
Vídeo mostra o cardume localizando a isca pela água escura, arrancando pedaços de carne e continuando o ataque depois que o frango é devolvido ao rio
O frango desaparece no meio do cardume
Um frango cru mal toca a água e já é cercado por dezenas de peixes. Em menos de dois minutos, a isca é destroçada por um cardume que se movimenta de forma contínua, arrancando pedaços da carne e disputando o alimento preso a uma corda. Em determinado momento, os animais chegam a cortar a própria corda. Quando o frango é devolvido ao rio, eles continuam se alimentando, sem abandonar a fonte de carne.
A cena foi registrada em Rondônia pelo biólogo Flávio Terassini durante uma expedição realizada na semana anterior à divulgação do vídeo, em 27 de maio de 2026. O peixe visto nas imagens é o candiru-açu, um bagre carniceiro que costuma ser confundido com piranhas por causa da velocidade com que remove a carne. A identificação é importante porque o nome candiru reúne espécies com hábitos diferentes, incluindo os pequenos peixes hematófagos que ficaram conhecidos por relatos de entrada na uretra humana.
O peixe usa dentes para cortar a carne
Segundo o pesquisador Fernando Dagosta, especialista em diversidade e biogeografia de peixes de água doce, o candiru-açu não é o chamado candiru hematófago. Ele pertence a um grupo de bagres carniceiros e possui dentes bem desenvolvidos, utilizados para cortar e arrancar pedaços de carne. Esse conjunto de características ajuda a explicar por que um alimento grande, como o frango preso à corda, pode ser rapidamente reduzido por muitos indivíduos ao mesmo tempo.
O comportamento observado no vídeo está ligado à forma como esses peixes encontram alimento. O candiru-açu vive principalmente em rios de águas escuras, entre eles o Madeira e seus afluentes, ambientes em que a visão tem utilidade limitada. Nessa condição, o olfato exerce papel central. O cheiro liberado por um animal morto, ferido ou em decomposição pode se espalhar pela água e orientar os peixes até a origem da matéria orgânica.
Dezenas de peixes transformam a isca em alimento
A ação coletiva torna o ataque especialmente rápido. Um indivíduo morde e remove parte da carne, enquanto outros se aproximam pelo mesmo estímulo químico. O cardume não depende de uma única mordida nem de um animal isolado para consumir a presa. A combinação entre dentes cortantes, grande número de peixes e localização guiada pelo cheiro transforma o frango em uma fonte de alimento explorada por todos os lados.
O vídeo também mostra que a corda não funciona como barreira duradoura. Os peixes alcançam o material que prende a isca e, em certo momento, conseguem cortá-lo. Mesmo depois que o alimento é devolvido ao rio, o cardume permanece concentrado no frango. A sequência revela uma resposta alimentar direcionada à carne, e não um ataque indiscriminado a qualquer objeto colocado na água. O comportamento registrado é compatível com o hábito de consumir animais mortos ou feridos.
O temor humano não corresponde ao comportamento mais comum
Apesar da aparência voraz do ataque, o candiru-açu não costuma atacar seres humanos vivos. Dagosta explica que esses peixes se alimentam de animais mortos ou feridos no rio. Entre as fontes possíveis estão peixes, botos e animais de grande porte, como cavalos, além de pessoas que tenham morrido na água. Por isso, a associação com corpos submersos não significa que o peixe procure pessoas saudáveis para atacar.
A cena de Rondônia também ajuda a separar dois animais que frequentemente aparecem misturados no imaginário popular. O candiru-açu é o bagre carniceiro que usa dentes para retirar carne, enquanto os candirus hematófagos têm outro modo de alimentação e são os chamados candirus verdadeiros em muitos relatos. O vídeo foi divulgado em 27 de maio de 2026 e ganhou circulação nas redes sociais. A observação de um frango sendo consumido em menos de dois minutos não transforma o peixe em piranha, mas mostra como cheiro, cardume e dentição podem atuar juntos na água escura amazônica.
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