia e procurar um ambiente adequado para a dispersão dos esporos.
Leia também
Tartaruga mais ameaçada do mundo encalha no Canadá, sobrevive ao frio e volta ao mar nas Bahamas
Sementes de jaborandi perdem a viabilidade tão depressa que cientistas criaram quatro populações vivas em antigas áreas de mineração de Carajás
Mosquitos coletados em 37 pontos do Juruá carregavam mais de 500 sequências virais e 18 possíveis espécies nunca descritasO comportamento parece saído de um filme de terror, mas a explicação científica é mais complexa do que a ideia de um fungo que controla diretamente o cérebro. Estudos citados no material de referência indicam que o invasor cresce ao redor do cérebro sem necessariamente envolvê-lo por completo. A ação pode ocorrer por meio de compostos químicos e da interferência na musculatura do animal.
Ao chegar a um ponto com temperatura e umidade favoráveis, a formiga prende as mandíbulas em uma folha, ramo ou outra superfície. Essa mordida final, conhecida como “mordida da morte”, mantém o corpo imóvel depois da morte e favorece a liberação dos esporos. O local escolhido, portanto, não seria aleatório.
Entenda o caso
O gênero Ophiocordyceps reúne mais de 350 espécies de fungos que parasitam diferentes insetos. A nova pesquisa indica que algumas linhagens também podem colonizar musgos como endófitas, isto é, vivendo dentro do tecido vegetal sem produzir sinais externos evidentes.
Os pesquisadores analisaram amostras de musgos e encontraram material genético do fungo inclusive em áreas situadas a mais de 9,7 metros de formigas infectadas. Esse dado não prova, sozinho, que todas as formigas procuram deliberadamente musgos colonizados, mas reforça a hipótese de uma conexão ecológica entre o inseto, o fungo e a planta.
Uma pista sobre a escolha do local da morte
Antes do estudo, cientistas já haviam observado que determinadas formigas infectadas mordem ou procuram musgos. A lacuna estava em saber se esse comportamento tinha relação com a presença do próprio fungo no vegetal. A análise genética realizada pelo INPA encontrou sinais de Ophiocordyceps em comunidades de musgos da Reserva Ducke, inclusive quando não havia uma formiga parasitada imediatamente próxima.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, pesquisadores detectaram DNA de Ophiocordyceps em musgos coletados na Reserva Adolpho Ducke, em Manaus, durante o estudo publicado em 2026 na revista IMA Fungus.
A interpretação mais provável é que o fungo possa permanecer nas plantas durante períodos em que há poucos insetos disponíveis para infecção. Nesse cenário, o musgo funcionaria como uma espécie de abrigo ou reservatório temporário, permitindo que o organismo atravesse condições desfavoráveis até encontrar um novo hospedeiro.
O que a descoberta ainda não responde
A pesquisa não demonstra que o fungo transforma o musgo em uma armadilha para formigas, nem confirma que o inseto consegue identificar conscientemente a presença do organismo. Também não está estabelecido se a colonização dos musgos ocorre de maneira ampla em todas as espécies de Ophiocordyceps ou se é restrita a determinadas linhagens e condições ambientais.
Outra questão em aberto é o mecanismo que levaria uma formiga infectada a escolher uma planta colonizada pelo mesmo fungo. Pode haver atração química, preferência por características de umidade e temperatura ou simplesmente uma combinação entre comportamento do inseto e distribuição do musgo na floresta. A distância registrada nas amostras também exige novas coletas para estimar a frequência real desse padrão.
O estudo completo, intitulado “Metabarcoding reveals a hidden endophytic stage of the zombie-ant fungus in Amazonian mosses”, apresenta a análise genética e a hipótese sobre essa fase oculta do ciclo de vida. A técnica de metabarcoding é especialmente útil em ambientes como a Amazônia, onde uma pequena amostra pode conter uma comunidade extensa de fungos, bactérias e outros organismos.
Por que isso importa para a Amazônia
A Reserva Ducke está inserida em uma das áreas de pesquisa mais importantes da Amazônia brasileira, próxima a Manaus e conectada a estudos sobre biodiversidade, clima e interações entre espécies. Uma descoberta desse tipo amplia o entendimento sobre os fungos amazônicos, grupo ainda subamostrado em comparação com plantas e animais.
Em todos os estados da Amazônia Legal, relações entre fungos, insetos e plantas podem desempenhar funções ecológicas que permanecem invisíveis. Fungos endofíticos podem afetar a resistência das plantas, a decomposição da matéria orgânica e a circulação de nutrientes. No caso do Ophiocordyceps, compreender essa rede pode explicar melhor como o parasita persiste e como influencia comunidades de formigas no sub-bosque.
A descoberta também reforça uma cautela importante: o termo “zumbi” é uma simplificação jornalística para um fenômeno biológico de manipulação comportamental. Não há qualquer evidência de risco para seres humanos associada ao achado. O interesse está em entender como um fungo evoluiu para explorar diferentes hospedeiros e ambientes dentro de uma floresta extremamente diversa.
As próximas etapas devem ampliar a coleta de musgos, testar a viabilidade do fungo dentro das plantas e investigar se formigas infectadas realmente escolhem esses locais com maior frequência; sem esses dados, a relação permanece uma hipótese forte, mas ainda não definitiva.
Perguntas frequentes
O que é o fungo das formigas zumbis?
É o nome popular dado a espécies de Ophiocordyceps que parasitam formigas e alteram seu comportamento, levando-as a morrer em locais favoráveis à dispersão dos esporos.
O fungo foi encontrado dentro de quais plantas?
O estudo identificou DNA de Ophiocordyceps em musgos coletados na Reserva Florestal Adolpho Ducke, na região de Manaus.
A descoberta representa perigo para pessoas?
Não. O achado trata de uma relação entre fungos e insetos em ambiente amazônico, sem evidência apresentada de infecção ou ameaça à saúde humana.
Com informações de Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
Aruanã salta mais de um metro para capturar insetos e aranhas em galhos baixos da Amazônia
Cinco vaga-lumes amazônicos entraram para a ciência em uma revisão que encontrou antenas bifurcadas inéditas entre seus parentes luminosos
Uma inflorescência de açaí pode abrir mais de 23 mil flores e concentra nas primeiras horas do dia o trabalho decisivo das abelhas nativasGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














