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Fungos são testados para restaurar pastagens degradadas na Mongólia e revelam redes subterrâneas

Fungos são testados para restaurar pastagens degradadas na Mongólia e revelam redes subterrâneas
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Experimentos com seis áreas cercadas mostram como microrganismos podem ajudar a recuperar solos e conter a desertificação.

Pesquisadoras estudam fungos micorrízicos em áreas de pastagem da Mongólia
Fungos micorrízicos podem formar redes subterrâneas que ajudam a manter o solo unido. Foto: Tomas Munita/SPUN.

O que parece apenas um pedaço de terra seca pode esconder uma rede viva capaz de mudar o destino de uma pastagem. Na Mongólia, cientistas estão testando fungos micorrízicos para recuperar áreas degradadas, conter a desertificação e aumentar a resistência das plantas à seca. A pesquisa foi apresentada em 21 de agosto de 2026, em Ulaanbaatar, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação, a COP17.

Esses fungos vivem em associação com as raízes das plantas e formam estruturas extensas no solo. Em troca do carbono produzido pela vegetação durante a fotossíntese, eles ajudam as plantas a encontrar água e nutrientes, como fósforo e nitrogênio. A relação pode ser decisiva em regiões de estepe e deserto, onde a pressão do pastoreio e as condições climáticas dificultam a regeneração natural.

Pequenas cercas funcionam como refúgios subterrâneos

A estratégia adotada pelas pesquisadoras é simples de visualizar. Pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e reduzir a interferência humana. Com menos pressão sobre a vegetação, o solo pode recuperar parte de sua estrutura e oferecer condições para o retorno das plantas e dos microrganismos.

As áreas protegidas também podem funcionar como uma espécie de banco de fungos locais. No futuro, esses refúgios poderiam fornecer organismos adaptados ao ambiente da Mongólia para projetos de restauração, sem depender da introdução de espécies trazidas de outras regiões.

“É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantém o solo unido. São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo”, explicou Toby Kiers, bióloga evolucionista e diretora-executiva da Society for the Protection of Underground Networks, a SPUN.

Segundo a Agência Brasil, seis áreas foram cercadas pela ecóloga Burenjargal Otgonsuren em regiões de estepe e deserto da Mongólia. Os primeiros resultados, obtidos em 2025, indicaram que a vegetação dentro das áreas protegidas já apresentava maior altura do que as plantas encontradas fora das cercas.

O ciclo que liga raízes, carbono e estabilidade

A recuperação não depende apenas do crescimento visível das plantas. As redes formadas pelos fungos ajudam a agregar partículas do solo, diminuem a erosão e podem aumentar a resistência da vegetação ao estresse ambiental. Quando o solo fica mais estável, as plantas encontram melhores condições para crescer e voltam a fornecer carbono aos fungos.

Esse processo cria um ciclo de recuperação. Quando a diversidade subterrânea diminui, menos carbono entra no solo e parte da capacidade de mantê-lo unido também é perdida. O resultado pode ser um ambiente ainda mais vulnerável à erosão, à seca e à degradação.

“É um ciclo. Você perde a diversidade de fungos, perde o carbono que está entrando no solo e perde parte da capacidade de manter o solo unido. Isso dificulta o crescimento das plantas e pode alimentar ainda mais a degradação”, afirmou Toby Kiers.

A pesquisadora Burenjargal Otgonsuren pretende acompanhar os experimentos por pelo menos três anos. Entre os próximos passos estão a criação de corredores ou refúgios mais amplos para conservar os fungos e avaliar se eles podem ser multiplicados para uso em áreas degradadas.

Fungos são testados para restaurar pastagens degradadas na Mongólia e revelam redes subterrâneas
Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

Quase 90% das sequências analisadas eram desconhecidas

O levantamento também revelou uma dimensão pouco conhecida da biodiversidade das estepes mongóis. Cerca de 90% das sequências de DNA fúngico identificadas nas amostras pertenciam a espécies ainda não descritas pela ciência. Na região do Gobi, foram encontradas 541 unidades taxonômicas associadas aos fungos micorrízicos.

Parte desses organismos parece estar altamente adaptada às condições locais e pode não ocorrer em outras regiões do planeta. Por isso, a proposta não é simplesmente transportar fungos de outros ambientes para as áreas degradadas. A prioridade defendida pelas cientistas é proteger as espécies locais e estudar formas de reproduzi-las com segurança.

“Para recuperar a pastagem, a questão mais importante é ter um solo saudável. E, quando falamos de solo saudável, precisamos também proteger a biodiversidade que vive dentro dele”, disse Otgonsuren.

O que a experiência ensina para outras regiões

A pesquisa interessa a países que enfrentam desertificação, perda de cobertura vegetal e empobrecimento do solo. Na Amazônia, a discussão também pode contribuir para projetos de restauração em áreas alteradas por desmatamento, queimadas, mineração ou uso agropecuário, embora os fungos adequados dependam das condições de cada ambiente.

A lógica é especialmente importante porque a floresta amazônica não se resume ao que aparece acima do solo. Raízes, bactérias, fungos e outros organismos formam uma comunidade subterrânea que participa da ciclagem de nutrientes e da manutenção da estrutura do solo. Estudos feitos para a Mongólia não podem ser aplicados automaticamente ao Brasil, mas reforçam a necessidade de considerar a biodiversidade invisível em planos de recuperação nos estados amazônicos.

Para Toby Kiers, políticas ambientais ainda concentram atenção em plantas e animais visíveis, deixando microrganismos fora de muitas áreas prioritárias de conservação. Segundo a SPUN, cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela organização estão fora de áreas protegidas.

A expectativa é incorporar os fungos às políticas de combate à desertificação e aos sistemas de monitoramento da degradação da terra. Os experimentos mongóis continuarão por pelo menos três anos, período que deverá indicar se as áreas cercadas podem se transformar em fontes confiáveis de organismos para projetos de restauração.

Respostas rápidas sobre a pesquisa

A técnica já pode ser aplicada em qualquer área degradada?

Não. O estudo ainda está em fase experimental, e os fungos precisam ser avaliados de acordo com as características de cada região. A introdução de espécies de outros locais pode causar impactos indesejados.

Por que proteger os fungos locais?

Porque muitos podem ser exclusivos de determinado ambiente e estar adaptados às condições de solo, clima e vegetação daquela região. Na Mongólia, cerca de 90% das sequências analisadas ainda não são conhecidas pela ciência.

Com informações de Agência Brasil.

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