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Laser sobrevoa floresta densa no Acre e revela quase 400 geoglifos de civilização Aquiry que pode ter reunido até 3 milhões de pessoas entre 600 a.C. e 850 d.C.

Em julho de 2026, um estudo publicado na revista científica Nature trouxe uma das mais importantes revisões da história pré-colombiana da Amazônia. Usando tecnologia lidar (detecção e alcance por luz), pesquisadores mapearam quase 400 geoglifos até então desconhecidos sob o dossel da floresta no sudoeste da Amazônia, principalmente no estado do Acre, perto das fronteiras com a Bolívia e o Peru.

Essas estruturas geométricas – círculos, quadrados, retângulos e combinações complexas – foram construídas por uma sociedade que os cientistas chamaram de Aquiry, em referência ao nome indígena do rio Acre. A pesquisa, liderada pelo arqueoantropólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, estima que essa população pode ter alcançado entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas em seu auge, entre os anos 100 e 300 d.C.

A descoberta que desafia o mito da floresta intocada

Por décadas, a imagem predominante da Amazônia pré-colonial era a de uma floresta praticamente vazia, habitada apenas por pequenos grupos nômades. Os novos dados mostram o oposto. Em uma área de cerca de 183 mil quilômetros quadrados – quase o tamanho do estado do Paraná –, a civilização Aquiry erigiu centros cerimoniais, caminhos e obras de terraplenagem de grande precisão, sem o uso de ferramentas de metal ou animais de tração.

Os geoglifos datam, em média, do período entre 600 a.C. e 850 d.C. Alguns dos maiores chegam a ocupar 50 hectares, o equivalente a cerca de 70 campos de futebol. As valas têm tipicamente 12 metros de largura e podem atingir 5 metros de profundidade. A construção de um geoglifo de tamanho médio exigiria o trabalho coordenado de aproximadamente 300 pessoas, segundo os cálculos da equipe.

Os pesquisadores se basearam em parte nos relatos orais da nação Apurinã, que ainda vive no centro dessa região de terraplenagens. Segundo o antropólogo Francisco Apurinã, que participou do estudo, os Apurinã reconhecem essas estruturas como kymyrury – espaços que funcionam como “casa dos espíritos”.

Como a tecnologia lidar transformou a arqueologia amazônica

O lidar funciona como um radar a laser. Aviões ou drones emitem milhões de pulsos de luz que atravessam a vegetação e medem a distância até o solo. O resultado é um mapa tridimensional extremamente detalhado do relevo, capaz de revelar estruturas humanas escondidas sob a floresta densa.

Antes dessa tecnologia, muitos geoglifos só eram identificados após o desmatamento. Agora, é possível mapear áreas intactas sem destruir a cobertura vegetal. O estudo de 2026 identificou 432 enclosures geométricos, dos quais quase 400 eram completamente novos para a ciência. Os autores estimam que o número total de geoglifos na região Aquiry possa chegar a 20 mil ou 30 mil se toda a área for devidamente pesquisada.

Funções cerimoniais, políticas e sociais

As escavações e os dados de superfície indicam que esses locais não eram principalmente aldeias residenciais. Há poucos vestígios de atividades cotidianas intensas. Em vez disso, os pesquisadores sugerem que os geoglifos serviam para festividades, encontros políticos, cerimônias, dança, música e até competições, incluindo jogos de bola.

Martti Pärssinen destacou que a precisão geométrica dessas obras é “simplesmente impressionante”. Algumas combinações de círculos dentro de quadrados perfeitos mostram um domínio sofisticado de medidas e planejamento espacial. A presença de castanheiras (Bertholletia excelsa) em torno de vários sítios também sugere que a população praticava o manejo e a domesticação de árvores úteis, prática ainda comum entre povos indígenas contemporâneos.

Limitações e controvérsias

Apesar da força dos dados, as estimativas populacionais ainda são extrapoladas. A área efetivamente mapeada com lidar representa menos de 3% da Grande Amazônia. Alguns arqueólogos, como Eduardo Neves, da USP, e José Iriarte, da Universidade de Exeter, ressaltam que é necessário mais trabalho de campo para confirmar a densidade demográfica e a duração exata de cada sítio.

Há também preocupações de povos indígenas sobre o uso de lidar em seus territórios. Alguns grupos temem que o mapeamento possa atrair interesses econômicos ou aumentar a pressão sobre áreas ainda preservadas. Os autores do estudo enfatizam a necessidade de parceria contínua com as comunidades locais.

Conexão com o Brasil contemporâneo

A descoberta reforça o argumento de que as Terras Indígenas e as áreas protegidas da Amazônia não são apenas reservas de biodiversidade, mas também patrimônios históricos de complexas sociedades ancestrais. No Acre, vários geoglifos já conhecidos estão em áreas de pastagem ou próximas a estradas, o que aumenta o risco de destruição. Políticas de proteção arqueológica precisam caminhar juntas com a demarcação de territórios indígenas e o combate ao desmatamento.

O estudo também se alinha a outras pesquisas recentes que usam lidar no Brasil, no Equador e na Bolívia, mostrando que a Amazônia foi, por milênios, uma paisagem domesticada e densamente ocupada. A floresta que conhecemos hoje é, em grande parte, o resultado de milhares de anos de manejo indígena.

Origem da informação e data

A pesquisa foi publicada na revista Nature em julho de 2026. A equipe internacional contou com a participação de pesquisadores finlandeses, brasileiros e com a colaboração de membros da nação Apurinã. Os dados de lidar foram obtidos em sobrevoos realizados nos anos anteriores e analisados com modelos estatísticos que consideram clima, solo e distância de rios.

Essa descoberta não encerra o debate sobre a demografia pré-colonial da Amazônia, mas eleva o padrão de evidência. Em vez de uma floresta vazia, o que emerge é um território de sociedades complexas, capazes de mobilizar milhares de pessoas para construir paisagens cerimoniais que ainda hoje impressionam pela escala e pela geometria.

Para o público brasileiro, a mensagem é clara: a história da Amazônia é muito mais antiga, densa e sofisticada do que a maioria dos livros didáticos ainda ensina. E os geoglifos do Acre são a prova visual mais recente e impactante desse passado.

Imagem associada: geoglifos-civilizacao-aquiry-acre-amazonia-laser-revela-quase-400-estruturas.webp
Alt: Vista aérea de geoglifos circulares e quadrados sob a floresta densa do Acre
Description: Estruturas geométricas da civilização Aquiry reveladas por tecnologia lidar no sudoeste da Amazônia brasileira.

(Palavras aproximadas: 1.050)

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