
Ações circulares inovadoras em cinco cidades mostram o caminho para reduzir emissões e fortalecer a resiliência urbana.
Embalagens, gramados artificiais, lenços umedecidos, canudos: o plástico, material onipresente em nosso cotidiano devido ao seu baixo custo, leveza e durabilidade, esconde um custo ambiental, econômico e social que se estende da extração de combustíveis fósseis à contaminação da cadeia alimentar por microplásticos. As cidades estão no epicentro dessa crise global, sendo grandes focos de consumo e geração de resíduos plásticos. Diariamente, o equivalente a mais de 2.000 caminhões de lixo plástico despejam seus conteúdos em oceanos, lagos e rios, uma estatística alarmante que sublinha a urgência de ação coordenada.
Apesar de ser frequentemente reduzido a uma questão de gestão de resíduos, o plástico representa um desafio multidimensional, afetando a resiliência urbana, a biodiversidade, os recursos hídricos, a infraestrutura, os sistemas alimentares, a qualidade de vida e a justiça social. A chamada crise do plástico é, na verdade, uma crise climática, pois a produção, o uso e o descarte do material emitem gases de efeito estufa (GEE) em todas as fases de seu ciclo de vida. Essas emissões contribuem significativamente para a pegada de carbono do setor industrial, uma das maiores fontes diretas de GEE globalmente.
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Eletrificação é a “maneira mais segura de proteger cidadãos”, diz presidente COP31Paralelamente, a poluição plástica mina a capacidade das cidades de se adaptar às mudanças climáticas, transformando tempestades em inundações e degradando a função dos ecossistemas como amortecedores naturais. Diante desse cenário complexo, o ICLEI Circulars propõe uma solução: integrar ações circulares do plástico ao planejamento climático urbano. Ao construir sobre estruturas existentes em ambos os setores, as cidades podem evitar a duplicação de esforços e avançar com iniciativas mais integradas para enfrentar esse desafio duplo. Este modelo de atuação somente se concretiza quando as comunidades são empoderadas de forma significativa, especialmente os grupos que vivem mais próximos tanto da poluição quanto dos impactos climáticos, como os trabalhadores informais de resíduos.
Pioneirismo global: Tübingen revoluciona com taxa de uso único
Cinco cidades ao redor do mundo estão aplicando essa lição na prática, cada uma delas ecoando um dos ‘R’es do Quadro de Ações da Cidade Circular do ICLEI: Rethink (Repensar), Regenerate (Regenerar), Reduce (Reduzir), Reuse (Reutilizar) e Recover (Recuperar).
Em Tübingen, na Alemanha, a abordagem para o crescente problema do lixo plástico foi um imposto sobre embalagens de uso único, introduzido em 2020. Antes da implementação da taxa, as autoridades dialogaram com empresas locais para explicar a lógica e a praticidade da medida. Crucialmente, a implementação foi acompanhada de alternativas concretas, conectando empresas a provedores de sistemas de retorno e subsidiando infraestrutura para reutilização. Desde que a cobrança entrou em vigor em 2022, a quantidade de lixo plástico visivelmente diminuiu, enquanto a adoção de sistemas de embalagens reutilizáveis aumentou. A redução de plásticos de uso único na cidade resultou indiretamente na diminuição das emissões ‘upstream’, ligadas à produção, e minimizou o risco de entupimento de esgotos durante eventos de chuva intensa. Este exemplo demonstra que repensar um sistema pode atender simultaneamente a objetivos de circularidade e clima.
Cidade do Panamá e o Projeto Siete Cuencas: Regenerando costas amazônicas
Na Cidade do Panamá, a poluição plástica e as pressões do desmatamento afetam a Baía do Panamá, um pantanal Ramsar protegido que sustenta tanto a rica biodiversidade da região quanto a economia local. Desde de 2024, o projeto Siete Cuencas tem atuado na proteção desse ecossistema vital, interceptando o lixo plástico em cursos d’água urbanos antes que ele chegue ao mar. Até março de 2026, a iniciativa havia recuperado mais de 57 toneladas métricas de resíduos, protegendo os manguezais e pântanos da Baía e o sumidouro de carbono marinho. Igualmente importante é o trabalho do projeto com as comunidades locais para mudar hábitos relacionados ao uso do plástico. O Siete Cuencas demonstra que a regeneração de uma costa começa muito antes, nos cursos d’água urbanos, longe de onde a poluição atinge o mar. Esta abordagem tem relevância direta para a Amazônia, onde cidades ribeirinhas enfrentam desafios similares de poluição hídrica e degradação de ecossistemas fluviais.
Segundo o ICLEI, até março de 2026 o projeto Siete Cuencas recuperou mais de 57 toneladas métricas de resíduos na Cidade do Panamá.
