Fêmea de calau se tranca no oco de uma árvore por até quatro meses, fecha a porta com as próprias fezes e depende do macho para comer; e o calor ainda não mudou esse ritual

Fêmea de calau se tranca no oco de uma árvore por até quatro meses, fecha a porta com as próprias fezes e depende do macho para comer; e o calor ainda não mudou esse ritual
Calau-grande (Buceros bicornis) na Reserva de Tigres de Pakke, na Índia. Foto: Malyasri Bhattacharya, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

Todo começo de ano, nas florestas do nordeste da Índia, uma fêmea de calau-grande entra no oco de uma árvore alta e começa a fechar a entrada por dentro. O reboco é feito com as próprias fezes. Ela deixa apenas uma fresta estreita e, pelos três ou quatro meses seguintes, depende do macho, que traz comida e a entrega pelo buraco.

Um estudo de quase duas décadas mostra que esse ritual tem se mantido firme. Enquanto muitas aves da Europa e da América do Norte passaram a botar ovos alguns dias mais cedo a cada década por causa do aquecimento, as fêmeas de calau-grande não anteciparam a data média em que se trancam no ninho.

Quase 20 anos de olho nos ninhos

Os dados vêm da pesquisadora Aparajita Datta e colegas da Fundação para a Conservação da Natureza, que monitoram árvores-ninho na Reserva de Tigres de Pakke, no estado de Arunachal Pradesh, desde 1998. O trabalho ainda é um preprint, ou seja, não passou pela revisão de outros cientistas para publicação em revista.

A equipe marcou ocos com cara de ninho e os checou todos os anos, ocupados ou não. Acompanhou 65 ninhos de três espécies de calau. Entre fevereiro e agosto, os observadores verificavam cada ninho a cada dois ou três dias: entrada selada, macho levando comida ou sons vindos de dentro do tronco indicavam ninho em uso. A rotina padronizada começou em 2007, e a análise usa 18 temporadas, de 2007 a 2024.

A data não mudou

Em média, a fêmea de calau-grande se fechou no ninho por volta de 17 de março. A mais adiantada entrou em 17 de fevereiro e a mais atrasada, em 18 de abril. Ao longo das 18 temporadas, essa média não se moveu, assim como a proporção de ocos ocupados e de ninhos que criaram ao menos um filhote.

O que varia é o ano a ano. Depois de fins de janeiro e fevereiros mais quentes, as aves tenderam a nidificar mais cedo, cerca de dez dias a cada grau a mais. A evidência para o calau-grande, porém, é fraca, baseada em oito anos de registros. Anos de El Niño e La Niña não fizeram diferença. Por enquanto, o ajuste anual parece suficiente, porque o sucesso dos ninhos não caiu.

Reboco de fezes e sementes de figo

Livros antigos de história natural discordavam sobre o material do reboco. Vários falavam em barro, e alguns diziam que o macho ajudava trazendo lama. Os biólogos Ragupathy Kannan e Douglas James observaram um ninho de calau-grande por 183 horas ao longo de dois anos, no sul da Índia, e nunca viram uma ave carregar barro. A fêmea usava só as próprias fezes, e, depois que ela saiu, o filhote voltou a selar a entrada com as dele.

Pedaços do reboco foram analisados em laboratório da Universidade do Arkansas: a composição química batia com a de excremento animal, e não com a do solo tropical. O resultado saiu em 2007 no Wilson Journal of Ornithology. Datta já tinha visto o mesmo em oito ninhos durante seu doutorado. As fezes eram feitas principalmente de sementes de figo, que, segundo Kannan e James, dão liga ao reboco como o cascalho no concreto.

Parecido com tucano, mas não é parente

O calau-grande (Buceros bicornis) é a maior das três espécies de calau de Pakke. Mede de 120 a 150 centímetros e pesa até 3,9 quilos. Come principalmente frutos e é estudado como dispersor de sementes. A IUCN o classifica como vulnerável, com perda de habitat e caça entre as ameaças.

Para o leitor brasileiro, o bico enorme lembra o do tucano. A semelhança é um caso clássico de convergência: calaus, da Ásia e da África, e tucanos, das Américas, não são parentes próximos, mas desenvolveram bicos grandes e hábitos parecidos, como comer frutos e fazer ninho em ocos de árvores.

Perguntas frequentes

Por que a fêmea do calau se fecha no ninho?

Para proteger ovos e filhotes de predadores. Com a entrada quase fechada, só a fresta por onde o macho entrega comida fica aberta.

Calau e tucano são da mesma família?

Não. São grupos diferentes que ficaram parecidos por evolução convergente.

Com informações da Fundação para a Conservação da Natureza (Índia) e do Wilson Journal of Ornithology.

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