×
Próxima ▸
Leucismo em primatas da Mata Atlântica cresce 50% em 16…

Cientista decifra 11 vocalizações de tentilhão e ganha R$ 500 mil

Cientista decifra 11 vocalizações de tentilhão e ganha R$ 500 mil
Foto: share.google

Pesquisadora conseguiu entender como pequenas aves comunicam identidade e ações, aproximando ciência da comunicação entre espécies.

Conversar com animais parece coisa de filme de ficção científica. Mas uma pesquisadora da Universidade da Califórnia acaba de dar um passo concreto nessa direção, e o feito rendeu a ela meio milhão de reais.

Julie Elie recebeu um prêmio de US$ 100 mil (cerca de R$ 518 mil) após decifrar as principais vocalizações dos tentilhões-zebra, conhecidos no Brasil como mandarins. A cientista identificou 11 chamados diferentes que essas pequenas aves usam para comunicar identidade, ações e reconhecer umas às outras.

O reconhecimento veio por meio do Coller-Dolittle Prize for Two-Way Interspecies Communication, criado em 2024 pela Fundação Jeremy Coller em parceria com a Universidade de Tel Aviv, em Israel. O prêmio anual busca impulsionar avanços na comunicação bidirecional entre humanos e outros animais. Além da recompensa que Elie recebeu, a iniciativa mantém um valor de US$ 10 milhões (cerca de R$ 52 milhões) para quem conseguir solucionar esse desafio de forma definitiva.

Mais de uma década observando pássaros

O trabalho de Elie começou há mais de dez anos. Ela observou e gravou milhares de vocalizações emitidas pelos tentilhões-zebra, classificando cada uma de acordo com o contexto em que era produzida e com o indivíduo responsável por emiti-la.

Em seguida, a pesquisadora utilizou técnicas de aprendizado de máquina para investigar como as informações eram codificadas nesses sons. O resultado foi a identificação de 11 vocalizações principais e seus respectivos significados.

Segundo Elie, as aves utilizam esses chamados para anunciar quem são, indicar o que estão fazendo e ainda carregam “assinaturas” individuais que permitem que sejam reconhecidas pelos demais membros do grupo, independentemente da mensagem transmitida.

Como os experimentos funcionaram

Nos experimentos, os mandarins ouviam diferentes vocalizações ao pressionar um botão. Algumas eram seguidas por uma recompensa em sementes, já outras, não. Com o tempo, os animais aprenderam a pular os sons que não traziam recompensa.

Elie comparou esse comportamento ao hábito humano de deslizar rapidamente por vídeos nas redes sociais quando o início parece pouco interessante. O mais revelador, porém, foi perceber como as aves erravam.

Quando cometiam erros, os tentilhões tendiam a confundir chamados com significados semelhantes, e não aqueles que simplesmente soavam parecidos. “Suas respostas indicavam que elas tinham uma imagem mental do significado de suas vocalizações”, disse Elie ao jornal The Guardian. “Em outras palavras, que elas entendiam o significado de seus tipos de cantos.”

O que os especialistas dizem

Para Yossi Yovel, zoólogo da Universidade de Tel Aviv e presidente do júri da premiação, o trabalho representa “um momento-chave” para o campo da comunicação entre espécies.

Já Jonathan Birch, membro da banca examinadora, destacou que a pesquisa não apenas construiu um “dicionário” das principais vocalizações dos tentilhões, como também desenvolveu experimentos capazes de verificar se essa interpretação fazia sentido para os próprios animais.

Cientista decifra 11 vocalizações de tentilhão e ganha R$ 500 mil
Foto: share.google

Segundo Julie Elie, os tentilhões-zebra apresentam 11 vocalizações principais que servem para comunicação de identidade e ações dentro do grupo, em junho de 2026.

Entenda o caso

Os tentilhões-zebra são aves pequenas originalmente da Austrália, conhecidas no Brasil como mandarins. A capacidade de aprender novas vocalizações fez dessas aves uma das principais espécies utilizadas em pesquisas sobre aprendizagem vocal. O estudo de Julie Elie avançou ao demonstrar não apenas a existência de diferentes chamados, mas que os próprios pássaros entendem o significado desses sons.

Inteligência artificial acelera descobertas

Os avanços recentes em inteligência artificial estão transformando as perspectivas da área. Algoritmos de aprendizado de máquina vêm permitindo que pesquisadores identifiquem padrões e significados em vocalizações animais com um nível de detalhe que antes era difícil de alcançar.

Ainda assim, especialistas afirmam que existe um longo caminho até uma comunicação realmente bidirecional entre humanos e outras espécies. A diferença entre entender o que os animais dizem e ter uma conversa de mão dupla ainda é significativa.

Mesmo assim, o empresário Jeremy Coller demonstrou otimismo. Segundo ele, a rápida evolução da IA torna inevitável que o código da comunicação animal seja decifrado, chegando a prever que isso poderá acontecer até 2030.

Relevância para a Amazônia

Embora o estudo tenha sido realizado com aves australianas, os métodos desenvolvidos por Elie podem ser aplicados a espécies amazônicas. A região abriga mais de 1.300 espécies de aves, muitas delas com sistemas de comunicação complexos ainda pouco compreendidos.

Araras, papagaios e tucanos da floresta amazônica utilizam vocalizações sofisticadas para se comunicar em meio à densa vegetação. Técnicas semelhantes de aprendizado de máquina poderiam ajudar pesquisadores brasileiros a decifrar esses códigos sonoros, contribuindo para a conservação de espécies ameaçadas e para o entendimento da biodiversidade regional.

Perguntas frequentes

O que são tentilhões-zebra?

São pequenas aves originárias da Austrália, conhecidas no Brasil como mandarins. Elas têm listras pretas e brancas no corpo e são muito utilizadas em pesquisas sobre aprendizagem vocal porque conseguem aprender novos sons ao longo da vida.

Como Julie Elie conseguiu decifrar as vocalizações?

A pesquisadora gravou milhares de chamados dos tentilhões ao longo de mais de uma década, classificou cada um por contexto e indivíduo, e usou algoritmos de aprendizado de máquina para identificar padrões. Depois, testou se as próprias aves reconheciam os significados por meio de experimentos com recompensas.

Quando teremos comunicação real com animais?

Especialistas são cautelosos, mas Jeremy Coller, criador do prêmio, prevê que avanços em inteligência artificial podem permitir decifrar o código da comunicação animal até 2030. No entanto, uma conversa bidirecional completa ainda enfrenta desafios científicos e éticos significativos.

O próximo passo da pesquisa envolve aplicar técnicas semelhantes a outras espécies e testar se é possível não apenas entender o que os animais comunicam, mas também responder de forma que eles compreendam. O prêmio principal de US$ 10 milhões ainda aguarda quem alcançar esse marco histórico.

Com informações de Universidade da Califórnia.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA