
Todo começo de ano, nas florestas do nordeste da Índia, uma fêmea de calau-grande entra no oco de uma árvore alta e começa a fechar a entrada por dentro. O reboco é feito com as próprias fezes. Ela deixa apenas uma fresta estreita e, pelos três ou quatro meses seguintes, depende do macho, que traz comida e a entrega pelo buraco.
Um estudo de quase duas décadas mostra que esse ritual tem se mantido firme. Enquanto muitas aves da Europa e da América do Norte passaram a botar ovos alguns dias mais cedo a cada década por causa do aquecimento, as fêmeas de calau-grande não anteciparam a data média em que se trancam no ninho.
Quase 20 anos de olho nos ninhos
Os dados vêm da pesquisadora Aparajita Datta e colegas da Fundação para a Conservação da Natureza, que monitoram árvores-ninho na Reserva de Tigres de Pakke, no estado de Arunachal Pradesh, desde 1998. O trabalho ainda é um preprint, ou seja, não passou pela revisão de outros cientistas para publicação em revista.
A equipe marcou ocos com cara de ninho e os checou todos os anos, ocupados ou não. Acompanhou 65 ninhos de três espécies de calau. Entre fevereiro e agosto, os observadores verificavam cada ninho a cada dois ou três dias: entrada selada, macho levando comida ou sons vindos de dentro do tronco indicavam ninho em uso. A rotina padronizada começou em 2007, e a análise usa 18 temporadas, de 2007 a 2024.
A data não mudou
Em média, a fêmea de calau-grande se fechou no ninho por volta de 17 de março. A mais adiantada entrou em 17 de fevereiro e a mais atrasada, em 18 de abril. Ao longo das 18 temporadas, essa média não se moveu, assim como a proporção de ocos ocupados e de ninhos que criaram ao menos um filhote.
O que varia é o ano a ano. Depois de fins de janeiro e fevereiros mais quentes, as aves tenderam a nidificar mais cedo, cerca de dez dias a cada grau a mais. A evidência para o calau-grande, porém, é fraca, baseada em oito anos de registros. Anos de El Niño e La Niña não fizeram diferença. Por enquanto, o ajuste anual parece suficiente, porque o sucesso dos ninhos não caiu.
Reboco de fezes e sementes de figo
Livros antigos de história natural discordavam sobre o material do reboco. Vários falavam em barro, e alguns diziam que o macho ajudava trazendo lama. Os biólogos Ragupathy Kannan e Douglas James observaram um ninho de calau-grande por 183 horas ao longo de dois anos, no sul da Índia, e nunca viram uma ave carregar barro. A fêmea usava só as próprias fezes, e, depois que ela saiu, o filhote voltou a selar a entrada com as dele.
Pedaços do reboco foram analisados em laboratório da Universidade do Arkansas: a composição química batia com a de excremento animal, e não com a do solo tropical. O resultado saiu em 2007 no Wilson Journal of Ornithology. Datta já tinha visto o mesmo em oito ninhos durante seu doutorado. As fezes eram feitas principalmente de sementes de figo, que, segundo Kannan e James, dão liga ao reboco como o cascalho no concreto.
Parecido com tucano, mas não é parente
O calau-grande (Buceros bicornis) é a maior das três espécies de calau de Pakke. Mede de 120 a 150 centímetros e pesa até 3,9 quilos. Come principalmente frutos e é estudado como dispersor de sementes. A IUCN o classifica como vulnerável, com perda de habitat e caça entre as ameaças.
Para o leitor brasileiro, o bico enorme lembra o do tucano. A semelhança é um caso clássico de convergência: calaus, da Ásia e da África, e tucanos, das Américas, não são parentes próximos, mas desenvolveram bicos grandes e hábitos parecidos, como comer frutos e fazer ninho em ocos de árvores.
Perguntas frequentes
Por que a fêmea do calau se fecha no ninho?
Para proteger ovos e filhotes de predadores. Com a entrada quase fechada, só a fresta por onde o macho entrega comida fica aberta.
Calau e tucano são da mesma família?
Não. São grupos diferentes que ficaram parecidos por evolução convergente.
Com informações da Fundação para a Conservação da Natureza (Índia) e do Wilson Journal of Ornithology.
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