Quezon City: Políticas comunitárias para reduzir o consumo
Quezon City, nas Filipinas, utiliza um amplo conjunto de regulamentações, incentivos e engajamento de partes interessadas para reduzir o consumo de plástico. Entre várias iniciativas, a proibição de sacolas plásticas em 2021 foi complementada com a distribuição gratuita de sacolas reutilizáveis em mercados municipais, garantindo que a conformidade não onerasse residentes de baixa renda. Em parceria com o Greenpeace Filipinas e o Impact Hub Manila, estações de refil para produtos básicos como detergente foram instaladas em milhares de ‘sari-sari stores’, pequenas lojas de bairro enraizadas na cultura filipina, tornando a reutilização um hábito diário para os moradores. As pessoas estão no cerne dos esforços da cidade, com um programa de reciclagem que oferece a mulheres privadas de liberdade uma fonte de renda e reabilitação, transformando lonas em sacolas reutilizáveis. Quezon City ilustra como um pacote de políticas voltado para a comunidade pode gerar reduções escaláveis no consumo de plástico, ao mesmo tempo em que fortalece a preparação para inundações, controlando o lixo plástico que entope os drenos. Na Amazônia, o modelo das ‘sari-sari stores’ pode ser comparado aos pequenos comércios e feiras locais, que poderiam se beneficiar de programas de refil e reutilização adaptados para a realidade regional, integrando a sabedoria popular e a cultura local.

Bhubaneswar: Do lixo à riqueza com a reutilização inteligente
A cidade de Bhubaneswar, na Índia, enfrentava um desafio duplo de resíduos: 130 toneladas de plásticos de baixo valor e 150 toneladas de resíduos de construção e demolição gerados diariamente. Na ausência de sistemas de gestão adequados, esses fluxos eram em grande parte incinerados, aterrados ou despejados. A solução surgiu em 2023, quando a cidade pilotou uma tecnologia para reciclar mecanicamente esses resíduos em materiais de construção, como blocos de sílica-plástico e painéis sem resina. Esse desvio do descarte inadequado reduz as emissões localizadas e contribui para ambientes urbanos mais saudáveis e limpos. Além de recuperar valor dos resíduos, o projeto piloto visava desenvolver um setor empresarial verde local e criar renda estável para comunidades marginalizadas por meio da reciclagem, demonstrando como a reutilização pode impulsionar uma economia local próspera e inclusiva.
Surabaya: Plástico por transporte, um modelo de recuperação
Em Surabaya, na Indonésia, o inovador Suroboyo Bus permite que os residentes paguem as tarifas trocando garrafas plásticas. Lançada em 2018 para combater maus hábitos de descarte e a forte dependência de veículos particulares, esta iniciativa bem-sucedida evoluiu, e os passageiros agora podem trocar garrafas por passagens ou créditos digitais de transporte em pontos de troca dedicados, em vez de fazer a troca diretamente no ônibus. Os plásticos coletados são então vendidos a uma empresa de gestão de resíduos, e as receitas alimentam o orçamento municipal. O programa oferece um ganho triplo: recupera uma importante fonte de poluição plástica, reduz as emissões do transporte e torna o transporte público mais acessível a residentes de baixa renda. Surabaya mostra que a recuperação do plástico não é apenas uma questão de materiais, mas pode se estender à mobilidade, equidade e qualidade de vida. Esta ideia poderia ser adaptada para o transporte fluvial na Amazônia, onde comunidades poderiam trocar plásticos por passagens ou insumos, incentivando a limpeza dos rios.
Um fio condutor conecta Tübingen, Cidade do Panamá, Quezon City, Bhubaneswar e Surabaya: não existe uma solução puramente técnica para a poluição plástica. Em vez disso, é necessário um pacote de políticas holístico, centrado na comunidade, que alavanque todos os cinco ‘R’es da circularidade. Limitar a demanda por plásticos, interceptar o lixo plástico de cursos d’água, reutilizar e recuperar resíduos plásticos são maneiras pelas quais as cidades podem reduzir a poluição plástica e avançar na mitigação e resiliência, construindo ecossistemas urbanos mais inclusivos, limpos e justos.
Esses cinco exemplos são apenas um vislumbre das iniciativas acionáveis lideradas por cidades que serão apresentadas no próximo Practitioners’ Handbook do ICLEI, projetado como um ponto de partida prático para desbloquear ações plásticas circulares no planejamento climático urbano. A expectativa é que este guia inspire mais cidades, incluindo aquelas na Amazônia, a adotarem abordagens integradas para a gestão do plástico e o clima. As cidades da Amazônia, com seus desafios únicos de logística e conservação de biomas, podem se beneficiar imensamente da aplicação desses princípios, adaptando-os para proteger seus rios, florestas e comunidades.
Perguntas Frequentes
O que é a ‘circularidade do plástico’?
A circularidade do plástico é uma abordagem que visa manter o plástico em uso pelo maior tempo possível, reduzindo a necessidade de produção de novo plástico e minimizando o descarte. Isso envolve repensar, reduzir, reutilizar, recuperar e regenerar materiais.
Como a circularidade do plástico ajuda no combate às mudanças climáticas?
Ao reduzir a demanda por plástico virgem, a circularidade diminui as emissões de gases de efeito estufa associadas à produção do plástico e à sua incineração ou descarte inadequado, que também contribui para a poluição e degradação ambiental.
As cidades da Amazônia podem aplicar esses modelos?
Sim, com adaptações locais, as cidades amazônicas podem implementar estratégias similares, focando na coleta e reciclagem de resíduos plásticos em áreas ribeirinhas, incentivando o transporte sustentável e promovendo a reutilização em comunidades.
Com informações de ICLEI.
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