
Nos anos 1950, a China precisava proteger sua primeira ferrovia a atravessar um deserto: a linha Baotou-Lanzhou, que cruza o deserto de Tengger perto da cidade de Zhongwei, na região de Ningxia. As dunas se moviam com o vento e ameaçavam cobrir os trilhos. A solução, criada por cientistas da Academia Chinesa de Ciências com moradores da região, foi surpreendentemente simples: fincar palha na areia em quadrados de cerca de um metro de lado. Setenta anos depois, segundo o governo chinês, Zhongwei recuperou cerca de 100 mil hectares de deserto, e a cobertura vegetal passou de menos de 1% para 42%.
Uma estação no meio da areia
Em 1955, a Academia Chinesa de Ciências instalou em Shapotou, às margens do deserto de Tengger, a sua primeira estação de pesquisa em deserto. Hoje ligada ao Instituto Noroeste de Ecoambiente e Recursos da academia, a Estação de Pesquisa e Experimentos do Deserto de Shapotou desenvolveu ali as técnicas de fixação de areia que permitiram à ferrovia funcionar desde o fim dos anos 1950.
Como funciona o quadrado de palha
Feixes de palha de trigo ou de arroz são enterrados verticalmente na areia, deixando uma parte para fora, e formam uma grade de quadrados. Cada quadrado funciona como um pequeno quebra-vento:
- reduz a velocidade do vento rente ao chão, que é o que faz a areia rolar e as dunas andarem;
- segura a areia e a poeira dentro de cada quadrado;
- acumula matéria orgânica, à medida que a palha se decompõe, e ajuda a formar uma crosta na superfície que impede a areia de se mover;
- cria condições para que sementes germinem e mudas plantadas sobrevivam.
Um estudo publicado em 2004 no Journal of Arid Environments mediu redução de 20% a 40% na velocidade do vento a meio metro do solo dentro das grades. Trabalhos técnicos apresentados em simpósio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos descrevem que o método ajuda a transformar dunas móveis, com menos de 5% de vegetação, em dunas fixas com 30% a 50% de cobertura vegetal.
Da palha às plantas
Os quadrados são o primeiro passo. Depois que a areia se estabiliza, são plantados arbustos resistentes à seca, sem irrigação. Com o tempo, a vegetação assume o papel da palha, que dura cerca de quatro a cinco anos e precisa ser reposta enquanto as plantas não se firmam.
A técnica também ganhou melhorias. Um engenheiro florestal de Zhongwei criou uma ferramenta de aço que planta as raízes das mudas a 50 centímetros de profundidade, na camada de areia ainda úmida. Segundo o governo chinês, o instrumento elevou a taxa de sobrevivência das mudas de 25% para mais de 85% e foi adotado em outras regiões do norte do país. Em 2019, surgiu uma versão de grade que pode ser produzida em massa por máquinas.
Um modelo exportado
As grades de palha viraram símbolo do combate à desertificação na China e são usadas em outros desertos do país. Pesquisadores e técnicos de outros países visitam Shapotou para conhecer o método, que é barato e usa um resíduo agrícola abundante.
E no Brasil?
O Brasil também enfrenta desertificação, principalmente no semiárido nordestino, onde há núcleos de solo degradado. Técnicas simples de contenção do solo e de recomposição da vegetação nativa são estudadas por pesquisadores brasileiros para essas áreas. A experiência chinesa mostra que recuperar uma área degradada exige décadas de trabalho contínuo, mas é possível.
Perguntas frequentes
O que são os quadrados de palha?
Grades de palha fincada na areia, em quadrados de cerca de um metro, que reduzem o vento rente ao chão e seguram as dunas.
Onde a técnica foi criada?
Em Shapotou, no deserto de Tengger, na China, pela Academia Chinesa de Ciências, a partir de 1955.
Para que serviu?
Para proteger a ferrovia Baotou-Lanzhou, a primeira da China a atravessar um deserto.
Quanto a vegetação aumentou?
Em Zhongwei, a cobertura vegetal passou de menos de 1% para 42% em cerca de 100 mil hectares, segundo o governo chinês.
Com informações da Academia Chinesa de Ciências, do governo da China e de estudos publicados no Journal of Arid Environments e em simpósio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
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